Coluna Bahige Fadel

Está Difícil II

Há uns dez anos, escrevi uma crônica com o título ESTÁ DIFÍCIL. Comentava a dificuldade que tinha para encontrar um assunto. Abordei, então, várias possibilidades, que me pareceram repetitivas, o que me fez descartar todas e encerrar a crônica, desculpando-me com o leitor. Eis que, agora, o problema se repete. Não sei se é porque não há assuntos novos mesmo ou se é porque, com o tempo, o cronista perdeu a criatividade.

 

Até pensei em escrever sobre política. Caramba! Política é sempre um assunto atual – pensei. Depois de alguns segundos, no entanto – pouquíssimos segundos, alias – descartei essa possibilidade. O que há de novo na política? Os opositores, ao invés de serem apenas adversários, viraram inimigos mortais. Existem pessoas comemorando a doença do adversário e desejando a sua morte. O nível vocabular das críticas é deplorável. Querem convencer pelo grito, não pelo argumento. Ninguém dá direito ao outro de pensar de maneira diferente. Essa briga – é briga mesmo que está acontecendo – atualmente, não vale a pena. Você se desgasta e não muda absolutamente nada. Política, então, nem pensar.

 

Pensei em contribuir com minha parcela, escrevendo sobre educação. Enfim, trabalhei na educação dos vinte e um aos setenta e cinco anos. Não é pouco tempo. Passei por várias funções, por várias teorias, por várias gerações. Um dia desses, um conhecido me disse, em tom intelectual: Hoje, você não conseguiria dar aula. A realidade é bem diferente. Não contestei. Adiantaria alguma coisa?

 

Mudaria a cotação do dólar? Deixei que o interlocutor pensasse que estava com a razão. Seria muito demorado explicar a ele que eu havia passado por um monte de mudanças tanto na educação como na sociedade , e não tinha tido maiores problemas Era só me atualizar.

 

Teria que explicar a ele que professor não é museu. O professor que deseja ser útil em sua função precisa estar em constante processo de atualização. Mas será que adiantaria alguma coisa? Malhar em ferro frio é perda de tempo, diziam os mais velhos. Não acontece nada com o ferro e você fica cansado e com dores musculares.

Como estava dizendo, pensei em escrever sobre educação. Será que ela ainda tem jeito? O primeiro jeito é incluir as famílias no processo educativo. Se família e escola não caminharem no mesmo sentido, nada vai mudar. É possível isso? Possível é, mas é demorado. Todo processo de conscientização é demorado. Os pais precisam ter a consciência de que não adianta encher o filho de atividades. O filho precisa aprender a viver em ambientes não escolares.  Precisa brincar. Brincar. Não ficar grudado no celular.

 

O filho precisa viver na família. Na família: pai, mãe, irmão, tios, primos, cachorro… Precisa aprender a conviver. A conversar. A errar e acertar. Não precisa só de aulas. Há um mundo inteiro fora das escolas. Adianta falar tudo isso? Isso já foi falado, e falado, e falado, e falado. Tem adiantado alguma coisa? Muito pouco. Quase nada. Então, vamos deixar pra lá.

 

Não vão pensar que eu acho que o mundo não tem solução. Claro que tem. Mas é preciso que as pessoas queiram solucionar, mudar para melhor. Só pra terminar: manter ignorante o ignorante, com a prática do assistencialismo sem contrapartida não resolve. É preciso algo mais.

BAHIGE FADEL

Questões da Linguagem por Bahige Fadel

Confesso que não sou um purista. Não fico exigindo que as pessoas falem o padrão culto da linguagem. A linguagem existe para a comunicação entre as pessoas. Então, o que deve ser priorizado é a transmissão daquilo que você quer transmitir.

Se puder fazer isso com correção e elegância, melhor ainda. Admito a existência de certa liberdade na comunicação, desde que isso melhore o entendimento das ideias. Isso não quer dizer que você pode sair falando ‘atora’ no lugar de atriz. Isso já é demais. Principalmente se partir de uma primeira dama, que é ouvida por milhões de pessoas. Vejam, por exemplo, que estou insistindo no uso do gerúndio. Não vou dizer ‘estou a insistir’ ou ‘fico a exigir’, como preferem os nossos irmãos de Portugal. Eu estou a pensar em tomar uma cerveja. Assim, não. Não dá liga.

