Coluna Bahige Fadel

Definição

Quem é o sábio que se propõe a definir o ser humano? Não é tarefa fácil. Mas não vale essa de dizer que o ser humano é a mais perfeita criação de Deus. Não vale. Mesmo porque, se Deus criou o homem para ser perfeito, alguma coisa aconteceu no meio do caminho, e deu tudo errado. O ser humano está longe… muito longe… infinitamente longe de ser perfeito. Se um dia o homem foi perfeito, como dizem os mais crentes, esqueceu como é. Ou não gostou do que era e resolveu mudar. Deve ter achado que a perfeição era muito enfadonha. Deu uma guinada de 180 graus e foi pro caminho contrário. Haja imperfeição, cara!

Vamos arriscar alguma coisa? Afinal de contas, isto é uma crônica, não uma tese. A gente tem que ser criativo, não exato. A exatidão está para os matemáticos, não para os cronistas. Os cronistas são parecidos com os meteorologistas: às vezes acertam, mas não dá para confiar cegamente nas suas previsões. Está bem, lá vai. É um ser indecifrável… incompreensível… obscuro… paradoxal… Taí. Paradoxal cai bem. O que é o paradoxo? Aparente falta de nexo ou de lógica; contradição; raciocínio aparentemente bem fundamentado e coerente, embora esconda contradições decorrentes de uma análise insatisfatória de sua estrutura interna. Epa! Isso não é meu, é do dicionário. Falta de lógica… contradição… É isso aí.

Quer ver? Quantas vezes você viu, ouviu ou leu alguém defendendo a ideia de que devemos defender a guerra? Quantas? Acho que nenhuma. A não ser algum desvairado como o Quincas Borba, de Machado de Assis, que dizia que a guerra é necessária, porque preserva os mais fortes e elimina os fracos, como se os mais fracos não devessem viver. Hitler deve estar aplaudindo a personagem machadiana, lá no inferno. ‘Ao vencedor, as batatas! ’  Todo mundo aparece para defender a paz. Por acaso, em sua longa ou recente vida, quantas vezes você ficou sabendo que não havia nenhuma guerra no mundo? Quantas? Lá no Oriente, parece que eles colocam na agenda: ‘Amanhã, às 10h, início da guerra contra tal país; no mês que vem, guerra contra outro país; em dezembro, pausa para as festas de Natal e ano novo; retomada da guerra na segunda semana de janeiro (a primeira é para curar a ressaca) ’.

A guerra não precisa ser com balas e bombas. Parece que isso está meio fora de moda. A guerra de palavras é a mais moderna. E mais barata. E sua capacidade de destruição é maior do que as bombas. É que as palavras têm o poder de destruir física e moralmente. E são lançadas a torto e a direito. Indiscriminadamente. E fazem isso em nome da liberdade, da democracia, dos direitos. Como se a gente devesse ter a liberdade ou o direito de destruir os outros, não importando o motivo. É que as pessoas se acham no direito de serem juízes e carrascos, ao mesmo tempo. Julgam e executam, sem darem satisfação a ninguém. Dão-se um poder que não possuem e colocam em prática uma maldade, que aprimoram a cada dia.

BAHIGE FADEL

Chatice

Fui procurar no dicionário o significado da palavra chato, para ver que havia algo diferente daquilo que a gente sabe. Não há. É aquilo mesmo: ‘ Indivíduo de companhia ou convivência desagradável, inconveniente, desinteressante, não só pela obviedade e previsibilidade, com também pela falta de conteúdo de suas afirmações. Estorvo. Aquele que causa incômodo ou tédio.’

É isso mesmo. O mundo atual está uma chatice danada. Está causando tédio. E não que seja algo ocasional ou de pessoas de pouca cultura. Não. Há muita gente de status chata pra dedéu. Caramba! Está insuportável. Acho que nem os chatos estão se aguentando de tanta chatice. Vocês viram a definição do dicionário? Obviedade e previsibilidade. Querem coisa mais chata do que isso? Você vai assistir a um programa de TV para ver o que há de novo. E o que você vê? O blá-blá-blá de sempre. Aquele que é contra só fala contra. Não consegue ver uma virtude. Aquele que é a favor só fala a favor. Não consegue ver um defeitozinho sequer. Chatice total. Insuportável.

