Coluna Bahige Fadel

Valores

Presenciando essa verdadeira briga de foice no escuro em que se transformou a discussão política no Brasil, em que cada um fala o que bem entende, sem se preocupar com o respeito a nenhum valor moral, comecei a fazer uma reflexão a respeito desses valores. Quais estariam sendo desrespeitados, jogados no lixo da ignorância pelos donos de todas as verdades?

A honestidade é o primeiro dos valores morais. Essas pessoas que berram desaforos e críticas, sem nenhuma comprovação, sem nenhum respeito à inteligência humana, estão sendo honestos? Essas autoridades que tomam atitudes autoritárias e intempestivas estão sendo honestas? Por exemplo, é honesto mandar prender alguém por dizer que uma autoridade é corrupta, mas não tomar nenhuma atitude contra alguém que chama outra autoridade de genocida?

Outro valor moral é a tolerância. Está ocorrendo tolerância na sociedade de hoje ou estamos chutando o balde por qualquer coisa que contrarie os nossos interesses? Estamos sendo tolerantes com pequenos erros dos nossos adversários como somos com os erros de nossos companheiros? Ou estamos adotando a velha teoria, segundo a qual para os amigos tudo, para os inimigos a lei (interpretada conforme os nossos interesses, claro)?

Outro valor importante é o discernimento. Como se sabe, o discernimento é a capacidade de compreender as situações e separar o certo do errado. Está havendo, realmente, discernimento nessas discussões políticas? Ou cada um está jogando lama adoidado naquele que não compactua com a sua ideia? Se é contra, vamos arrebentar. É essa a teoria que vale? Não vale saber o que é certo e o que é errado, mas só o que está a favor e o que está contra?

A prudência também é um dos valores morais que devem ser respeitados. Estão sendo prudentes essas pessoas? É prudente ficar alarmando a população com a divulgação enfática de notícias negativas e o desprezo aos acontecimentos positivos? É prudente falar do número de mortes e desconhecer o número de curas? É prudente espalhar certas atitudes a serem tomadas, sabendo-se que trarão consequências negativas para a população?

Importante valor moral a ser seguido é a empatia, a capacidade de nos colocar no lugar do outro. Está havendo isso nessas discussões políticas? Ou cada um está colocando-se do seu lado, impedindo que o outro se aproxime? Ao destilar ódio contra alguém, estamos colocando em prática nossa empatia? Estamos empregando a empatia quando fazemos de tudo para que o nosso opositor tenha dificuldades de realizar certo trabalho que beneficiará outras pessoas?

Solidariedade e responsabilidade são outros valores importantes. Quando dizemos algo, temos que ser responsáveis pelas implicações que surgirem. Se mentimos ou aumentamos a importância de algo negativo, não estamos sendo responsáveis. Se ao invés de ajudar alguém a ser melhor, só nos preocupamos em criticá-lo e diminuí-lo, não estamos sendo solidários.

Magnanimidade ou generosidade. Acho que está faltando isso há um bom tempo, principalmente nesse bate-boca descontrolado que temos ouvido nos últimos meses. Pessoas perdendo o controle na agressão, na mentira, no ódio. Onde há ódio não pode haver generosidade.

Estou achando que essas discussões nos meios de comunicação e nas redes sociais não visam à solução de nenhum problema. O objetivo é vencer ou derrotar. Que a verdade tenha força suficiente para suportar os ataques insanos dos que só pensam na vitória a qualquer custo.

BAHIGE FADEL

Tempo de incertezas

Não é fácil, cara pálida. São muitas incertezas. Tempo em que os problemas, na maioria das vezes, foram em maior número do que as soluções. Há muito tempo, uma pessoa me disse que o maior perigo da humanidade será quando as pessoas começarem a criar problemas cujas soluções não estão ao seu alcance. Não quero acreditar que chegamos a esse momento. Não quero. Tenho que acreditar no ser humano. Tenho que acreditar na educação. Tenho que acreditar na ciência. Tenho que acreditar na solidariedade humana. Não posso acreditar que o homem queira destruir o próprio homem. Alguns, pode ser. Há seres abomináveis. Há seres-vampiros, que só se satisfazem com sangue. Mas não posso acreditar que estes sejam os vitoriosos. Não posso.

