Coluna Bahige Fadel

Como agir

Amigo, você já pensou em como tomou determinadas atitudes? Você tende a agir por amor, por ódio, por desprezo ou para manter a rotina? Você tem agido com raiva ou com calma?

Você tem paciência quando vai tomar determinada decisão ou age afoitamente, sem prever as consequências? Você tem agido por prazer ou por obrigação? Depois de agir, sente alívio, preocupação ou, simplesmente, calma pelo dever cumprido?

Por favor, note os discursos dos homens públicos. Preste bem atenção neles. As palavras são emitidas com raiva. Essas pessoas nem se preocupam em disfarçar a raiva que sentem. Parece que falam com uma metralhadora na mão. Falam com veneno nos lábios.  Parece que não há mais adversários; há inimigos. E as palavras são para colocar esses inimigos fora de combate. Esses inimigos são indesejáveis e, por isso, devem ser abatidos.

Os que discursam dessa maneira, o que sentem depois? Sentem paz? Improvável. Sentem satisfação? Só se forem  sádicos. Sentem o prazer do dever cumprido? Mas que prazer? O de abater o inimigo? Só se acharem que estamos em plena guerra. Sentem orgulho? Orgulho?

Quem pode sentir orgulho por ter destruído o próximo? Sentem alívio? Não pode ser. A gente se sente aliviado quando resolve um gran de problema, quando supera uma enorme dificuldade, quando se desfaz de uma insuportável dor.

Não consigo imaginar um alivio por destruir o adversário, que é transformado em inimigo.E aqueles que falam de amor com ódio no tom de voz e na forma de olhar? E os que falam de paz com uma arma (real ou imaginária) nas mãos? E os que falam em igualdade afastando os diferentes? E os que falam em solidariedade apontando para as feridas, sem procurar curá-las? E os que falam em recomeço insistindo nas mesmas fórmulas do passado, para que nada se mude?

E os que falam em distribuir o alimento, espalhando tão somente a amarga esperança, que nunca se transforma em realidade? E os que falam em elevar o próximo elevando-se a si próprios?

Nesse contexto, como agir, então? Como esses citados nos parágrafos anteriores? Ou cruzar os braços, como se os problemas não nos pertencessem? Como ser útil para si mesmo e para o outro? Há muitas maneiras boas. Mas uma delas, com certeza, é falar apenas quando for para o bem.

Nem tudo deve ser dito, mesmo que seja verdade. Por que dizer a um enfermo que ele morrerá logo, se se pode dizer a ele coisas que confortam, que lhe darão alívio no pouco tempo de vida que lhe resta? Outra maneira é desarmar as mãos, os pensamentos e os espíritos. Há muitas armas mortais no mundo.

Não há necessidade das que possamos ter. As armas necessárias são as que edificam, não as que destroem. Sei que tudo isso parece difícil. Pode ser. Mas há tanta coisa difícil que praticamos sem reclamar. O importante é que tenhamos propósitos edificantes. O importante é saber que se o vizinho estiver em paz, haverá silêncio na vizinhança e, assim, poderemos dormir melhor.

BAHIGE FADEL

Imagem Divulgação

Copo Meio Vazio

Sei não, mas eu, que sempre fui um cara otimista, estou começando a enxergar o copo meio vazio. E isso não é bom. Tento me esforçar para ver o copo meio cheio, mas os fatos não ajudam.

É uma coisa errada atrás da outra. As segundas intenções prevalecem. Principalmente na política, as coisas são obscuras. Não se vê clareza em nada. Então, como enxergar o copo meio cheio? Daqui a pouco é capaz de a gente não enxergar sequer o copo. Explico. Esse programa anunciado pelo governo para baratear os veículos automotores. O governo diz que é para beneficiar o pobre, que, assim, vai conseguir comprar carro, caminhão e ônibus novos.

Vamos começar pelos carros. Serão carros populares, segundo o governo. Carros que custam entre sessenta e cento e vinte mil reais. Ora, cara pálida. Pobre tem esse dinheiro para comprar esse tipo de carro? Claro que não. Então, o que vai acontecer? A classe média vai comprar esse tipo de carro e vai vender o seu carro velho para o pobre. Assim, uma das intenções do governo – reduzir a poluição – cai por terra, porque o carro velho e poluente continuará poluindo. Só que agora, nas mãos do pobre. E não fica só nisso. Aumentará o número de carros e, por consequência, o nível de poluição.