Nessa história chata, todo mundo é maniqueísta. Parece que ninguém se propõe a sair desse quadrado. Ninguém quer ampliar horizontes. Ninguém quer refletir um pouco mais, para ver se existe algo mais. É a santificação de um lado e a demonização do outro. Só que o que é santificado por um lado é demonizado pelo outro e vice-versa. Santos e demônios são os mesmos. Tudo depende de quem está falando ou escrevendo. Pode? Será que não há nada entre o santo e o demônio?

Vejam a questão dos preços dos combustíveis. Os situacionistas tentam justificar a elevação dos preços, isentando de responsabilidade o governo. Os oposicionistas soltam sapos e lagartos sobre o governo, dizendo que ele é o único responsável por essa elevação. E daí? – pergunto eu em minha santa ingenuidade. A situação não sugere uma ação que possa mudar esse estado de coisas. A oposição, além de fel e veneno, não oferece nenhuma solução palpável. Em primeiro lugar, quero saber objetivamente se existe uma solução. Em segundo lugar, quero saber se essa solução é aplicável no Brasil. Em terceiro lugar, quero saber o que deve ser feito para que essa solução seja colocada em prática. Em quarto lugar, quero saber em quanto e por quanto tempo essa redução de preços ocorrerá. Você tem alguma resposta, caro leitor? Mas eu não quero tiros ou flores. Quero dados, caminhos e prazos.

Mas não é só nisso que a chatice do mundo é gritante. Em vários outros aspectos. Tudo é motivo para violência. Tudo é motivo para indignação. Tudo é motivo para uma guerra de gestos e de palavras. Tudo é motivo para transformar em inimigo o amigo. Está cansando.

Nasci numa região em que tudo é motivo para guerra. E lá estão eles procurando motivos e guerreando. Ninguém dorme sossegado. Ninguém acorda sossegado. Ninguém diz bom-dia sossegado. Vim para um país em que as coisas eram resolvidas em paz, no diálogo, na compreensão. Eram. Agora, aprenderam a guerra. Aprenderam o ódio. E gostaram. Infelizmente, gostaram.

BAHIGE FADEL

Agradar

Amigo, você já notou como é difícil agradar a todas as pessoas? Perdão, errei o adjetivo. É impossível agradar a todas as pessoas? Não estou querendo dizer que isso é bom ou ruim. Estou querendo dizer que é humanamente impossível. Aliás, humana e divinamente impossível. Isso mesmo, nem Deus – com D maiúsculo – agrada a todos. Não foi Nelson Rodrigues que disse que toda a unanimidade é burra? Se ele estiver certo, há um monte de gente inteligente neste mundo.

Mas voltando à vaca fria… Nossa Senhora! Não sei como desenterro essas expressões.  Voltar à vaca fria. Acho que nem meu avô usava mais essa expressão. Quer dizer retornar ao assunto principal. Mas essa expressão não surgiu do nada, não. É de antanho. Surgiu na França, no século XVII. E eu desenterrei agora. Como desenterrei o antanho. Eu escrevi que desejava voltar à vaca fria, mas estou tergiversando. Rsrsrs. Vocês se lembram daquele filme De volta para o futuro? Marty e Doc Brown vão para o futuro para resolverem um problema da família McFly, mas quando retornam ao presente, descobrem que houve um fato que mudou o rumo da história. Então, tiveram que voltar para o passado, para consertarem o desastre. Pois é, esta crônica está parecendo isso. Enrolação total. Lengalenga.

Eu quero mesmo é voltar à vaca fria. É difícil agradar a todo mundo. Sua namorada fala que você é lindo; sua ex garante que você é um trubufu. Acreditar em quem? A gente tende a acreditar no que nos é mais conveniente. Outra: sua mulher vive repetindo que você está engordando muito, é só barriga, nem as roupas lhe cabem mais. Já sua mãe o que é que fala? Meu filho, você está tão magro. Você está doente? Precisa ir ao médico. Ou é sua mulher que não está dando comida pra você? Eu bem que disse que não era pra você casar com ela.  Estou mentindo? Claro que não. Isso é assim desde que o mundo é mundo.

E na política? Mesma coisa. Os antibolsonaristas garantem que os bolsonaristas são burros, toupeiras, débeis mentais, acéfalos, retardados, estúpidos, idiotas. Quando não dizem que são desonestos, desonrados, desqualificados, desumanos, des… Já os bolsonaristas têm certeza de que os antibolsonaristas são burros, toupeiras… Bem, não vou repetir todas as palavras. Ocupariam muito espaço.

