Há uns dez anos, escrevi uma crônica com o título ESTÁ DIFÍCIL. Comentava a dificuldade que tinha para encontrar um assunto. Abordei, então, várias possibilidades, que me pareceram repetitivas, o que me fez descartar todas e encerrar a crônica, desculpando-me com o leitor. Eis que, agora, o problema se repete. Não sei se é porque não há assuntos novos mesmo ou se é porque, com o tempo, o cronista perdeu a criatividade.
Até pensei em escrever sobre política. Caramba! Política é sempre um assunto atual – pensei. Depois de alguns segundos, no entanto – pouquíssimos segundos, alias – descartei essa possibilidade. O que há de novo na política? Os opositores, ao invés de serem apenas adversários, viraram inimigos mortais. Existem pessoas comemorando a doença do adversário e desejando a sua morte. O nível vocabular das críticas é deplorável. Querem convencer pelo grito, não pelo argumento. Ninguém dá direito ao outro de pensar de maneira diferente. Essa briga – é briga mesmo que está acontecendo – atualmente, não vale a pena. Você se desgasta e não muda absolutamente nada. Política, então, nem pensar.
Pensei em contribuir com minha parcela, escrevendo sobre educação. Enfim, trabalhei na educação dos vinte e um aos setenta e cinco anos. Não é pouco tempo. Passei por várias funções, por várias teorias, por várias gerações. Um dia desses, um conhecido me disse, em tom intelectual: Hoje, você não conseguiria dar aula. A realidade é bem diferente. Não contestei. Adiantaria alguma coisa?
Mudaria a cotação do dólar? Deixei que o interlocutor pensasse que estava com a razão. Seria muito demorado explicar a ele que eu havia passado por um monte de mudanças tanto na educação como na sociedade , e não tinha tido maiores problemas Era só me atualizar.
Teria que explicar a ele que professor não é museu. O professor que deseja ser útil em sua função precisa estar em constante processo de atualização. Mas será que adiantaria alguma coisa? Malhar em ferro frio é perda de tempo, diziam os mais velhos. Não acontece nada com o ferro e você fica cansado e com dores musculares.
Como estava dizendo, pensei em escrever sobre educação. Será que ela ainda tem jeito? O primeiro jeito é incluir as famílias no processo educativo. Se família e escola não caminharem no mesmo sentido, nada vai mudar. É possível isso? Possível é, mas é demorado. Todo processo de conscientização é demorado. Os pais precisam ter a consciência de que não adianta encher o filho de atividades. O filho precisa aprender a viver em ambientes não escolares. Precisa brincar. Brincar. Não ficar grudado no celular.
O filho precisa viver na família. Na família: pai, mãe, irmão, tios, primos, cachorro… Precisa aprender a conviver. A conversar. A errar e acertar. Não precisa só de aulas. Há um mundo inteiro fora das escolas. Adianta falar tudo isso? Isso já foi falado, e falado, e falado, e falado. Tem adiantado alguma coisa? Muito pouco. Quase nada. Então, vamos deixar pra lá.
Não vão pensar que eu acho que o mundo não tem solução. Claro que tem. Mas é preciso que as pessoas queiram solucionar, mudar para melhor. Só pra terminar: manter ignorante o ignorante, com a prática do assistencialismo sem contrapartida não resolve. É preciso algo mais.
BAHIGE FADEL
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