Por outro lado, o governo diz que a isenção de impostos será proporcional ao número de peças fabricadas no Brasil. Taí outra ponta solta. O governo parte do princípio de que o empresário usa mais peças fabricadas no exterior apenas por birra ou apenas porque gosta de comprar em outros países. Mas não é isso. O empresário compra peças no exterior porque ou são melhores ou são mais baratas ou as duas coisas. Então, a questão não é ferrar quem compra peças no exterior, mas dar um jeito de fazer com que as peças fabricadas no Brasil sejam mais competitivas. Caso contrário, não vai mudar nada.

Vamos agora aos caminhões e ônibus. O barateamento desses veículos só ocorrerá para aquele que trocar seu ônibus ou caminhão que tiver mais de vinte anos de uso. É que esses veículos velhos poluem demais, o que é verdade. Só que, ao ler essa notícia, me veio uma pergunta: Por que o cara usa um veículo com mais de vinte anos de uso? Porque gosta de carro velho? Porque gosta de poluir? Claro que não. Porque não tem dinheiro para comprar um veículo novo. E com o desconto proposto pelo governo, vai passar a ter? Acho que não. Assim, quem será beneficiado pelo programa do governo? O grande empresário, que tem veículos velhos já em desuso, que vai utilizar esse veículo para conseguir os descontos programados. Isso não diminuirá a poluição, porque o veículo velho já não é mais utilizado . E para agravar a situação, é capaz de vender esse veículo para um pequeno empresário, que continuará poluindo o ambiente.

O leitor deve estar perguntando: Não há solução? Deve haver. Não sou especialista, mas uma delas deve ser a criação de planos de aquisição mais convidativos, com baixos juros, tendo como contrapartida a obrigação de tirar de circulação os veículos antigos. Ou entregar para o governo esse veículo poluente, para que ele não continue poluindo o ambiente. Sei que isso pode parecer absurdo, mas, como disse, não sou especialista. Os especialistas devem ter soluções melhores. Só sei que a solução proposta pelo governo ajudará muito pouco o pobre e não impedirá o aumento da poluição ambiental.Já que ainda existe o copo – esperança – seria bom a gente encontrar água para enchê-lo – medidas realmente eficazes.

BAHIGE FADEL

Liberdade

Para Aristóteles, a liberdade está baseada na possibilidade de realizar escolhas orientadas pela vontade. Só que ele diz que a liberdade deve estar acompanhada do conhecimento. ‘O conhecimento é a ferramenta capaz de ampliar as possibilidades de escolha e tornar o indivíduo mais livre e capaz de realizar sua finalidade, a busca pela felicidade.’ Deve ser por isso que alguns políticos não se esforçam muito para que o povo tenha mais conhecimento. Deve ser por isso.Vamos ficar apenas em Aristóteles para perguntar: Existe essa tal liberdade? Vamos perguntar melhor: Existe a liberdade plena ou tudo é relativo? Relativo é quando consideramos algo em relação a outra coisa. Por exemplo, em relação à Bolívia, o Brasil é um país rico, mas em relação aos Estados Unidos, não.Na verdade, nem em sonhos nossa liberdade é plena. Nós temos liberdade para ter um carro novo, mas só o teremos se tivermos dinheiro suficiente. Temos liberdade para praticar qualquer esporte de que gostamos, desde que tenhamos saúde e competência para tal. Temos liberdade para conquistar a garota mais bonita da escola, desde que ela queira ser conquistada pela gente. Temos liberdade de construir uma casa enorme num terreno que compramos, desde que tenhamos recursos para isso e desde que as leis permitam. Temos liberdade de emitir uma opinião, desde que essa opinião tenha fundamentos de quaisquer tipos, desde que não prejudique pessoas inocentes e desde que não fira princípios legais. Isso tudo quer dizer que a liberdade plena, total não existe nem deve existir. A liberdade despida de regras, isto é, a liberdade de fazer o que eu bem entendo, do jeito que eu quero, não importando as consequências, na realidade, não é liberdade, é libertinagem. A libertinagem está relacionada à imoralidade, à devassidão, ao despudor. E isso não é desejável.Hoje se fala muito das fake news. A gente gosta de empregar termos estrangeiros, não é? São notícias falsas. Nesses sites atuais se propagam deliberadamente milhares de notícias falsas. Eu tenho liberdade para espalhar esse tipo de notícias? Claro que não. As fake news só podem trazer problemas, nunca soluções. Se trazem problemas, prejudicarão alguém. E eu não posso ser livre para, deliberadamente, prejudicar alguém. O leitor pode estar pensando: ‘O redator é a favor dessa lei das fake news.’ O problema não é ser a favor ou contra. A questão está em quem julgará se uma notícia é fake ou não. O julgador é uma pessoa isenta? É uma pessoa honesta? Não tem interesses ocultos? A questão, portanto, não é existir uma lei para punir o autor de uma notícia falsa. A questã ;o é quem vai julgar. Essa pessoa só se orientará por princípios éticos e morais? Essa pessoa terá bom senso? Essa pessoa não está comprometida com grupos políticos que têm interesses não muito claros?  Essa pessoa é confiável? Então, tudo bem. Que exista a lei e que ela melhore alguma coisa. Pois de coisas ruins o mundo já está cheio.