Foi Aristóteles que disse que a virtude está no meio, né? É coisa pra se respeitar. Não foi um Zé-Ninguém que disse isso. Só que essa virtude está difícil de ser encontrada. As pessoas estão atirando para todos os lados. Acertem em quem acertarem. E quem sofre é a virtude do equilíbrio, como disse Aristóteles. As pessoas só olham para um lado ou para destruir ou para endeusar. Quem sofre é a verdade, que fica escondida nos radicalismos.

A gente brinca um pouco para a crônica ficar mais leve. Estamos cheios de pesos inúteis. Mas o assunto é sério. É preciso criticar o erro para corrigi-lo e elogiar o acerto para estimulá-lo. Só assim evoluiremos.

BAHIGE FADEL

Normalidade

A pergunta que não quer calar é: Quando voltaremos à normalidade? Lamento dizer que, na minha opinião, que, aliás, ninguém pediu, mas, mesmo assim, eu a transmitirei, não haverá o retorno à normalidade naquele conceito tradicional. Cada um terá a sua nova forma de normalidade.

Por exemplo, no meu caso, o que seria voltar à normalidade? Seria eu recuperar o olfato? Cheiro agradável e desagradável? Seria eu sentir o gosto do maracujá quando tomar um suco de maracujá, e não um gosto estranho que não consigo definir? Seria eu recuperar toda a energia que tinha antes da COVID? Seria eu passar a caminhar com segurança, sem sentir essas tonturas que surgiram com esse destraçado vírus? Ou seja, seria eu voltar a ser igualzinho ao que era antes de ser infectado pelo Corona vírus? Se for assim, sinceramente, acho que não terei de volta essa normalidade. Vou ter que me adaptar ao meu novo normal. Se eu não quiser sofrer, claro. Porque já fiz tudo que os médicos e os curiosos pediram, sem resultado algum. Assim, está decidido: o meu normal será o meu novo normal.

Mas eu não sou Todo Mundo. Todo Mundo é personagem do Auto da Lusitânia, de Gil Vicente: ‘Eu hei nome Todo o Mundo,/ e meu tempo todo inteiro/ sempre é buscar dinheiro, /e sempre nisto me fundo.’. Longe disso. E outras pessoas esperam por coisas diferentes nessa aguardada normalidade. O desempregado voltará à normalidade quando recuperar seu emprego ou quando conseguir outro emprego para sustentar-se. Estou certo? O promotor de espetáculos voltará à normalidade quando puder voltar a promover seus espetáculos. São o seu ganha-pão. Os carnavalescos voltarão à normalidade quando puderem realizar o seu carnaval sem limitações. As escolas voltarão à normalidade quando todos os alunos puderem voltar à sala de aula, sem precisarem usar a máscara protetora. O governo voltará à normalidade quando todas as atividades voltarem e a arrecadação se recuperar, para que possa realizar as atividades em favor do povo.

Eu sei o que você está pensando agora. Você deve estar achando que, desse jeito, nunca voltaremos à normalidade. Por quê? Só porque eu disse que será normal o governo realizar atividades em favor do povo? Que aí não será normalidade, mas novidade? Que a exceção nunca pode ser uma normalidade? Aí será maldade sua, cara pálida. Por incrível que pareça, eu ainda acho que há governos que desejam fazer coisas para beneficiar o povo. Juro! Conheço alguns. Naturalmente que não estou incluindo aquele que se aproveita da pandemia para tirar dinheiro dos aposentados e, depois, para tentar ficar mais simpático, visando às próximas eleições, resolve conceder um bônus para determinada classe. Não sou tão cego assim.

Quer saber? Posso não ter retornado à normalidade ainda, mas já me sinto bem mais leve, bem menos nervoso e inseguro. Espero que o mesmo esteja ocorrendo com você.

BAHIGE FADEL

 

Liberdade

A liberdade sempre foi e é um assunto importante para as pessoas. Em todos os dias enfrentamos situações que questionam nossa liberdade. Afinal de contas, essa liberdade existe realmente? Nós somos, de fato, livres? Ou podemos ser livres em certas situações?