Mas as incertezas são muitas. Não param de surgir. Incertezas que vieram com a pandemia da COVID-19. Estas, felizmente, estão sendo superadas aos poucos. Reduziu-se a gritaria radical que procurava culpados, para dar lugar à corrida pela solução dos problemas, como a vacinação em massa. Demorou para que as pessoas se conscientizassem de que deveriam aprender mais sobre o coronavírus e acusar menos. Estamos nessa fase. Experimental. Não me importo de ser uma cobaia. Sei que a vacina não é perfeita, mas é a única solução que temos, no momento. No futuro, haverá vacinas melhores, mais seguras. Isto porque as pessoas estão estudando mais e acusando menos.

Há outras incertezas também. Incertezas políticas, incertezas econômicas. As econômicas serão solucionadas. Sempre foram. Logo haverá mais empregos, alavancando a indústria e o comércio, estimulando a produção agrícola e industrial. Acredito muito nisso. Só não acredito na solução das incertezas políticas. Pelo menos, em curto prazo. Alguns políticos são piores do que esses vírus que surgem. Para os vírus, conseguem encontrar vacinas. Já para alguns políticos, ainda não temos vacina eficaz. A sede de poder é muito grande. É bem maior do que a capacidade de exercê-lo. Nessa ocasião, muita gente funciona como aqueles cachorros de rua, que correm latindo atrás de um veículo em movimento. Quando o veículo para, o cachorro não sabe o que fazer. Infelizmente é assim. Destroem o mundo para conseguirem o poder, mas, quando o conseguem, não sabem o que fazer dele.

Mas nem tudo está perdido. Não é o fim dos tempos. Acredito no instinto de sobrevivência da humanidade. Ao ver-se em perigo iminente, encontrará forças e disposição para achar uma saída. Mas que não demore muito. Não podemos deixar que o mal nos vença. Já o conhecemos. Ele é perigoso, mas não imbatível. Quero acreditar nisso.

BAHIGE FADEL

Tempo de Mudanças

Meu Deus, estão terminando as férias escolares! Nossa! Parece que começaram ontem mesmo, e já estão no fim. Férias diferentes, aliás. Pelo menos, para a maioria. Grandes viagens, passeios em grupo, festinhas nos finais de semana, baladas, churrascos, cinema, teatro, passar uns dias na casa dos amigos… Isso tudo pode não ter terminado completamente, mas houve uma redução drástica. Novos tempos, novos costumes. Sim, até isso. A gente está se acostumando à nova realidade. Parece         que já faz um século que a gente está desse jeito. Se continuar assim por muito tempo, corremos o risco de nos esquecer de como era antes. Ou o que era antes vai virar história. Não história de velhos. História de jovens. ‘Você lembra o dia em que a gente foi beber no sítio do Tó? Três dias de bebedeira, cara. Maior barato. Bons tempos aqueles, né?’

Por outro lado, tenho certeza de que o retorno às aulas nunca foi tão esperado. Tenho certeza de que quase ninguém está falando: ‘Pô, voltar à escola. Quer saco!’ Nem alunos nem professores. Os professores já estão com o saco cheio de ministrar aulas remotas. Aulas para uma tela. Haja imaginação. Imaginar o aluno atento. Imaginar o aluno interessado. Imaginar o aluno presente. Tudo numa tela. Haja motivação! Motivar-se para dar uma aula interessante e motivar o aluno, para que ele ache interessante a aula. Esforço dobrado. Quadruplicado. Um cansaço mental insuportável.

Por outro lado, o aluno, no mínimo, querendo sair de casa, encontrar os colegas de classe ou de outras classes, jogar conversa fora. Acho que há alunos com saudade até dos pitos que o professor lhes dava, porque estavam sonolentos ou desinteressados ou em conversa com o colega do lado ou atento ao celular… Até disso os alunos devem estar com saudade.