BAHIGE FADEL

Violência nas Escolas

Interessante como a mídia escolhe, em determinadas épocas, os assuntos para suas manchetes. Quando escolhe, fica batendo, cansativamente, na mesma tecla, sem apresentar soluções duradouras, até que surge um novo assunto. E a ladainha continua. Sempre foi assim. É preciso leitor ou ouvinte. É o ganha-pão da mídia.

Atualmente, o assunto em pauta é a violência nas escolas. E dão a entender que a escola é um espaço violento, perigoso, terrível. Aproveitam-se de fatos ocorridos, para dizer que é sempre assim, que a escola não é um lugar seguro. Com isso, as famílias, com razão, ficam aterrorizadas. Conheço pais que não querem mais levar os filhos à escola e, quando levam, ficam rezando, para que nada de mais grave lhes aconteça.

Essa história não vai mudar. Vêm as autoridades e despejam discursos de preocupação e planos de salvação. E o que se vê? Tudo como era antes. Nada muda. Porque essas autoridades atacam os efeitos, não atacam as causas. Atacar os efeitos é muito mais fácil e dá a impressão de que as pessoas estão procurando uma solução.

Isso acontece com as drogas. É a mesma coisa. Todos os dias, há a apreensão de milhares de quilos das mais variadas drogas. A mídia alardeia o fato, como se fosse o início de uma solução. E o que acontece? O tráfico e o consumo de drogas continuam crescentes. Por quê? Porque apreender drogas não elimina a causa. Por que há o tráfico de drogas? Porque alguém consome. Por que alguém consome drogas? Por causa de determinados estímulos. Primeiro, é um mercado rentável. Segundo, porque há a impressão do prazer momentâneo. Terceiro, porque o consumidor não vê alternativa melhor para conseguir prazer. Quarto, porque as famílias estão mais preocupadas em punir o traficante do que educar o filho. Quinto, porque há interesses nacionais e internacionais que facilitam esse tipo de comércio. Sexto, porque há pessoas que acham que isso não tem nada demais e, por isso, tem que continuar. Sétimo, porque as autoridades deixaram o monstro crescer tanto que não têm mais meios de impedir que continue.

Mas as autoridades, de boca cheia, dizem que vão reforçar a segurança nas escolas, que vão investir milhões para que nada de ruim aconteça com nossas crianças e jovens. Até segurança armada já sugeriram. Segurança armada nas escolas? É o fim da picada.

Lembram a violência nos estádios de futebol? Muitas pessoas morreram onde deveriam assistir aos jogos. Aumentaram o policiamento nos estádios. Adiantou alguma coisa? Claro que não. Os crimes agora ocorrem nas imediações dos estádios ou em lugares previamente acertados para os encontros mortais. Por quê? Porque só atacaram os efeitos.

Para terminar: não existe solução em curto prazo. A educação eficaz é um início. Um trabalho com as famílias é urgente. Punição aos responsáveis é indispensável. Mas há muita coisa mais. Se eu fosse um especialista, poderia oferecer mais subsídios. Ofereço um alerta. Já é alguma coisa.