Vamos ao âmago da questão. Gostaram de ‘âmago’? Não é de meu uso diário, mas me parece que ficou bem, no contexto. O pessoal da mídia deve tomar certos cuidados. A partir do momento em que você se torna um ídolo de milhares de pessoas, uma referência, em que passa a ter fãs e seguidores, passa a ter certas responsabilidades. Antoine de Saint Exupéry já dizia: ‘Tu te tornarás eternamente responsável por aquilo que cativas.’ Assim, esse pessoal tem que tomar certos cuidados no uso da língua. Não pode falar de qualquer jeito, utilizando-se de vícios e erros condenáveis.

Um dos erros da mídia que mais me chateia é o mau emprego do verbo haver. E o cara que emprega de forma errada o verbo haver estufa o peito e emposta a voz, como se estivesse esbanjando cultura: ‘Houveram várias prisões, neste final de semana.’ O tímpano treme. E não é erro de mídia local, não. Gente de canais conceituados berra ‘houveram’ para todo o Brasil;
Será que na faculdade de jornalismo não ensinaram que o verbo HAVER com o sentido de existir, ocorrer, acontecer é IMPESSOAL? Impessoal que dizer que ele não tem as pessoas do discurso, que são eu, tu, ele (ela), nós, vós. eles (elas).

Se colocar substantivo no lugar dos pronomes, fica a mesma coisa. Voltando ao assunto: essas pessoas funcionam como sujeito de uma oração. Se o verbo não tem as pessoas, não tem o sujeito. Como o verbo concorda com o sujeito e o verbo impessoal não tem sujeito, não concorda com nada.

Por isso, deve ser usado na terceira pessoa do singular. Assim: HOUVE VÁRIAS PRISÕES, NESTE FINAL DE SEMANA. Haverá várias festividades, no aniversário do município.
Só para fechar a questão, uma explicaçãozinha: objeto direto do verbo HAVER é sujeito de existir, ocorrer, acontecer. Se você substituir o verbo haver por um desses sinônimos, a oração passará a ter sujeito e o verbo terá com o que concordar.

Veja bem: HOUVE várias prisões neste final de semana. VÁRIAS PRISÕES é objeto direto do verbo HAVER. OCORRERAM (no plural) várias prisões, neste final de semana. O verbo ocorrer está no plural para concordar com o sujeito ‘várias prisões’.
Ficou claro?

Bahige Fadel

Educação na Berlinda por Bahige Fadel

A educação sempre esteve na berlinda. Leigos e especialistas sempre encontram um motivo para dar seus pitacos sobre a educação brasileira. E na maioria das vezes é sobre a avaliação escolar e/ou aprovação-retenção. O interessante é que se fazem as críticas e as ‘soluções’ encontradas raramente são criativas. Na maioria das vezes, a ‘solução’ está no retorno ao passado, como se no passado a educação fosse algo maravilhoso.

Lá no meu tempo de aluno – isso faz muito tempo! – havia cento e oitenta dias de aula. Em junho, havia exames parciais. Em julho, eram férias escolares. Voltava-se em agosto. As aulas iam até o final de novembro, sendo que no final do ano havia os exames finais, que eram escritos e orais. Ah! Estava esquecendo: havia quatro aulas por dia, com intervalos de dez minutos entre uma aula e outra. Eu não me lembro direito, já que eu era criança, mas deviam criticar a educação daquele tempo. Em seguida, os especialistas acharam que deviam aumentar o número de dias letivos.

Passamos para duzentos dias. Depois, aumentaram para cinco aulas diárias. Depois, para seis. Depois, inventaram a escola de tempo integral. Modernização nos processos de avaliação. Novas tecnologias. Novos métodos. Didática avançada. Moderníssima. E com isso, a educação melhorou? Segundo os críticos, não.
No século XVI, o insuperável Camões escreveu:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Quer dizer: esse negócio de mudar é comum no ser humano. A pessoa muda o jeito de se vestir, de falar, de pensar… Há aquelas que gostar de mudar os móveis da casa. Gostam de reformar a casa, mesmo que ela não esteja precisando de reforma. Há pessoas que gostam até de mudar o tempero da comida. São as novas qualidades do poeta. E essas mudanças trouxeram alguma melhoria? Não obrigatoriamente. Trouxeram ‘novas qualidades’, segundo o poeta. Novas características. Se elas são melhores ou piores, é preciso analisar. Segundo os críticos, as mudanças mais recentes da educação não estão dando os melhores resultados.

