Língua Viva

Vamos lá. O que é uma língua viva? É a língua falada por pelo menos uma pessoa. E acreditem: no Brasil há uma língua falada por uma pessoa só. É aí que eu não entendo. Se a língua existe para a comunicação entre as pessoas, como pode existir uma língua de uma pessoa só? Só se o cara falar com ele mesmo. Mas vamos voltar ao leito do rio, ou ao assunto da crônica. O português, portanto, é uma língua viva. Falada por quase trezentos milhões de pessoas. Os brasileiros contribuem com a maior parte: mais de duzentos milhões de falantes. Uns falam bem e outros, mal. Uns assassinam a língua, o que é um crime de lesa-pátria.

Todas as línguas vivas estão sujeitas a mutações. Às vezes, são mudanças simples. Outras vezes, as mudanças são tão grandes, que se criam dialetos. Segundo os especialistas, no Brasil há doze dialetos. Arreda pra lá, sô. Tem espaço pra todo mundo. Esse é o dialeto caipira. As línguas mortas, não. O latim, por exemplo, depois que deixou de ser língua oficial, permanece o mesmo. É usado na igreja católica e em outras situações específicas. Quando criança, assisti a muitas missas cele radas em latim. A parte mais esperada era quando o padre falava ‘Ite, missa est’. E a gente dizia ‘Deo gracias!’.E saía correndo pra brincar.

A gente, que é mais velho, tem que tomar cuidado com as mudanças da língua. Se você não estiver atualizado, pode ter sérios problemas. Um dia, indo para a sala de aula, vi um menino e uma menina conversando no corredor. Isso foi no século passado. Sorrindo, disse a eles: O que vocês estão transando aí? Vamos pra sala de aula. Vi que os alunos não retribuíram ao sorriso. No dia seguinte, os pais foram reclamar com o diretor da escola, dizendo que eu os tinha ofendido.

Eu queria saber o que eles estavam combinando, acertando, naquele canto do corredor. Eles acharam que eu estava dando uma conotação sexual, que eu nem conhecia, na época. Quem mandou estar desatualizado?

Ainda assim, acho mais fácil atualizar-se do que entender o português mais antigo. Já pensaram se alguém diz: Aquele homem é um sacripanta azêmola. Tem uma birosca na periferia, só vende cacarecos e posa de janota, como se fosse muito importante. Gostaram? Entenderam alguma coisa? Escrevi um monte de palavras corretamente, mas que estão em completo desuso. Quem fala desse jeito não comete um despautério, mas não tem o meu beneplácito. Estou exagerando, né?

Um dia me perguntaram: Falar difícil é falar bem? Eu disse que não. Falar difícil é só falar difícil. Falar bem é falar com correção e clareza. Parafraseando Camões, digo que para se falar bem, deve haver engenho e arte. A arte é a intuição, a beleza, a elegância. E o engenho é a técnica, é a obediência às normas estabelecidas. Dessa forma, você será compreendido pelo seu interlocutor e preservará o seu idioma, já que ele é um patrimônio do povo e do país.

BAHIGE FADEL

Sobre Fernando Bruder

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