Coluna Bahige Fadel

Maldade Humana

Recentemente, estava lendo um artigo de Maria Melo, Life coach e cofundadora da Academia do Ser, publicado na revista Progredir, sobre a maldade humana. O artigo me chamou a atenção. Não que suas ideias me tenham surpreendido pelo inusitado. Não. Como um simples observador, muitas vezes notei que o ser humano tem dentro de si o instinto da maldade. Sim. A maldade proposital e consciente. Não estou me referindo à maldade patológica. Essa é uma doença e, por isso, deve ser tratada como tal. Estou me referindo à maldade consciente de pessoas consideradas normais. Elas se acham no direito de serem más. Acham que prejudicar os outros com os seus atos é um direito delas. Seguem a lei do mais forte: se eu posso, eu faço. É a lei da selva. A lei do mais forte. Conto sempre um fato ocorrido numa sala de aula de cursinho pré-vestibular, com aproximadamente cento e cinquenta alunos. Um rapaz chegou atrasado, no primeiro dia de aula. Só havia vaga na primeira fileira. Era uma dificuldade chegar até lá. O rapaz se esgueirava entre os alunos, com dificuldade. No meio do caminho, um aluno colocou a perna para o rapaz tropeçar. E isso aconteceu. Não houve solidariedade de ninguém. Não houve empatia. Houve apenas uma vaia ensurdecedora. O rapaz nunca mais apareceu.

O que me chamou a atenção no artigo de Maria Melo foram algumas ideias ali colocadas. Uma delas foi a de Mencio Mong Tse (371 a.C. – 289 a.C), pensador chinês: “os seres humanos são naturalmente bons, agem dentro da moralidade, são dotados de compaixão e da capacidade de distinguir o bem do mal e, por isso, o mal é resultado de influências externas”. Esse pensador é seguido por Rousseau, que dizia que ‘o homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe’.

Assim, por esses pensadores, o ser humano aprende a ser mau. Tudo bem. A gente pode aprender um monte de coisas. O que é difícil entender é que, se ele aprende a ser mau, aprende também a ser bom. Aprendendo as suas coisas, por que escolhe ser mau, e não ser bom?

Mais à frente, a articulista afirma que ‘as pessoas associadas à maldade comum apresentariam características como o narcisismo e egoísmo exacerbado, com tendência à vitimização, possuindo uma incrível preguiça para a escolha do bem, com uma grande capacidade de mentir, de esconder as suas intenções, de reverter situações e mascarar quadros, bem como uma preocupação com a aparência, inclusive do ponto de vista da legalidade.’ Vejam que ela se refere à maldade comum, não à maldade patológica. São pessoas tidas como normais que, por narcisismo e egoísmo exacerbado, optam pela maldade. São pessoas que seguem a máxima de Gérson: ‘o negócio é levar vantagem em tudo’. Nem que seja para pisar a cabeça do outro. Nem que seja para prejudicar os outros em seus direitos.

Voltando ao artigo, Maria Melo cita psicólogos americanos Stanley Milgram e Philip Zimbardo: ‘o mais pacato dos seres humanos poderia cometer atos terríveis se assim lhe fosse ordenado pelas autoridades, pois teríamos uma tendência inata à obediência e à submissão.’ Isso que dizer que a maldade humana pode estar relacionada à tendência à submissão e obediência do ser humano. Essa é a reação de rebanho. As pessoas podem agir como o gado, obedecendo às ordens dos superiores. Se os superiores forem maus, pessoas comuns, normais podem agir como más, em obediência a seus superiores. Muitas autoridades contam com isso, para submeter cidadãos comuns às suas vontades, nem sempre de acordo com a moral e a ética.

Vou terminar esta reflexão com um pensamento de Albert Einstein: “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e, sim, por aquelas que permitem a maldade.”

BAHIGE FADEL

Nada de extraordinário

Um dia desses, assistindo a fim filme, desses de alto-astral, uma das personagens diz à outra: ‘Nada de extraordinário acontece, se você resiste’. O alerta foi dado a uma personagem que resistia a aceitar que amava a outra pessoa e que, por isso, era justo que ela se entregasse a esse sentimento, que, com certeza, a faria feliz.