Nesse tempo de pandemia – que está demorando bem mais do que desejamos – se falou muito em liberdade. As autoridades têm o direito de nos obrigar a tomar a vacina ou temos liberdade de optar por não tomar? Essa pergunta só pode ser respondida, se definirmos o que é liberdade. Se liberdade significar o direito de fazer aquilo que pretendemos, então podemos optar. Mas isso é liberdade ou libertinagem? A libertinagem é o uso da liberdade contrariando os princípios morais básicos. Por exemplo, é moral eu exercer a liberdade de ficar entre outras pessoas, se eu tenho uma doença de fácil contágio, colocando, assim, em risco a saúde de outras pessoas? Acredito que isso não é liberdade, mas libertinagem. Eu devo ter a liberdade de não tomar a vacina que me oferecem contra a COVID 19? Acredito que sim, desde que eu não ofereça risco a outras pessoas. Se eu não quero tomar a vacina, não posso ter o direito de frequentar lugares com muitas pessoas, colocando-as em risco de serem contaminadas por mim.

Aliás, essa polêmica de obrigatoriedade do uso da vacina no Brasil não é nova. No início do século XX – 1904 – houve uma revolta generalizada quando o Congresso Nacional determinou a obrigatoriedade do uso da vacina contra a varíola. Foi uma crise total, e sabem por quê? A primeira justificativa foi que aqueles em quem tivessem aplicado a vacina ficariam com cara bovina. Pode? Muita ignorância! Outra justificativa foi que as mulheres teriam que mostrar seu braço desnudo em público, já que a vacina era aplicada no braço das pessoas. É muito pudor, não acham?

Enfim, a gente chega à conclusão de que a liberdade total não existe. Ninguém pode fazer o que bem entende. E não é por qualquer regime político em que vivemos. A liberdade é muito relativa. Temos liberdade de ir e vir, desde que esse ato não prejudique outras pessoas. Temos o direito de não tomar a vacina, desde que não sejamos um risco de contaminação. Mas por mais livre que seja o regime político em que vivemos, não temos liberdade de não pagar os impostos determinados por lei. A lei não nos dá liberdade de optar. Eu não tenho a liberdade de não pagar a taxa de condomínio, pois esse não pagamento prejudicará os outros condôminos, que terão que arcar com as despesas gerais. Eu uso a energia elétrica do condomínio, e os outros pagam.

A gente ouve algumas pessoas levantarem a voz e dizerem: Eu faço o que eu quero. Em primeiro lugar, isso é fake. Não fazem. Em segundo lugar, se fizerem, que pena! Não sabem viver em sociedade.

BAHIGE FADEL

Paz

Perguntaram a uma criança: O que é sentir paz? E a criança, surpreendentemente respondeu: É o mesmo que sentir dor, só que é gostoso.

Certamente, na sua intuição, a criança achou que a paz é um sentimento tão forte como a dor, só que causa prazer.

Perguntaram a ela: Quando é que você sente paz? E ela não titubeou nem um pouquinho. Foi logo respondendo, como quem sabe o que diz: De várias maneiras. Quando a mamãe me coloca pra dormir e me conta histórias bonitas, de lugares com flores e um riacho de águas claras. Também sinto paz quando estou brincando com os meus amigos. É tão gostoso! A mamãe chama a gente para almoçar, a gente vai, mas a paz continua, porque sabe que depois da escola vai brincar de novo. Mas eu também sinto paz, quando vejo a mamãe e o papai sorrindo abraçados. Sei que nessa hora eles estão felizes. E eu sinto paz, porque, se eles estão felizes, todo mundo em casa fica feliz.  Sabe? Eu sinto paz de outro jeito também. Quando está chovendo bem fininho, eu fico olhando a chuva bater na janela da sala. E eu só tenho vontade de ficar olhando a água fazer o seu serviço. Mamãe me disse que a chuva, ainda mais quando vem mansinha, é boa para a natureza, para a vida. E a gente sente paz quando as coisas boas acontecem. Eu acho que a paz tem tudo a ver com felicidade, com alegria. Se eu estou feliz, eu sinto paz. Se eu estou alegre, eu sinto paz. Mas acho que não existe paz na tristeza. Quando estou triste, sinto um peso esquisito no coração. Dá vontade de chorar, dá vontade de fugir, dá vontade de não existir.