BAHIGE FADEL

Violência

Caramba! O mundo, que eu saiba, nunca foi pacífico. O instinto beligerante do ser humano sempre prevaleceu. A lei da selva nunca deixou de ser adotada. É a lei do mais forte. Força é poder. Isto é, quem tem a força pode fazer o que bem quer. Com altos e baixos, essa lei nunca deixou de existir. Começou lá nos primórdios, com Abel e Caim. E eles eram irmãos. Prevaleceu o mais forte. Abel, coitado, foi derrotado pelo próprio irmão.

Vejam as guerras que ocorreram ao longo da história da humanidade. A China deve ser o país que mais participou de guerras. Em cada uma delas, milhões de mortos. Só na Rebelião Taiping há em torno de 70 000 000 de mortos. Sim, numa guerra pelo poder, no século dezenove, em catorze anos mataram pessoas que correspondem a um terço da população brasileira. Na Segunda Guerra Mundial, em seis anos, morreram mais de 80 000 000 de pessoas. Na Primeira Guerra Mundial, em quatro anos, em torno de               30 000 000 de mortos. Na Guerra Civil Russa, de 1917, quase 10 000 000 de mortos. O Brasil também não se viu livre dessa luta pelo poder. É só ver os livros de história: a Revolução Constitucionalista de 32, a Guerra de Canudos, de 1896; a Insurreição Pernambucana, de 1645; a Revolta de Beckman, de 1684; a Guerra dos Palmares, de 1630; a Guerra dos Emboabas, de 1707; a Revolução Farroupilha, de 1835; a Guerra do Contestado, de 1912.  E por aí vão as guerras em todos os lugares do mundo. E por quê? Para mostrar força. Para impor suas ideias. Para dominar.

E essa violência não para. Violência de todas as formas. Violência manifestada por palavras que provocam violência física, e que também revelam o desejo de poder, de domínio, como a que vimos recentemente no Brasil, ao ameaçarem a vida da família do senador Moro. Violência inexplicável de um adolescente de 13 anos de idade, que entra numa escola e mata uma professora de mais de setenta anos. Como explicar? Loucura? Deficiências na educação? Falta da família? E como explicar a violência de um torcedor de futebol do Rio Grande do Sul, que entra no campo, segurando nos braços uma filha pequena, para agredir a um jogador do time adversário? Como explicar? Ainda bem que o jogador agredido não teve a mesma atitude do agressor, o que não causou maiores danos físicos para a criança. Apenas os danos físicos, porque os psicológicos, o pai não teve a preocupação de evitar.

Como acabar com tudo isso? Infelizmente, não há solução em curto prazo. E lamento dizer que nem em longo prazo vislumbro uma solução. Como fazer com que uma pessoa, de uma hora para outra, passe a respeitar a si mesma e ao próximo? Como fazer para que as pessoas respeitem o espaço dos outros? Como fazer com que as pessoas passem a aceitar as derrotas como um aprendizado para o aperfeiçoamento? Como fazer para que, de repente, as pessoas prefiram a paz, a  harmonia, a concórdia, o entendimento, a tranquilidade? Há um jeito? Ainda não descobri. Mas eu não desisto. Continuo fazendo a minha parte. Só não sei se isso é suficiente.

BAHIGE FADEL

Herança

O Joãozinho chegou com a nota quatro na prova de matemática. O pai chamou-lhe a atenção. Onde se viu isso, menino? Não estudou? Ficou o dia inteiro mexendo no celular com coisas inúteis? Olhe no que deu. Só quatro. Reprovado. O Joãozinho, que, apesar de ser ainda muito novo, já tem a malícia dos experientes, não perdeu a pose. Já tinha a resposta na ponta da língua. Minha nota não foi tão ruim assim, pai. A Maria Lúcia tirou três e meio e o Paulinho, só dois. A minha é o dobro disso. Lógico que ele se esqueceu de dizer que o Lauro e a Sônia tiraram dez. Isso, claro, não tinha a menor importância. Importantes eram as notas da Maria Lúcia e, principalmente, do Paulinho.