Fiquei pensando sobre essa frase. Como é que a gente poderia aplicá-la na vida real? Ou isso é apenas fantasia? Na verdade, não é. Muitas vezes, por medo ou por insegurança, a gente resiste a certos sinais que nos apresentam. Muitas vezes, por medo ou insegurança, perdemos certas oportunidades, que nos levariam à realização de determinados sonhos e que concretizariam a nossa felicidade.

O caro leitor já deve ter presenciado ou vivenciado várias situações como essa. Uma pessoa resiste a uma proposta de emprego excelente, só porque teria que deixar o conforto de sua cidade e a tranquilidade do emprego antigo, ao qual está acostumado, embora não lhe dê prazer algum nem lhe ofereça um salário justo. Isso acontece todos os dias. Na história e no dia a dia, isso acontece. Conta-se que o poeta Vicente de Carvalho, que vivia em Santos e amava o mar, se demitiu de um emprego público, só porque teria que se mudar para São Paulo. Teria sido feliz, com isso? Não teria sido mais feliz, se fosse para São Paulo e lá criasse uma nova vida, com novos amigos e novas oportunidades? Conheci um jogador de futebol aqui da cidade que perdeu todas as oportunidades possíveis de tornar-se famoso e bem remunerado, porque não queria ficar longe da namorada. Depois de algum tempo, desfez o namoro. Se tivesse aceitado a proposta de profissionalização, seria um homem profissionalmente realizado e – quem sabe? – o namoro poderia ter dado certo, em outras circunstâncias.

A gente não pode resistir às mudanças. Elas são importantes para o nosso desenvolvimento profissional e pessoal. O que não muda é poste, que está sempre no mesmo lugar. O que não muda é língua morta, como o latim. As línguas vivas mudam constantemente. E há pessoas que resistem a essas mudanças. Há pessoas que continuam usando convescote, porque não aceitam a palavra piquenique, só porque é de origem inglesa. Não estranharia se alguma múmia ainda empregasse ludopédio, só para não empregar a palavra futebol.

As pessoas devem estar constantemente abertas para as mudanças. Precisamos adaptar-nos a elas. Se resistirmos a essas mudanças, correremos o risco de nos transformar em peças de museu. Peças de museu não mudam. Elas são peças de museu porque não mudam. Nós somos seres vivos, que vivemos numa sociedade em transformação. Até os sentimentos mudam. Até as pessoas mudam. Até os costumes mudam. Até as opiniões mudam. E pensar que há pessoas que estufam o peito para dizerem: ‘Eu não mudo de opinião.’. Ridículo! Se aparecer uma opinião melhor, você tem que mudar. Se quiser que algo de extraordinário lhe aconteça, não resista às mudanças.

BAHIGE FADEL

Viver é muito perigoso

Hoje eu me levantei com essa frase de Guimarães Rosa na cabeça. Viver é, de fato, muito perigoso. E a cada dia que passa fica mais perigoso ainda. Que fique claro, caro leitor, não estou me referindo à pandemia, à COVID-19. Muito antes disso, viver já era muito perigoso. São tantas armadilhas que surgem que, se a gente não estiver prevenido, é apanhado, é colocado fora de combate.