No primeiro semestre, no meio de uma aula, um aluno abriu o microfone e me disse: ‘Professor, tenho uma vontade enorme de conhecer o senhor.’ Fiquei com um nó na garganta. Depois pensei: Caramba, dou aula pra gente que não conheço e não me conhece. Que raio de educação é essa? Educação capenga, manquitola. Educação sem emoção.

Mas tudo isso vai acabar. Deus queira! Vamos, aos poucos, voltar à normalidade. Educação olho no olho. Educação em que os participantes se conhecem. Concordam e discordam. Vivem bons e maus momentos. Riem e choram. Lamentam e agradecem. Mas estão lá, juntos. Um ajudando o outro. Um participando da vida do outro. Somos seres sociais. A partir desse segundo semestre, poderemos voltar a ser. Seres sociais. Não robôs. Não máquinas. Não agentes de uma educação que se sustenta numa máquina. O que deve sustentar a educação é a relação professor/aluno. A máquina não passa de um acessório. Nunca pode ser principal.

BAHIGE FADEL

Intolerância

Será que podemos chamar a época em que vivemos de era da intolerância? Ou seria um exagero? As atitudes públicas que presenciamos nos dias atuais seriam manifestações de intolerância? Ou são manifestações sensatas, equilibradas, racionais, baseadas em argumentos sólidos? As pessoas, hoje, estão raciocinando mais com o cérebro ou com o fígado?

Vamos ver. Para não ficar apenas numa opinião, fui buscar o significado de intolerância. Aliás, opinião, no mundo de hoje, é o que não falta. E as pessoas alardeiam suas opiniões como se fossem verdades absolutas, dogmas até. Aprendi que opinião é bom tê-la, mas que ela tem mais importância para o seu dono do que para a verdade. A verdade é o fato. Já a opinião é um ponto de vista, nada mais. Tenho visto programas que se divulgam como informativos, mas que nada mais são do que programas de opinião. É um perigo para a verdade, quando acreditamos que a opinião é um fato. Mas vamos ao significado da intolerância: ‘Intolerância é a característica que corresponde a falta de compreensão ou aceitação em relação a algo. Uma pessoa que age com intolerância é chamada de intolerante e, por norma, apresenta um comportamento de repulsa, repugnância e ódio por determinada coisa que lhe seja diferente’.

Tá. Acho que ficou claro. O intolerante não aceita aquilo que é diferente do eu ele pensa. Assim, não adianta dialogar com um intolerante. Ele, por princípio, não aceitará nada que seja diferente do que ele quer ou pensa. Será contra. Não adianta você provar por a + b que ele está errado. O que vale é o que acha que deve valer. O intolerante, por mais inteligente que seja, é um mal. Aliás, o intolerante inteligente é mais perigoso do que o intolerante limitado, pois o inteligente é mais capaz de influenciar outras pessoas.

Pelo amor de Deus! Não vão pensar que sou contra aquele que não tolera a corrupção, a desonestidade, a mentira. Estou falando daquele que não tolera absolutamente nada que seja diferente do que ele quer ou pensa. Em política existe muito disso. O intolerante não tolera um político. Então, o que ele faz? É contra. E para justificar a sua posição contrária, ou inventa fatos sobre o tal político, ou distorce fatos sobre o tal político, ou dá a fatos negativos sobre o tal político uma dimensão muito superior à realidade. Ele, o intolerante, é incapaz de ver algum ponto positivo naquilo ou naquele que ele não tolera.

Sabe de uma coisa? O intolerante nunca acha que é intolerante. Ele esbraveja. Grande parte dos intolerantes é raivosa. Como não aceita nada diferente, tende a achar que os diferentes estão errados e/ou são seus inimigos. O intolerante é perigoso, pois tende a perder a noção de certo e errado. Tende a perder a noção de limites. Normalmente, os intolerantes perdem o bom senso. Não precisamos deles. Eles não acrescentam nada de positivo. Os intolerantes mataram Cristo e cristos.