Vendo que a criança sabia tanta coisa sobre a paz, perguntaram-lhe: Para você, o que é a guerra? Ela pensou um pouco. Dispensou o sorriso do rosto e arriscou: É tudo de ruim. Meu pai me disse que há países que estão em guerra, e ficam matando uns aos outros. Eu não quero que ninguém mate as pessoas. Por isso, não quero a guerra. Nos filmes, todos os soldados têm o rosto fechado, sem sorriso, sem felicidade. E isso é ruim. Mas a guerra não é só isso. Um dia, eu ouvi a Lucinha dizer que os pais dela vivem em guerra. E todos na casa ficam assustados, porque parece que querem se matar. Em minha casa, não. Meus pais nunca estão em guerra. Minha mãe sempre diz que, quando ela não se entende com o papai, resolvem conversar, até se entenderem. Até ficarem em paz.

Seria tão bom que as pessoas do mundo tivessem a mesma percepção das crianças ou dos pais dessa criança. Em primeiro lugar, a paz, por menor que seja, é melhor do que qualquer guerra. Em segundo lugar, quando as pessoas não se entendem, seria tão bom se resolvessem conversar, para não entrarem em guerra. Seria tão bom que as pessoas se respeitassem e não quisessem impor que os outros fossem iguais a elas.

Sabe? Escrevendo sobre a paz, lembrei-me de uma música antiga de Dolores Duran:

Hoje eu quero paz de criança dormindo
quero o abandono de flores se abrindo
para enfeitar a noite do meu bem.

Pena que nem todos queiram resolver os seus problemas em PAZ.

BAHIGE FADEL

Normalidade

O pessoal já está falando que estamos voltando à normalidade. Será? Para não pisar na bola (deu-me uma vontade danada de escrever ‘pisar a bola’, mas achei que é muito esnobe), fui procurar, no dicionário, os significados da palavra ‘normal’. Não encontrei nenhuma novidade. É como a gente usa mesmo: De acordo com a norma, com a regra; comum. Que ocorre naturalmente ou de maneira habitual; natural, habitual. Que segue um modelo, normal ou padrão. Que se comporta ou age de uma maneira considerada aceitável ou adequada.

Daí me lembrei de que a moda é dizer que estamos vivendo um ‘novo normal’. Com o mesmo objetivo, fui ao dicionário: proposta de um novo padrão que possa garantir nossa sobrevivência.

Não satisfeito, fui à caça de mais informações: “Novo normal” é uma expressão cunhada por Mohamed El-Erian para caracterizar o fato de que esta crise não é como as que vivemos nas últimas décadas, com repercussões basicamente cíclicas, mas uma crise que provocará uma ruptura estrutural: quando ela passar e as coisas voltarem ao normal, esse não vai ser o mesmo normal de antes. Não reconhecer isso é arriscar a surpresa de se planejar para a volta do normal anterior e se descobrir numa realidade bem diferente.

Depois de tudo isso, eu pergunto: Podemos dizer que voltamos à normalidade ou a viver esse novo normal? Pelo jeito, muitas pessoas nunca deixaram de viver o antigo normal. Para elas, a pandemia foi uma ilusão de ótica, incapaz de afetá-las. Podia afetar o vizinho, o desconhecido, o conhecido, o cachorro do amigo, o inimigo, aquele cara lá do outro continente, os chineses, mas ele, jamais seria afetado por essa coisa. ‘Conversa de político pra prender a gente em casa’. Até quando morreu um parente próximo, essas pessoas não acreditaram. ‘Tão inventando essa doença. Todo mundo morre, um dia’.

Por outro lado, há as pessoas que continuam enclausuradas, impedidas de fazer qualquer atividade. ‘Distanciamento social’, para elas, quer dizer longe do mundo e de qualquer atividade. Preferem morrer de medo a morrer de COVID, de doença. Como se o medo não fosse uma doença terrível.

Tem que existir um meio-termo, né? Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, diziam meus avós. Há um jeito saudável de voltar à normalidade sem correr muitos riscos. Há riscos, sim, mas também há riscos ficando em casa. Mesmo sem pandemia, corremos riscos. Os vírus, os bandidos, os ladrões, os assassinos e a depressão estão em todas as partes. Não é porque a gente fica trancado em casa que estamos protegidos. Podemos proteger-nos mesmo fora de casa. Assim como um assaltante pode entrar em nossas casas, a depressão também pode. Para nos proteger do assaltante, colocamos tranca nas portas, alarme por todas as partes e outros cuidados. Para nos proteger da depressão, muitas vezes a melhor solução é sair de casa. Para nos proteger da COVID, enquanto ela existir, é só tomar certos cuidados higiênicos e de distanciamento social. Você não precisa, agora, ir a uma balada, num espaço de cem metros quadrados, com trezentas pessoas que você mal conhece. Estar num ambiente assim, nunca foi muito normal, sempre ofereceu riscos para a saúde e para a segurança.