Uma coisa está me deixando encucado: todo mundo fala de avaliação, de promoção automática, de mudança curricular, da falta de colaboração da família, mas pouquíssimas vezes ouço falarem da qualidade das aulas. Será que se promovessem mais capacitação, atualização dos professores e especialistas da educação, a educação não melhoraria? De nada adianta tirar o celular do aluno, se não lhe oferecerem algo melhor. Se o aluno estava usando o celular, porque a aula não lhe era interessante, sem o celular a aula continuará sendo desinteressante. O que fazer, então, para que a aula seja interessante para o aluno? Em primeiro lugar, essa aula tem que ser de qualidade. Em segundo lugar, tem que ser útil. Cabe à escola e à família mostrar ao aluno a utilidade das aulas.
Se não fizerem isso, podem mudar o que quiserem, que os problemas continuarão.

Bahige Fadel

O Professor – Por Bahige Fadel

Há poucos dias, estava eu deixando o supermercado, quando um moço passou por mim e me cumprimentou: Bom dia, professor! Respondi com um ‘bom-dia’ e com um ‘como vai?’. Logo em seguida, outro moço que entrava no supermercado se dirigiu a mim e me disse: O senhor é professor? Que linda profissão. Meus parabéns! Eu agradeci e, com o ego inchado, continuei o meu caminho.

Não foi a primeira vez que fui alvo de simpatia e gentileza, pelo simples fato de ser professor. Muitas vezes, ex-alunos se dirigiram a mim, só para me dizerem que foram meus alunos. Dizem ter saudade daqueles tempos. E chegam, até, a contar suas histórias e no que se tornaram. Recentemente, um barbeiro com uma barbearia bem montada fez questão de se dirigir a mim, para me dizer que tinha sido meu aluno. Apresentou o filho, que estava seguindo a mesma profissão do pai.

Fatos como esses e até mais significativos devem ocorrer constantemente com os professores. É uma forma de premiar o trabalho dos tantos e tantos professores que foram importantes na vida de pessoas. ‘O senhor se lembra de mim, professor?’. E a gente faz um esforço danado para reconhecer naquele adulto a criança que tinha sido seu aluno uma quinta série. Em grande parte das vezes você não se lembra. Não porque sua memória está ruim, mas porque aquele adulto é tão diferente da criança que esteve aos seus cuidados, na sala de aula.

Estou contando esses fatos, porque um dia ouvi um professor dizendo que não comemoraria o dia do professor. Que não havia motivo para isso. Que o momento não era para comemorações, mas para reivindicações. Que o professor nunca tinha sido tão desvalorizado como atualmente. Que, muitas vezes, ele tinha até vergonha de dizer que era professor.

Meu Deus do céu! O que tem a ver uma coisa com outra? Quando você comemora o dia do professor, não está comemorado a valorização da profissão, as condições de trabalho das escolas, os salários que recebe. Está comemorando o fato de ter uma profissão nobre, que lhe permite ajudar crianças, jovens e adultos a terem uma vida melhor. Você tem a oportunidade de ministrar conteúdos e exemplos que poderão transformar as vidas de seres humanos.

Isso não impede que você reivindique melhores salários e melhores condições de trabalho. Aliás, devemos, sempre, lutar por melhores condições de trabalho e por um salário à altura de nossas responsabilidades. Para que tenhamos esses direitos, devemos nos esforçar, dedicar-nos plenamente a nossa profissão, atualizar-nos constantemente, ser, com a nossa atividade, pessoas úteis e indispensáveis à sociedade. Se formos tudo isso, independente do salário que recebemos, temos o direito de comemorar o dia que nos é dedicado.

Pode ser com uma festa com os amigos. Pode ser com um momento mais descontraído com os alunos. Pode ser com uma aula para meus alunos, para que eles tenham consciência do que é ser professor.
O que não pode é deixar passar batido esse dia. O dia do professor precisa ser comemorado, sempre. Estou certo de que, embora muitas vezes não pareça, muitos reconhecem a importância de nosso trabalho, no presente e no futuro das pessoas.

Não se constrói uma sociedade desenvolvida e feliz, sem a participação do professor.