BAHIGE FADEL

Coisas estranhas

Coisas estranhas a gente vê no mundo de hoje. Tudo ao contrário das expectativas. A gente espera por uma coisa, mas o que acontece são coisas totalmente diferentes. Não é questão de ruim ou bom. É só diferente. Lembro que no início da pandemia, o número de mortes era bem menor do que o que estamos vendo hoje, mas o governador pediu para fechar tudo. Era necessário? Não sei. Não sou especialista nisso. Só sei que a economia foi pro brejo, e o número de mortos começou a aumentar. Prendiam pessoas que iam às ruas para passear. Batiam nessas pessoas. E o número de mortes aumentava. Teria sido pior se não fechassem tudo? Não sei. Sei que, embora houvesse o fechamento, as coisas só pioraram. Agora, o governador já não pede para fechar tudo. Até as escolas abrirão nesse segundo semestre. Desde março do ano passado, quando o número de mortos era menor que o de hoje, as escolas estão fechadas, com aulas remotas, mas agora abrirão. É bem verdade que há muitos vacinados, mas as mortes continuam.

Pra falar de coisas mais recentes, que tal pessoas que começaram a torcer para que o Brasil perdesse para a Argentina, na Copa América? Dá para explicar? Dá. Claro que dá. Politizaram também a Copa América, assim como politizaram a pandemia. Como acharam que o Tite é lulista, aqueles que são contra o Lula – alguns – começaram a torcer contra o Brasil. Estranho, né? O Brasil perde para o seu maior rival, e algumas pessoas ficam felizes. Que felicidade é essa?

Mas isso não é novo no futebol brasileiro. Lembram o que aconteceu em 1970? Os mais velhos lembram. Naquele tempo, como estávamos no regime militar, a esquerda começou a torcer contra o Brasil, na Copa do Mundo. Só para não dar motivo de propaganda para o governo militar. Só que naquela época a seleção brasileira era tão boa que podiam botar o mundo inteiro torcendo contra ela, que ninguém a venceria. Nem a esquerda nem a direita.

Coisa estranha. As pessoas perdem uma grande oportunidade de sentir prazer só por causa da política. Enquanto uns fanáticos ficam, aqui em baixo, se digladiando, lá em cima, os políticos ficam se locupletando. Não vale a pena. Todo fanatismo é perigoso e cego. Essas pessoas misturam alho com bugalho e se lascam, perdem o prazer de muitas coisas na vida. Aliás, só para a gente continuar a conversa, eta frase esquisita essa de ‘confundir alho com bugalho’, não é? Muita gente a usa sem saber do que se trata. Parece essa turma que fica dando pitaco (Opinião dada sem ter sido solicitada, às vezes, oriunda de pessoa sem conhecimento de causa e sem motivo para interferir) sobre a COVID-19. No caso do bugalho é menos grave, pois não faz mal a ninguém. Só pra matar a curiosidade, o bugalho tem o mesmo formato do alho:

Vamos ser claros: as pessoas que confundem alho com bugalho não estão com nada. Não é preciso enxergar muito para ver a diferença.

BAHIGE FADEL

Essa língua portuguesa 2

No final do semestre letivo, numa dessas aulas remotas, estava eu comentando sobre a vida de um autor da literatura brasileira e a influência de certos fatos em sua obra literária. Disse aos alunos que o escritor era alcoólico. Imediatamente me veio a lembrança de certa ocasião em que comentava sobre alcoolismo com pessoa conhecida que trabalha na área da saúde – essa pessoa trabalhava nesse setor Assim que disse a palavra ‘alcoólico’, ela me repreendeu: ‘Não é certo falar alcoólico; o certo é falar alcoolista. ’ Tentei argumentar sobre a etimologia da palavra, mas não adiantou: Quer saber mais do que eu, que trabalho nessa área? – foi o argumento final de minha interlocutora. Eu, que não quero saber mais do que ninguém, encerrei a discussão e passei a falar ‘alcoolista’, pois se uma especialista no ramo garante que é alcoolista que se fala, quem sou eu, simples mortal, para contestar?