Viver é perigoso para as crianças, que têm poucas defesas para os perigos que surgem. Quando eu era criança – isso já faz muito tempo – eu ia, a pé, sozinho para o Grupo Escolar Napoleão Corule. Hoje, nem pensar! Os pais é que levam. Ou contratam um transporte escolar, para que o filho tenha mais segurança. E ainda ficam rezando, em casa, para que nada de ruim aconteça. Viver é perigoso para os adolescentes. Se não tomarem cuidado, entrarão num mundo de drogas legais e ilegais do qual dificilmente conseguirão sair. Os pais, além de educadores, têm que ser policiais dos filhos, para socorrerem ao mínimo sinal de irregularidade. Mas como socorrer os filhos que estão numa festinha na casa de um amigo? Como saber o que será oferecido ao filho, nessa festinha? É orientar e rezar. Só que isso nem sempre dá certo, pois o filho prefere fazer tudo para enturmar com o grupo a seguir a orientação dos pais. Antigamente, festinha em casa de amigo era festa de aniversário, com a presença dos pais. Hoje as festas são para quando os pais forem viajar. Viver é perigoso para os jovens. Se os pais deixam os filhos dirigir o carro, correm risco. Racha, abuso de velocidade, velocidade com bebida… Se você não lhe entrega o carro, torna-o um babaca, antiquado, covarde, ET da turma. Oh dúvida cruel! Viver é perigoso para os adultos. Você tem que trabalhar muito mais do que suas forças suportam, para sustentar a sua família. As despesas agora são muito maiores. Os filhos já estão na universidade e têm as despesas dobradas. E as coisas pioram quando você perde o emprego e, humilhado, tem que tomar decisões drásticas para a sobrevivência. Antes, as exigências da sociedade eram muito menores. E os sacrifícios dos pais, embora existissem, não eram tão massacrantes. Viver é muito perigoso para os velhos. Não bastassem as dores de todos os dias, o enfraquecimento do corpo, o aumento da insegurança, as dificuldades visuais e motoras, é bom lembrar que vivemos no Brasil, um país que não está acostumado à velhice. Os idosos, em vez de serem protegidos, são tratados como um peso extra a ser carregado. Os governantes desprezam a velhice. Vivemos num estado, por exemplo, em que o governador nos obrigada a pagar pela nossa aposentadoria, mesmo já estando aposentados, tirando-nos significativa importância dos salários. Assim, pagamos por uma aposentadoria pela qual já pagamos, e nos falta o dinheiro para os inevitáveis remédios.

Guimarães Rosa sempre teve razão: Viver é muito perigoso.

BAHIGE FADEL

Os Opostos

BEM: que tem relação com bondade, honestidade, gentileza, caridade, entre outros.

MAL: Aquilo que lesa, prejudica ou danifica

BOM: que é útil, agradável, positivo, aliciante, gostoso, divertido, que tem qualidade,

MAU: Que demonstra ruindade ou crueldade; que não tem boas tendências

HONESTO: Pessoa que age corretamente, mesmo contrariando seus ou próximos interesses; que age com escrúpulos, com decência, com honradez

DESONESTO: Que não possui nem demonstra honestidade; que tem a intenção de ludibriar (enganar); insincero ou enganador. Desprovido de decência; sem honra

LEAL: Que cumpre as promessas que faz; que age com responsabilidade, sincero, franco, fiel

DESLEAL: que não cumpre as normas; sem decência, honra, honestidade; desonesto

RACIONAL: que não cumpre as normas; sem decência, honra, honestidade; desonesto

IRRACIONAL:  ser incapaz de usar a razão. Ser que não pensa

Não vou mais citar o significado de palavras de sentido oposto. Seria muito cansativo. Só vou fazer uma simples pergunta: Se o ser humano é, teoricamente, considerado racional, por que, muitas vezes, opta pelo mal e não pelo bem, por ser mau e não bom, por ser desonesto e não honesto, por ser desleal e não leal? Por quê? Será que ele pensa para ter suas opções ou age como irracional?

Muitas vezes, quando converso com meus alunos a respeito de valores, peço para eles pensarem sobre a seguinte questão: Por que o ser humano apenas sussurra que ama, mas sente prazer em gritar que odeia? Dificilmente consigo uma resposta. E não é por timidez. Afinal, algo que não falta aos alunos é o prazer em falar. Por quê? É que as pessoas não gostam de pensar sobre esses assuntos. Acham que é perda de tempo. É melhor falar sobre assuntos que não exigem tanto pensamento.

ÓDIO: Sentimento de profunda inimizade. Aversão instintiva direcionada a; antipatia, repugnância

AMOR: Afeição profunda a outrem, a ponto de estabelecer um vínculo afetivo intenso

AMIZADE: É o relacionamento que as pessoas têm de afeto e carinho por outra, que possuem um sentimento de lealdade, proteção etc

INTERESSEIRO: Diz-se de quem só tem em atenção ou só possui como motivação para agir os próprios interesses; diz-se de quem é egoísta, cobiçoso ou ganancioso

Só se pode concluir que tudo isso ocorre, porque, em nossa sociedade, o sentimento do ódio se propaga com muito mais facilidade do que o sentimento do amor. E por que isso ocorre? – perguntará o leitor. Não há uma resposta definitiva para isso, mas a gente pode concluir que a amizade é pouco cultivada pelos interesseiros, que se propagam como tiririca na política e em outros setores da sociedade.