Essa história não é ficção. Todos os dias acontecem cenas parecidas. É que é muito mais fácil mostrar quem está pior do que a gente do que analisar por que alguém está melhor, para que um dia a gente chegue ao nível superior. No emprego é a mesma coisa. Você não produziu muito neste mês, diz o gerente ao João Paulo. O João Paulo tem a resposta pronta: o Pedro produziu menos ainda. Ele se esquece de dizer que o Antônio, funcionário inexperiente, produziu muito mais. É mais fácil dizer que um é pior. Mais difícil é tentar melhorar, para se equiparar ao melhor.

Esse preâmbulo é para chegar à política brasileira. O presidente da república, no seu discurso de posse, falou em herança maldita. Herança maldita. Não explicou direito o que é essa herança maldita, mas nos discursos seguintes bateu na mesma tecla: herança maldita. Então, chego à conclusão de que o Brasil é uma herança maldita para o presidente. Desculpem-me, mas não posso concordar. Jamais considerei o Brasil uma herança maldita. Muito pelo contrário. O Brasil é um país abençoado, que não teve muita sorte com alguns governantes.

Qual seria essa herança maldita? A economia? Sou um leito, mas me parece que a economia está relativamente bem, apesar dos problemas internos e, principalmente, externos. A agropecuária? Parece-me que esse setor vai bem, obrigado. O agronegócio tem produzido bem para o consumo interno e externo. A saúde pública? Bem, essa nunca esteve muito bem. Não me consta que tenha piorado tanto nos últimos anos. A educação seria essa herança maldita? Bem, essa vai mal. Ocupamos a 54ª posição no PISA. Lá na rabeira. O analfabetismo entre pessoas até quinze anos de idade é de 6,8%. A média mundial é de 2,6%. É essa a herança maldita, então? Mas eu pergunto: quando é que a educação brasileira esteve melhor? Quando é que fomos destaque no PISA? Quando é que o índice de analfabetismo foi melhor que o atual? Todos sabem que a educação brasileira nunca foi lá essas coisas. Fazem reformas sem o mínimo conhecimento das necessidades e possibilidades da educação. Os maus resultados são previsíveis. Insistem na educação de tempo integral, como se fosse a salvação da lavoura. Mais tempo na escola não é sinônimo de boa educação. O que importa é a qualidade de ensino, não a quantidade de tempo. Só se faz boa educação com bons profissionais, num ambiente preparado para esse fim. Mas isso não é herança maldita. Isso já era assim, ou pior, nos mandatos anteriores do atual presidente.

Então, vamos parar com esse negócio de herança maldita e arregaçar as mangas. O Brasil é um país possível. Tudo de bom é possível no Brasil. Mas não há geração espontânea. É preciso trabalho, planejamento e competência. Discurso não resolve problema.

BAHIGE FADEL

Insegurança

Fazia tempo que eu não escrevia uma crônica. E não é por falta de tempo. Nunca tive tanto tempo na vida. Aposentado completamente, tempo é que não falta. O motivo é outro. Insegurança. Sim, tenho me sentido um tanto inseguro. Não é uma coisa do outro mundo. Não estou precisando dormir com luz acesa. Mas não me sinto seguro para escrever sobre determinados assuntos.

Já devo ter me sentido inseguro muitas vezes. E não estou me referindo àquela insegurançazinha em dia de prova de matemática. Isso é coisa leve. Insegurança maior. A primeira, possivelmente, aos cinco anos de idade. Nem me lembro bem, mas deve ter sido barra pesada. Foi quando vim ao Brasil com a minha família. País novo, língua desconhecida, pessoas diferentes. Não deve ter sido fácil.

Outra insegurança – dessa me lembro muito – foi aos onze anos de idade. Foi quando, para estudar, vim morar na pensão Santana, em Botucatu. Eu e meu irmão. Eu com onze anos, ele com treze. Tinha pesadelos. Chorava. Meu irmão tentava me ajudar, mas fazer o quê? Ele tinha que lidar com as inseguranças dele. Deve ter sido a pior época de minha vida.

Depois, já adulto, quando tive que escolher uma profissão. Meus pais, durante a vida inteira, ‘treinavam’ minha cabeça para que tivesse determinada profissão, mas, quando chegou a hora da decisão, vi que era impossível. Não foi fácil. Embora tenha dado muito certo. Ser professor foi um prêmio para mim. Realizei-me na profissão e galguei vários postos na área da educação.