E o leitor deve estar perguntando: Então, cara pálida, qual é a forma correta de se falar? Para lhe ser franco, para desespero dos linguistas e gramáticos mais radicais, aprendi que a forma que se deve usar é aquela que os outros entendem melhor, mesmo que a gramática diga que não é a forma correta. De que adianta eu falar respeitando todos os padrões gramaticais, se a pessoa com quem converso não está entendendo bulhufas?

Dessa conversa toda, o que fica mais convincente é que não se deve dizer ‘alcoólatra’. Não me parece a forma adequada de nos referirmos à pessoa que tem compulsão em consumir bebida alcoólica. É que ‘latra’ vem do grego e significa adoração. O viciado em bebida alcoólica é um dependente da bebida, não um adorador dela. Já alcoolista ou alcoólico… Vejamos o que dizem os dicionários.

Alcoólico: que ou quem é viciado em bebidas alcoólicas

 

Alcoolista: Característica da pessoa que sofre pelo uso compulsivo de álcool; que sofre de alcoolismo

Alguém está vendo alguma diferença marcante, que eu não consigo perceber? Por outro lado, se você for procurar o significado de ‘alcoólatra’, vai encontrar a mesma coisa. Quer dizer, o uso da palavra ‘alcoólatra’, pelo menos no Brasil, não é com o significado de ‘adorador da bebida’. Alguns linguistas chegam a dizer que alcoólico é um eufemismo de alcoólatra. Alcoólatra teria uma carga semântica mais negativa do que alcoólico. Deve ser por isso que as associações que existem são de Alcoólicos Anônimos. Não conheço nenhuma que seja de Alcoolistas Anônimos.

Algumas pessoas devem estar estranhando que há algum tempo não escrevo sobre política. Explico: é que atualmente há tanta politicagem no meio, que não vale a pena entrar nesse lodo. E aí existe uma diferença gritante. Política não tem nada a ver com politicagem.

política

– arte ou ciência de governar

– arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; ciência política

– orientação ou método político

– arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido, influência da opinião pública, aliciação de eleitores etc.

politicagem

– política de interesses pessoais, de troca de favores, ou de realizações insignificantes

BAHIGE FADEL

Essa língua portuguesa

Vamos começar por partes. O latim é uma língua morta. Assim, ela não sofre transformações. Se a gente for aprender latim hoje, serão as mesmas utilizadas para ensinar latim para o padre Antônio Vieira. Até aí, nenhuma novidade. Também não é novidade que o mesmo não ocorre com a língua portuguesa. É uma língua viva e, por isso, sujeita a modificações. Essas modificações ocorrem de maneiras diferentes. Existe a maneira oficial, que depende de uma legislação que envolve, obrigatoriamente, o Brasil e Portugal. Sem a aprovação desses dois países, não há mudança oficial. Foi o que ocorreu há alguns anos com as regras do uso do hífen e com as regras da acentuação gráfica. Por causa dessas regras, devemos escrever ‘autoaprendizagem’ e não ‘auto-aprendizagem’, como se escrevia no século passado. Pelas mesmas regras, devemos escrever ‘voo’ e não ‘vôo’, como era antigamente. E para todos aceitarem essas pequenas regras foi um parto. Em Portugal, principalmente, até hoje existem resistências.

Se estou dizendo que a língua portuguesa é um ser vivo, devo aceitar que, de tempos em tempos, sofra mudanças. Essas mudanças, na realidade, são adaptações à nova realidade social, que depois passam a ser aceitas pelas gramáticas. Ninguém, por exemplo, acha errado, hoje, dizer ‘não pise na grama’. A não ser que seja um conservador radical. No entanto, a gente sabe que a gramática esclarece que o verbo pisar é transitivo direto. Assim, o correto gramaticalmente é dizer ‘não pise a grama’. Mas nem o papa fala assim!