Na minha profissão, já vivo o novo normal. Recebo meus alunos. Eles e eu estamos de máscara e respeitamos certa distância segura. Posso garantir a vocês que esse novo normal é muito melhor que as terríveis aulas remotas, que fomos obrigados a ministrar durante mais de um ano.

É. O novo normal logo se transformará em normal. E o resto será lembrança, uma triste lembrança.

BAHIGE FADEL

As Crises

Quando as pessoas começam a dizer que, hoje, tudo está ruim, que nunca esteve pior, costumo dizer, para evitar discussões estéreis, que a pior dor que existe é aquela que a gente está sentindo. As outras dores ou não nos pertencem ou já as superamos. Se você, caro leitor, está com uma baita dor de dente e lhe perguntam qual é a pior dor que existe, o que é que você responde? Dor de dente, claro. Se você costuma ter aquelas dores de cabeça insuportáveis, que não o deixam dormir ou trabalhar, qual é a pior dor que existe? Dor de cabeça, claro.

Pois é, quando me dizem que no Brasil nunca houve uma crise política/institucional como a de agora, volto a perguntar sobre a pior dor. A crise de agora não é a pior que já existiu nem é a pior que existirá. O Brasil tem um balaio cheio de crises. A primeira que eu vi, logo ao chegar ao Brasil, ainda criança, brincando nas ruas de Pardinho, foi com o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Todo mundo comentando o assunto, inseguro. O que vai ser de nós, agora, meu Deus? Para ser franco, não sei como a população superou essa crise. Sei que o Brasil continuou a sua vida à espera de outras crises.

Mesmo essa questão do ‘perigo do comunismo’, não é a primeira vez. Afinal de contas, o que é que houve em 64? Não foi a questão do ‘perigo do comunismo’, após a renúncia de Jânio Quadros, por culpa das ‘forças ocultas’ ou ‘forças terríveis’? Foi. E foi um deus-me-livre. O que seria do futuro do país? Terrorismo. Prisões. Mortes. Censura. Um monte de coisas. Parecia que não podia haver conserto para o Brasil. Mas continuamos vivos, tropeçando aqui, levantando acolá. E o Brasil continuou à espera de uma nova crise.

Quem não se lembra da crise causada no tempo do presidente Collor, o ‘caçador de marajás’? Nossa Senhora! Terrível. Um monte de consequências. Naquele tempo, o presidente tomou atitudes intempestivas que prejudicaram a população e, ainda, achou que podia peitar a grande e poderosa mídia. Deu no que deu. Cassação. Crise. Parecia que não encontrariam uma solução. E o que houve? Aos trancos e barrancos, superamos tudo, até o confisco da poupança, e estamos vivos. E o Brasil continuou à espera de uma nova crise.

A de hoje também não é fácil. A solução não ocorrerá com uma simples paralisação de caminhoneiros. Não que essa paralisação não tenha importância. Tem. Pode ser um estopim, mas não uma solução. E a crise de agora tem ingredientes novos, como a pandemia, com a briga das autoridades, cada uma querendo ser o pai da solução. Se deixassem só para a ciência, haveria menos problemas. Mas sempre houve os oportunistas de plantão, que querem tirar proveito em tudo. Não proveito para a nação, mas para si próprios ou para as suas ideologias. No fundo, não é uma questão de crise, propriamente, mas uma questão de poder. As pessoas incrementam as crises, porque amam mais a si mesmas do que aos outros. Alimentam-se do ódio e usam como argumento a desinformação ou a falsa informação, que gera insegurança.

Mas estejam certos, venceremos mais essa crise. Que a gente não tenha que pagar uma conta que não devemos. Que o Brasil não tenha que pagar por um pecado que os inoportunos radicais cometeram e continuam cometendo. O Brasil é maior que todos eles e, por isso, merece mais respeito.

BAHIGE FADEL