Outro momento de insegurança foi no regime militar. Eu era jornalista e professor, nessa época. No rádio, sabia o que podia ser dito e o que não podia. Temeroso de represálias, segui as normas da época. Só tive um pequeno problema no dia em que resolvi noticiar uma passeata contra o regime dos alunos da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu. Como professor, a gente ficava na corda bamba. Era preciso equilibrar-me para não cair. Eu sabia, por exemplo, que era um perigo declamar, em sala de aula, o poema Operário em construção, de Vinícius de Moraes. Vinícius tinha sido cassado e o poema não era bem visto pelo regime. Mas acho que me dei bem. Tomei cuidados, sem me despersonalizar.

Agora, já idoso, quando deveria estar com o burro na sombra, estou me sentindo inseguro. Não estou certo do que posso criticar na política. Não que tenha críticas tão contundentes para fazer. Já passou esse tempo. O tempo das lutas por ideias e ideais já passou. Acho que ganhei o direito de viver com sossego e paz. Assim mesmo, tenho me sentido inseguro. Não tanto por mim, mas pelos outros. Por meus filhos e netos. Que Brasil eles terão? Terão um Brasil de liberdade, tranquilidade e desenvolvimento? Tomara que sim. Todos os brasileiros merecem um pouco de paz.

BAHIGE FADEL

 

Eu quero Paz

Alguns dias fiquei meditando sobre um tema para uma crônica. Um tema atual. Um tema que esteja na boca e nos pensamentos das pessoas. Estava difícil. Escrever sobre o quê? Todos os fatos ‘importantes’ só se referem a ódio, a violência, a intransigência. Todos os personagens se sentem na obrigação de demonstrar poder, força. Todos têm sede de poder. Todos querem ser importantes. Indispensáveis. Únicos. Insubstituíveis. E quando esse poder é ameaçado, viram feras. E não estou falando da esquerda ou da direita, de bolsonaristas ou lulistas, de vitoriosos ou derrotados. Estou falando das pessoas. Ser da situação ou da oposição é circunstancial. Uma hora é uma coisa, outra hora muda. Estou falando de atitudes, de pensamentos, de falas, de sentimentos das pessoas. É disso que eu falo. Se são da esquerda ou da direita, não estou nem aí. Sempre defendi a ideia de que qualquer tipo de governo pode ser bom, desde que as pessoas que estão no poder sejam boas, sejam competentes, tenham espírito público, sejam honestas e tenham boas intenções. Se o governo parte do princípio de que deve trabalhar pelo povo, para a felicidade da população, não importa muito como alcançará esse objetivo. Portanto, salvo melhor juízo, não é essa a questão.

Finalmente, depois de muito meditar, encontrei o tema. Assunto atual, interessa a todos. O que eu quero para os dias de hoje é paz. Quero paz nos pensamentos e nos sentimentos. Quero paz nas palavras e nas ações. Quero a paz que conforta. Quero a paz que une. Quero a paz que constrói coisas boas. Quero a paz que permite bons sonhos. Quero a paz que desenha esperança de melhores dias. Quero a paz fraterna. Quero a paz que me permite amar sem medo. A falar sem medo. A agir sem medo. A respirar sem medo. A viver sem medo.

Não quero mais nada. Não preciso de mais nada. Não preciso que pensem por mim. Sou dono dos meus pensamentos. Não preciso que façam por mim. Sou dono de minhas ações. Não preciso que falem por mim. Sou dono de minhas palavras. Mas se quiserem me dar a mão, para multiplicar a paz de cada um, aceitarei. Iremos juntos no mesmo sentido. E saberemos sorrir. E saberemos conviver, mesmo que sejamos diferentes. Mesmo que pensemos de forma diferente. Desde que as diferenças nos ajudem a ver melhor, a agir melhor, a pensar melhor. As diferenças devem servir de escadas, para que todos possam subir, não como túmulo, onde todos acabarão sendo enterrados.

Eu quero paz. Tenho certeza disso. Não a paz dos mortos. Eu quero a paz dos que querem viver felizes e fazem questão de que os outros também sejam felizes.

BAHIGE FADEL