Palco cheio, serviços vazios? O alerta que muitos fingem não ouvir

Em meio à tentação constante de transformar a gestão pública em vitrine de eventos, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) fez o que se espera de um órgão de controle: lembrou o óbvio. Gastar com shows artísticos enquanto serviços essenciais patinam não é apenas uma escolha política questionável — pode ser considerado ilegítimo. O alerta, de caráter preventivo, expõe uma prática recorrente em diversas administrações: priorizar o espetáculo em detrimento do básico, como saúde, educação e saneamento.

A recomendação não proíbe eventos culturais, mas impõe um limite claro: eles não podem comprometer o funcionamento do que é essencial. Parece simples, mas não é o que se vê na prática. Em cidades onde faltam médicos, sobram palcos; onde escolas carecem de estrutura, abundam cachês milionários. O próprio TCESP destaca o aumento de casos em que gestores optam por despesas discricionárias com festejos, ignorando prioridades definidas pela Constituição. É o tipo de escolha que rende aplausos momentâneos, mas cobra um preço alto no cotidiano da população.

O recado também tem peso jurídico. Caso os gastos contribuam para o desequilíbrio fiscal ou ocorram em situações de calamidade pública, podem ser considerados irregulares, sujeitando gestores a multas e até encaminhamento ao Ministério Público. Não se trata apenas de uma advertência técnica — é um aviso político. Em tempos de redes sociais e marketing agressivo, a linha entre governar e entreter nunca foi tão tênue. Mas o TCESP deixa claro: administrar bem ainda é, antes de tudo, garantir que o essencial funcione. O resto, por mais barulhento que seja, não pode vir antes disso.

Sobre Fernando Bruder

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