Estudantes das Etecs organizam mobilização estadual contra falta de investimentos e denunciam problemas estruturais

Um movimento liderado por estudantes de diversas Escolas Técnicas Estaduais (Etecs) de São Paulo convocou uma paralisação e um ato público para esta segunda-feira (08). A mobilização teve início após a divulgação de um vídeo no perfil “@etecsemluta”, no Instagram, no último dia 30 de maio, conclamando alunos de todo o Estado a participarem das manifestações.

Entre as principais reivindicações estão denúncias de sucateamento das unidades, falta de professores, problemas de infraestrutura, insuficiência de investimentos e questionamentos sobre a qualidade da merenda escolar. Segundo os organizadores, representantes estudantis de diversas Etecs se reuniram na última sexta-feira (05) para definir os detalhes da mobilização.

O ato principal ocorrerá na capital paulista, com concentração às 15h na Praça da República, em frente à Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (SEDUC), seguindo em caminhada até a sede administrativa do Centro Paula Souza, autarquia responsável pelas Etecs e Fatecs. Enquanto isso, unidades do interior deverão atuar na divulgação das reivindicações e na elaboração de um dossiê com relatos e documentos sobre os problemas enfrentados nas escolas.

Em Botucatu, estudantes afirmam que a Etec Dr. Domingos Minicucci Filho também enfrenta dificuldades semelhantes às relatadas por outras unidades do Estado. De acordo com integrantes do movimento, o grêmio estudantil da escola não convocou assembleia para discutir a paralisação nem se manifestou oficialmente sobre as reivindicações.

Um dos representantes ativos da mobilização na cidade é Samuel Ivale de Macêdo, presidente do movimento Vanguarda Estudantil da Etec de Botucatu. Em relato encaminhado à reportagem, o estudante detalha problemas que, segundo ele, afetam diretamente a qualidade do ensino oferecido na unidade.

Confira o depoimento na íntegra

“O nosso grupo está trabalhando para contribuir com o movimento; afinal, a nossa escola também se enquadra no contexto do que se reivindica. Assim como as diversas Etecs, a nossa unidade tem sofrido com a falta de infraestrutura e de docentes.

Lembro-me do meu primeiro dia de aula na Etec Dr. Domingos Minicucci Filho. As esperanças eram altas; afinal, agora eu me tornara um aluno do meritório e consagrado Centro Paula Souza. Em pouco tempo me frustrei, impactado pela qualidade da estrutura física e curricular. Pode-se dizer que, infelizmente, toda aquela imagem de qualidade educacional não condizia totalmente com a realidade.

Ao longo do segundo ano, aprofundei minha experiência por meio dos laboratórios do curso de Eletrônica, que evidenciavam a existência de problemas de infraestrutura. Lembro-me das aulas de soldagem que tive: equipamentos sucateados, insuficientes para o desenvolvimento ideal da aula. Sem contar as bancadas de alguns laboratórios, que estão muito danificadas e com tomadas que não funcionam, prejudicando a própria compreensão do aluno acerca do que se estuda. E isso não é um caso exclusivo do curso de Eletrônica.

O mesmo ocorre com a biblioteca: mesmo com a entrada de uma diversidade de novos cursos em nossa instituição, não pude perceber uma atualização digna — até mesmo para alguns cursos mais antigos, o acervo não contemplava uma coleção satisfatória. Além disso, os espaços de estudo, inclusive o da biblioteca, no que diz respeito à tecnologia, estão extremamente defasados, com computadores completamente desatualizados e insuficientes.

O espaço esportivo também necessita de uma reforma; o piso da quadra esportiva é um tanto inseguro para a prática de esportes — eu mesmo me acidentei algumas vezes por lá. Os banheiros também necessitam de atenção, com vazamentos e falta de fechaduras adequadas nas portas — problemas estruturais que, infelizmente, também se repetiram em algumas salas de aula que estudei.

A falta de professores também tem sido um problema recorrente. Neste ano, a minha turma esperou meses para a contratação de uma professora efetiva de Língua Portuguesa. Isso tem impactado não somente o Ensino Médio, como tem atingido também alguns cursos técnicos, principalmente os alunos de Química, prejudicando a continuidade ideal do curso.

Além disso, há de se questionar também alguns pontos acerca do currículo. Por motivos nobres, o Centro Paula Souza passou a oferecer a opção dos estudos de meio período, que, entretanto, se demonstrou incapaz de conciliar o Ensino Técnico com o Ensino Médio. Veja: estou no terceiro ano do Ensino Médio e, este ano, não terei aulas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, áreas importantíssimas para o desenvolvimento da cidadania e do intelecto. Tive apenas um ano de aulas de Sociologia e Filosofia, e apenas dois de História e Geografia.

A merenda escolar — uma importante questão levantada por meus companheiros de Etec —, vale destacar, só é uma realidade em nossa unidade porque a escola se posicionou e conquistou a ajuda da Prefeitura Municipal.

A nossa escola, assim como as demais dezenas de unidades que têm se manifestado, não possui recursos suficientes, o que foi provado pela recente denúncia de um canal de notícias a respeito da necessidade de os estudantes da nossa unidade pagarem pela impressão de provas bimestrais. Como podemos esperar qualidade educacional de uma escola que não pode fornecer os recursos educacionais básicos?

É preciso compreender que a qualidade educacional pressupõe recursos adequados, desde a estrutura física até o projeto pedagógico, coisas que, muitas vezes, fogem do alcance da própria unidade. Por isso, questionamos o Centro Paula Souza acerca das questões que envolvem essas problemáticas, exigindo ações efetivas, que só são possíveis por meio do ato de ouvir ativamente e trabalhar junto à comunidade.”

Samuel Ivale de Macêdo
Presidente do movimento Vanguarda Estudantil da Etec de Botucatu e um dos representantes ativos da mobilização no município.

Fica aberto o espaço para manifestação oficial da direção da Etec de Botucatu e do Centro Paula Souza, para qualquer depoimento à respeito da situação.

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