Bahige Fadel

“Prevenir e Consertar”, por Bahige Fadel

É isso, caro leitor.

O que é mais desejável: prevenir ou consertar? Acredito que você está respondendo que o desejável, o ideal é prevenir, para não ter que consertar. Quando prevenimos, evitamos que o defeito ocorra. Se não prevenimos, a possibilidade de ocorrer o defeito é grande e, mesmo que venhamos a consertar, não fica perfeito. A prevenção, então, é o melhor remédio.

Você se lembra de que, há algum tempo, se criou a expressão ‘babá eletrônica’? Lembra? Os pais queriam que o filho ‘não desse trabalho’. O que faziam? Davam-lhe um tablet ou um celular, para que ele ficasse sossegado. E a criança começava a ficar viciada no celular ou no tablet. Mas os pais, acomodados, fingiam não perceber esse problema, porque, para eles, não era problema, mas solução. E o que temos hoje? Um monte de jovens e outros não tão jovens que não admitem que exista vida sem um celular. E não estou me referindo ao uso do celular para entrar em contato com alguém ou para fazer negócios. Estou me referindo ao uso do celular para atividades plenamente evitáveis ou substituíveis.

Tenho ouvido vários especialistas abordando a questão do celular ou do computador no processo de ensino e aprendizagem. Detectou-se, por exemplo, que o jovem tem muita dificuldade de escrever com a letra cursiva. Ele só consegue escrever digitando no celular ou no computador. E isso tem prejudicado sua capacidade de concentração, sua capacidade de organização de ideias, seu raciocínio. Em vários países desenvolvidos na educação, como a Finlândia, estão retrocedendo, ao proibirem o uso de celulares na escola. Percebeu-se, ainda, que as duas últimas gerações são menos inteligentes que seus pais. E houve a constatação de que isso ocorreu por causa do uso excessivo da tecnologia, na educação. Sei que, quando eu pedia aos meus alunos que anotassem o que eu dizia e escrevia na lousa, ao invés de ficarem olhando na apostila física ou digital, chamavam-me de antiquado. E não adiantava muito eu explicar que anotando nos cadernos, eles se concentravam mais, liam ou ouviam o que estava escrito ou sendo falado, escreviam e, ainda, liam o que estava sendo escrito. Não parece lógico que, dessa maneira, o aprendizado fica mais eficiente?

Um dia desses, estava eu num restaurante, com minha esposa. Enquanto conversávamos esperando por outras pessoas, notei que numa mesa vizinha estavam dois adultos e três adolescentes. Os adultos deviam ser os pais e os adolescentes, os filhos. Olhem que oportunidade para uma conversa descontraída em família. Mas não era isso que estavam fazendo. Estavam todos atentos ao celular. Todos: adultos e adolescentes. Isso é convivência familiar? O fato de estarem à mesma mesa quer dizer que estão convivendo? Claro que não. Estão apenas fisicamente próximos. Não há nenhuma troca de emoções ou experiências. Neste caso, a ‘babá eletrônica’ está servindo para acomodar filhos e pais.

Assim como na escola. A ‘babá eletrônica’ resolve o problema. O professor não precisa se preocupar muito, pois tudo está no celular. Serve também para o aluno: ‘Não preciso prestar atenção. Depois eu procuro no celular.’ Só que essa procura é sempre adiada ou eliminada.

Como os pais não se preveniram no passado, como as escolas não se preveniram no passado, como as autoridades não se preveniram no passado, agora têm que consertar. Em primeiro lugar, vai levar muito tempo. Em segundo lugar, dificilmente ficará perfeito.
Quem mandou não ter juízo?

Bahige Fadel

Dicotomia, por Bahige Fadel

Confesso que, há algum tempo, algumas coisas no mundo estão me preocupando. É a dicotomia de tudo. As pessoas parece que perderam a empatia. O egocentrismo domina tudo. E a dicotomia é o princípio de todas as ações. E essa dicotomia dificilmente levará à solução dos problemas. Ao contrário, a tendência é que leve a conflitos, em que todos saem perdendo.

Essa dicotomia sempre existiu no mundo, mas nos últimos tempos chegou ao extremo. E como existe uma predisposição para o conflito, as coisas só tendem a piorar. Não há mais, além da empatia necessária, paciência para o entendimento. A primeira reação é o confronto. Só no final, quando não há mais alternativas, é que as pessoas se propõem ao entendimento.