BAHIGE FADEL

Minha Homenagem

‘Nunca esquecerei de ti, oh minha terra, berço onde o amor nasceu…’. Os versos do poeta são reais pra mim. E pensando em seu aniversário, sinto- me feliz como um aniversariante. Feliz por viver aqui. Feliz por ter conquistado aqui o que sou hoje. Sinto-me parte desta cidade encrustada na cuesta e, por isso, recebendo constantemente uma brisa agradável.

Moro em Botucatu desde os onze anos de idade. Foi quando saí de Pardinho para morar na Pensão Santana, do Máximo Sanches. Meu pai queria que eu estudasse, e em Pardinho só havia o Grupo Escolar Napoleão Corule. Mas o primeiro contato com Botucatu, pra valer, foi um
pouco antes.

Eu tinha apenas oito anos e para cá vim para participar do desfile cívico em comemoração ao centenário da cidade. Naquele tempo, se não me falha a memória, Pardinho era, ainda, distrito de Botucatu. E os alunos do distrito foram convidados a participar da festa da cidade. Depois, meus pais se mudaram para cá, pois não queriam ficar longe dos filhos. Fomos morar na rua Amando de Barros, onde tínhamos uma loja: a Casa São João. Aliás, por causa do nome da loja, todos achavam que o nome de meu pai era João.

No início, ele explicava que era Ramez. Quando viu que não adiantava, resolveu deixar pra lá. Aqui em Botucatu realizei quase todos os meus estudos. Aqui me tornei professor, profissão que exerço até agora. E cada dia na sala de aula é um dia de felicidade. Fui e sou professor de boa parte da cidade. Costumo dizer que metade de Botucatu é de pessoas que foram ou são meus alunos e a outra metade é de pais ou avós de meus alunos. Aqui também, por orientação do amigo Progresso Garcia, tive minha curta experiência política.

Foi o período de redemocratização do país. Foram seis anos de trabalho na Câmara Municipal, da qual fui presidente. Aqui também me tornei radialista. Pelas mãos de Plínio Paganini entrei na F-8. Por sugestão do amigo Elias Francisco me tornei Fadel Júnior, já que o Plínio havia dito que não contrataria nenhum radialista com o nome de Bahige. Seria necessário um nome artístico.

Foi em Botucatu que me tornei Cidadão Botucatuense. Foi uma gentileza do amigo e vereador José Varoli, que apresentou o projeto de lei. E a boa vontade dos demais vereadores, que aprovaram, por unanimidade, o projeto.

Mas não é só por isso que amo tanto esta cidade. Foi aqui que conheci a Mari Neusa, minha companheira desde os meus dezessete anos e a mãe de meus três filhos, que em Botucatu nasceram. Não me imagino vivendo sem ela. Somos apaixonados um pelo outro. Aceitamos os defeitos que cada um possui e procuramos aperfeiçoar nossas virtudes.

Principalmente nossa capacidade de vencer dificuldades e permanecer juntos Conheci Botucatu quando a cidade tinha quarenta mil habitantes e era conhecida como a cidade dos ferroviários. A Estrada de Ferro Sorocabana era a que mais empregava. Não havia ainda a UNESP. Os botucatuenses eram obrigados a sair daqui, se quisessem fazer faculdade. Não peguei o apogeu das grandes indústrias do passado. Vi todo desenvolvimento acontecer. Vi chegarem as indústrias de agora. Tivemos sorte de ter grandes administradores. Assim, Botucatu se transformou no que é.
Tranquila e desenvolvida. Moderna sem deixar de preservar as tradições. Lugar ideal para a gente usufruir dos bons ares e ser feliz.
Parabéns, Botucatu! Parabéns botucatuenses!

 

Bahige Fadel 

Matar em Nome de Deus

Interessante, caro leitor, como se mata em nome de Deus, como se odeia em nome de Deus. Enquanto Cristo disse para que amássemos a Deus
sobre todas as coisas e o próximo como a nós mesmos, o mundo faz totalmente o contrário: odeia e mata em nome de Deus.

Enquanto a Bíblia afirma que Deus é amor, os homens leem a Bíblia e, ao que parece, não entendem as palavras ou se acham no direito de interpretá-las conforme
os seus interesses. Uma lástima. Não só isso, mas também uma preocupação enorme. Aonde chegaremos? Qual será o fim de tudo isso? Acho que não haverá um fim, mas muitos finais.