Todas essas reflexões foram motivadas por um radialista que, ao divulgar uma notícia, disse que ‘as pilotas’ fizeram tal coisa. Pegou mal no meu ouvido. Fui pesquisar se existe essa forma feminina. É que eu aprendi que ‘piloto’ é comum de dois gêneros, como dentista, por exemplo: o piloto, a piloto; o dentista, a dentista. Mas foi uma surpresa. Pesquisei numas cinco fontes. Só que ninguém se entende. Há aqueles que dizem que ‘piloto’ tem feminino e outros que garantem que a palavra é comum de dois gêneros. Mas isso não muda a cotação do dólar nem mata o coronavírus. E aí surge outra questão: coronavírus, corona vírus ou vírus corona? Se for para usar as regras da língua portuguesa, deveríamos dizer ‘vírus corona’, como dizemos ‘vírus ebola’ ou ‘menino prodígio’. Só que aqui se adotou a palavra importada, com o qualificativo antes: ‘fat boy’, ‘strong man’. E é por isso que devemos dizer ‘a’ COVID-19, no feminino: corona vírus disease. É ‘a’ doença do corona vírus.

O duro de aceitar mesmo é o que já estão ensinando em algumas escolas: abolir o masculino e o feminino e passar a usar apenas o neutro. Vai ser esquisito. Já pensaram alguém falando ‘todes es alunes bonites de classe…’? Parece outra língua. Ou lhes parece algo natural?

BAHIGE FADEL

Pós-pandemia

O governo do estado de São Paulo já informou que, no segundo semestre, as escolas do Estado determinarão, conforme as suas possibilidades, o número de alunos que poderão participar presencialmente das aulas. Nada mais justo. A atitude anterior era esdrúxula, pois, fixando um percentual, ocorreram injustiças clamorosas. Numa classe onde houvesse apenas vinte alunos matriculados, somente seis podiam assistir presencialmente às aulas. Numa classe onde houvesse quarenta matriculados, doze alunos poderiam frequentar. Ocorre que o espaço físico podia ser o mesmo: de manhã, classe com quarenta alunos; à tarde, classe com vinte alunos. Há alguma lógica sanitária para num período só se permitirem seis alunos e em outro, doze? Claro que não.

Ainda bem que perceberam o erro. Terrível seria se essa postura maquiavélica permanecesse. Assim, aos poucos, iremos voltar à normalidade. Para que isso acontecesse, permitiram que uma verdadeira tempestade destruísse grande parte da educação escolar no Brasil. Num espaço onde o controle é muito mais fácil, deixaram fora da sala de aula milhões de alunos, com as sérias consequências tanto na área formativa como na área informativa. Tanto as escolas públicas como as particulares sofreram essas consequências. Principalmente, as escolas públicas, nas quais os recursos tecnológicos são muito menores. O déficit psicológico e de conhecimentos deve ser trabalhado com urgência, para que, num futuro próximo, possamos retornar ao estágio pré-pandemia, que já não era lá essas coisas.

Um dia desses, perguntaram-me o que deve ser feito nas escolas, após o retorno dos alunos. Não vai ser fácil. Além de todos os cuidados que devem ser tomados, para que a doença não se alastre novamente, é preciso um projeto pedagógico diferente para cada situação. Assim, o mais urgente é fazer uma avaliação diagnóstica séria, para se ter conhecimento da real situação em que se encontra cada aluno. As escolas descobrirão que, numa mesma classe, haverá situações completamente diferentes, que deverão ser trabalhadas psicologicamente. Com esses dados em mão, deverá ser feito um plano para cada grupo de alunos com problemas semelhantes. Não é hora de ficar analisando se esse ou aquele aluno deve ser promovido ou retido. Isso é secundário. Será hora de analisar o que deve ser feito pelos alunos, para que eles possam recuperar conhecimentos e readquirir o

hábito de estudos e o prazer em estudar e frequentar uma escola. Vou usar um termo que faz tempo que não emprego: trabalho hercúleo a ser feito. E como deverá ser hercúleo, é só para pessoas fortes, dinâmicas, que amam a educação e acreditam que só através dela é que conseguiremos cidadãos mais autênticos e capacitados para realizar a sua tarefa na sociedade.

BAHIGE FADEL