É o pobre contra o rico. É o branco contra o preto. É o bonito contra o feio. É o judeu contra o cristão ou o muçulmano. Se é para haver algum tipo de dicotomia, deveria ser apenas do bem contra o mal. Mas não é isso que acontece. Na luta do pobre contra o rico, o pobre é o mal para o rico e o rico é o mal para o pobre. Na luta do judeu contra o cristão, o cristão é o mal para o cristão e o cristão é o mal para o judeu.

Se esse tipo de pensamento continuar existindo, é certo que não haverá uma paz permanente. Poderá, até, haver momentos de paz, que servirão apenas para a preparação dos contendores para a guerra. Só poderá haver paz duraroura, quando as pessoas começarem a perceber que no mundo há espaço para todos. Só não se pode dar espaço para aqueles que agem de maneira desleal, irresponsável, criminosa. Por que é que cristãos, judeus e muçulmanos não podem viver em harmonia?

O Deus não é o mesmo? Deus teria preferência por alguma das religiões? Só os pertencentes a uma religião é que são seus filhos? Por que é que o pobre tem que ser contra o rico e o rico, contra o pobre? Se o rico se tornou rico com o trabalho honesto, qual é o problema? O rico honesto é importante para que o pobre deixe de ser pobre ou para que seja menos pobre. Cada um oferece ao outro o que tem e um ajuda o outro. O rico oferece o emprego e o salário e o pobre oferece sua capacidade de trabalho. Um não consegue viver sem o outro.

O mundo só terá solução quando a dicotomia ceder seu lugar para a harmonia. Só que para haver harmonia, deve haver bondade, compreensão, entendimento, colaboração, solidariedade. Só que, no mundo atual, as pessoas estão tendo vergonha de serem boas. Parece que veem a bondade como fraqueza.

O duro é saber que, se tudo continuar como está, logo todos serão fracos. Mas ainda é tempo de pensar no outro como um ser com direitos e deveres. Com direito de viver com dignidade, independente da religião, da profissão, da condição social ou do lado político que defende. E com o dever de aceitas as diferenças.

Bahige Fadel

A Análise Sintática: Por Bahige Fadel

Há algumas semanas, um amigo fez um comentário sobre a língua portuguesa. Disse que é muito complicada e cheia de regras. Acrescentou que deveria haver mais liberdade, para que as pessoas pudessem se comunicar.
Vamos por partes. Se algo é individual, particular, pode ter regras ou não. Depende do único envolvido. Por exemplo, alimentação. Se uma pessoa quiser seguir determinadas regras de alimentação, é uma decisão dele. Alguém pode até orientar, mas é a pessoa que decide se seguirá regras ou não. É só a saúde dele que está em questão. Mas se algo é público, tem que haver regras, para que não se transforme num caos, numa bagunça. Imagine uma escola que funcione sem regras. Imagine o trânsito sem regras. Seria um desastre total.
O mesmo acontece com um idioma, no caso, a língua portuguesa. A língua é de uso público. Assim, tem que haver regras. Caso contrário, viraria uma torre de Babel.
Faço esse comentário para chegar à análise sintática. Ela é importante ou não? Salvo melhor juízo, é muito importante. Principalmente para determinados níveis de comunicação. Seria inaceitável, por exemplo, um advogado numa peça jurídica, escrevendo ‘não pode ser confiável esses fatos’. Esse hipotético advogado não sabe que o sujeito da frase é ‘esses fatos’ e que o verbo concorda com o sujeito.
Segundo a gramática, sintaxe é parte da gramática que estuda as palavras enquanto elementos de uma frase, as suas relações de concordância, de subordinação e de ordem. Isso quer dizer o seguinte: sintaxe é o estudo da construção das frases. Vejam essas duas frases:
– Vendem-se diversos produtos.
– Desconfia-se de diversos produtos.
A análise sintática explica por que no primeiro exemplo o verbo tem que ficar no singular e no segundo, no plural. Já vimos que o verbo concorda com o sujeito. Na primeira frase, o verbo é transitivo direto. Assim, a palavra se funciona como partícula apassivadora e, assim, a frase está na voz passiva. Na voz passiva, o sujeito sofre a ação verbal. O que está sofrendo a ação de ser vendido? ‘Diversos produtos’, é claro. O sujeito está no plural, o verbo vai para o plural. Já no segundo exemplo, o verbo ‘desconfiar’ é transitivo indireto. Por isso, a palavra ‘se’ é índice de indeterminação do sujeito. Assim, o sujeito mudou. É um sujeito indeterminado e a frase está na voz ativa. Quando o sujeito é indeterminado, o verbo com a palavra ‘se’ fica na terceira pessoa do singular. Ressalto que isso ocorre com o índice de indeterminação do sujeito. Se não houver esse índice, para termos o sujeito indeterminado, colocamos no verbo na terceira pessoa do plural: Desconfiam de diversos produtos..
Não podemos esquecer que a análise sintática não é um gesso. A linguagem coloquial, por exemplo, permite certas liberdades.
Não podemos escrever que existe a língua e existe a linguagem. A linguagem é a forma como se usa a língua. A linguagem é usada para a comunicação verbal. Não adianta falar muito chique, se ninguém entende.