E não haverá final feliz. Essa longa peça teatral é, com certeza, uma tragédia. Vamos pensar nesse ódio histórico. Vale a pena. Na Idade Média, salvo melhor juízo, houve nove cruzadas. E como se matou em nome de Deus nessas cruzadas! Em 1572, em Paris, houve a famosa Noite de São Bartolomeu, em que católicos e protestantes se mataram, sem economia. Na Revolução Francesa, segundo os livros, mais de duzentos mil católicos foram massacrados. Ainda conforme livros, na Revolução Espanhola, católicos foram massacrados por comunistas. Em 1938, na Alemanha, na conhecida Noite dos Cristais, judeus foram massacrados pelos nazistas. Vamos parar por aqui nessa carnificina histórica em nome de Deus.

Mas esse ódio não fica estagnado na história. Assim fosse. Atualmente, muito sangue em nome de Deus continua sendo derramado. Por exemplo, no Afeganistão, regime Talibã, fundamentalistas muçulmanos e a Aliança do Norte continuam derramando sangue em nome de Deus. Na Nigéria, cristãos e seguidores do islamismo continuam sua luta religiosa. No Iraque, xiitas e sunitas nunca se deram bem. Israel contra a Palestina – judeus x muçulmanos – é um jogo histórico que não termina nunca. Será que terminará algum dia? Nem Deus sabe.

No Sudão, muçulmanos e não- muçulmanos se matam há mais de cinquenta anos. Na Tailândia, budistas e muçulmanos espalham seu ódio em nome de Deus.
O que pensam esses povos? Que o Deus deles é melhor que o Deus dos outros? Mas Deus é um só, não é? Será que Deus, onipotente e onipresente, fica lá em seu trono escolhendo qual povo deve vencer? Será que esses povos se dão o direito de achar que o inimigo não é o próximo que deve ser amado? ‘Amar ao próximo como a si mesmo.’ Em algum lugar está escrito que devemos odiar aqueles que possuem uma outra religião?

Será que em algum lugar da Bíblia, do Alcorão ou de qualquer livro religioso está escrito que o Deus verdadeiro é católico, protestante, islamita, budista ou qualquer outra religião? Mas Deus não disse que todos nós somos seus filhos? Então, todos nós somos amados igualmente por ele.
Infelizmente, tenho que concluir que Deus também é vítima dessas lutas. Usam seu nome para satisfazer os seus desejos mais torpes, mais mesquinhos, mais baixos, menos divinos.

 

Bahige Fadel

A Guerra

No mundo, sempre houve guerras. Umas maiores, outras menores. O mundo, na verdade, nunca esteve em paz. Por exemplo, a Guerra dos Cem Anos durou 116 anos e causou mais de dois milhões de mortes. A Guerra dos Trinta Anos, ocorrida por problemas religiosos – tudo em nome de Deus! – causou perto de oito milhões de mortes. A Guerra Sino-Japonesa, ocorrida quando o Japão invadiu a China, com o objetivo de dominar aquele país, causou a morte de aproximadamente vinte milhões de pessoas. A Guerra Civil Russa, para derrubar os socialistas que haviam tomado o poder, causou a morte de dez milhões de pessoas.

A Primeira e a Segunda Guerra Mundial causaram juntas mais de oitenta milhões de mortes. A Rebelião Taiping, ocorrida na China, por questões político-
religiosas, causou trinta milhões de mortes. E a Guerra da Síria, que começou em 2011 e dura até hoje? Ninguém mais fala dela. Continuam morrendo pessoas por lá. Um dos países mais bonitos do mundo está destruído.

Quase quinhentos mil mortos. Vamos parar por aí, para que a crônica não fique muito triste. Antes, porém, é bom que a gente ressalte que, atualmente, existem quase trinta conflitos no mundo, por motivos diversos, que causam milhares e milhares de mortes. Mas esses conflitos não chamam a atenção da mídia global. Interessa a guerra entre Rússia e Ucrânia, pois esse conflito respinga no mundo inteiro, por causa da produção de petróleo e gás. Os especialistas dizem que, se a Rússia deixar de vender gás, a Alemanha não suportará o inverno.

Não preciso ir tão longe. a coisa está lá na Europa, e vejam como estão os preços no Brasil. Sabem outra coisa ruim nas guerras? Pessoas que querem tirar vantagem a qualquer custo. São oportunistas nojentos, que não pensam em mortes, não pensam em crise, não pensam em nada que não seja a vantagem que podem conseguir com os eventos. Vamos culpar tal candidato, para facilitar a caminhada do nosso candidato.

Vamos insistir que e tal governante é o culpado, pra que ele seja rejeitado pelo povo nas próximas eleições. Vamos dizer que foi por causa dele a guerra. Vamos dizer que ele é o culpado das mortes. E isso vale para qualquer partido político. É a oposição, sempre, que vai culpar a situação. O alvo é a situação. A bala é a oposição.

E isso não é só na guerra. Quando os interesses políticos são colocados à frente dos outros interesses, a briga de foice no escuroé inevitável. Hajavista a pandemia do coronavírus. Foi tiro pra todos os lados. O importante era tirar vantagem do episódio. Vamos lamentar as mortes, diziam, não porque realmente lamentamos, mas para parecermos os bonzinhos. A gente é o bonzinho e o outro é que se vire com a solução. E se a solução vier, vamos insistir que poderia ter sido melhor, mais rápida e eficiente. Tudo para se tirar vantagem política. Isso também é uma guerra. Infelizmente.

 

Bahige Fadel

A Solução

Desde o tempo da pedra lascada, a gente ouve falar que as dificuldades ensinam. Para superar essas dificuldades, o homem se aperfeiçoa e, por isso, melhora. Parece lógico esse raciocínio. Por causa dele, no começo da pandemia de COVID eu acreditava que, superado o problema, o ser humano se tornaria melhor, mais humano, mais solidário, mais racional, mais afetivo, mais empático.

E o que aconteceu? Sabemos o que não aconteceu. Não aconteceu nada daquilo que eu achava que aconteceria. O pior lado do ser humano veio à tona. A maldade, o ódio, o egocentrismo, a violência, a falsidade, a mentira, a difamação, a misantropia. Principalmente a misantropia, o ódio que o ser humano demonstra pela humanidade nunca esteve tão claro como hoje. Talvez num passado que não vivi tivesse havido algo parecido, com Hitler e seus asseclas, por exemplo. Sei que estou meio negativo.

Sei. Eu costumo dizer para as pessoas com quem convivo que a pior dor é aquela que a gente está sentindo. Dentro desse raciocínio, devo estar achando que a atual é a pior receita de ser humano que se fez, porque é a dor do momento. Pode ser. Mas isso não elimina a ideia de que a humanidade está cada vez menos humana. As pessoas estão deixando de pensar com o cérebro, para raciocinar com o fígado. Um dia, perguntei aos meus alunos se eles já haviam notado que as pessoas sussurram que amam e gritam que odeiam. Depois lhes perguntei se eles sabiam o motivo. Ninguém respondeu. Às vezes, tenho a impressão de que as pessoas gostam mais de odiar do que de amar. Amam com vergonha e odeiam com orgulho.

Sei que a gente não pode generalizar. A generalização é sempre um erro. Mas a minha preocupação agora não é acertar, mas colocar à tona minha decepção e indignação com o ser humano. Um país cuja força militar é cem vezes superior à do país vizinho resolve invadir esse país. O que move o poderoso país além do ódio? Um torcedor de futebol resolve jogar uma bomba num ônibus onde estão atletas que estão se dirigindo a um estádio de futebol, para realizarem o seu trabalho profissional. O que move esse torcedor além do ódio? Um ser desumano coloca fogo numa pessoa, só porque essa pessoa é de outra raça. O que move esse ser desumano que não seja o ódio? Um pai abusa sexualmente da filha de três anos de idade.

Essa é uma atitude de seres humanos? Sim, porque só o ser humano ou desumano é capaz de tanto ódio. Esta crônica não transformará o mundo. Jamais teria essa pretensão. Aliás, já faz algum tempo que perdi minhas esperanças de que uma ‘mágica’ ou um milagre pudesse mudar o mundo para melhor.

Não inventaram essa mágica ou esse milagre . Até agora, só inventaram máquinas para piorar o mundo. Máquinas de ódio, que obrigam o ser humano esquecer a sua humanidade e a colocar em prática os seus piores instintos.

 

Bahige Fadel