Bahige Fadel

Bahige Fadel: “Vale a pena?”, Uma reflexão sobre escolhas

Sei não. Há tantas coisas que eu achava que valiam a pena. Hoje, já não tenho tanta certeza. É que a gente tanto bate nas mesmas ideias achando que haverá algum resultado positivo. Quando vê, nada mudou. A gente gasta tempo e espaço. Só que nada muda. Ou quase nada muda.
Vale a pena falar da corrupção no INSS? Bilhões foram tirados dos aposentados. Vale a pena falar disso? Vai mudar alguma coisa? Vai ficar tudo limpinho? A corrupção desaparecerá num passe de mágica? Os corruptos serão presos? Não haverá mais corrupção no serviço público?

Há três tipos de corrupção, que existem na história do Brasil desde o período colonial: a ativa, a passiva e a concussão. A ativa é quando alguém oferece um benefício a outro. A passiva é quando alguém aceita o benefício oferecido, E a concussão envolve a exigência de um benefício indevido por parte de um funcionário público. Os três tipos existem, no Brasil, aos borbotões. Sim, usei ‘aos borbotões’ (expressão antiga), para dizer que isso é antigo na história do Brasil. Soluções? Quase nunca. Vai haver solução no caso do INSS? Vão acusar um e outro, mas a chefia da caterva, ou a malta, ou a súcia (escolham o termo) ficará ilesa. Assim, vale a pena?

Vale a pena falar sobre o bebê reborn? Está na moda, mas vale a pena? Vejam algumas manchetes publicadas na mídia brasileira sobre o tal bebê reborn: MULHER É DEMITIDA APÓS PEDIR AFASTAMENTO DO TRABALHO PARA CUIDAR DE BEBÊ REBORN; MULHER TENTA VACINAR BEBÊ REBORN EM UBS DE SC E É IMPEDIDA; MORADORA DE GUABIRUBA TRANSFORMA A VIDA AO ADOTAR BEBÊ REBORN COMO FILHA.
Tá bom. Chega. Já entenderam o que eu quis dizer, né? Vale a pena gastar energia para comentar esses casos? Se eu fizer um comentário profundo, utilizando conceitos sociais e psicológicos, vai resolver alguma coisa? Essa turma ‘normal’ vai parar de fazer essas loucuras? Claro que não. Então, não vale a pena.

Vale a pena falar sobre o tráfico e o consumo de drogas, no Brasil? Vale a pena? Há quanto tempo você ouve falar desse assunto? Desde a sua infância, com certeza. E já resolveram alguma coisa? Muito pelo contrário. Não tenho informações atualizadas, mas consta que o tráfico de drogas no Brasil gera lucros aproximados de 15 bilhões por ano. Deve ser bem mais.
Apreendem grande quantidade de drogas. A mídia dá destaque. Prendem um chefe do tráfico. A mídia dá destaque. Resolveu-se o problema? Não. O mercao ilegal de drogas está sempre crescente.

Sabem o que vale a pena? Pelo menos, na minha idade, vale a pena ser correto, parecer ser correto, mostrar que vale a pena ser correto, provar que você pode ser bem sucedido, sendo correto. Confesso que já não tenho forças ou disposição para fazer mais. Isso é suficiente? Se muitos fizerem desse jeito, pode ser. Mas tem que ser muita gente.

Bahige Fadel