Dr. José Carlos Trindade, superintendente do HC de Botucatu, detalha expansão do hospital, investimentos e desafios da saúde regional

O jornalista Fernando Bruder entrevistou o superintendente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, Dr. José Carlos Souza Trindade Filho, em uma conversa marcada por balanços da atual gestão, investimentos milionários, crescimento da demanda hospitalar e os desafios enfrentados diariamente pela saúde pública regional.

Durante a entrevista, o superintendente destacou que o HC não atende apenas Botucatu, mas funciona como referência terciária e quaternária para cerca de 2 milhões de habitantes em toda a macrorregião do interior paulista.

HC atende cerca de 2 milhões de habitantes da região

Segundo o superintendente, o hospital é responsável por atendimentos de alta complexidade envolvendo diversas especialidades.

Entre os principais serviços oferecidos estão:

  • Transplantes
  • Cardiologia
  • Neurologia
  • Oncologia
  • Cirurgias especializadas
  • UTI pediátrica
  • Atendimento obstétrico de referência

Além de Botucatu, o HC atende pacientes de cidades como Avaré, Bauru, Lins e diversos municípios da região.

“Hoje o Hospital das Clínicas é uma estrutura regionalizada. Muitas vezes as pessoas ainda pensam que ele atende apenas Botucatu, mas a dimensão do hospital é muito maior”, explicou Trindade.

 

Quase 4 milhões de atendimentos e aumento das internações

O crescimento da demanda foi um dos principais temas abordados na entrevista.

De acordo com o superintendente, o hospital realizou aproximadamente 4 milhões de atendimentos no último ano, além de cerca de 28 mil internações hospitalares.

No início da atual gestão, esse número girava em torno de 25 mil internações anuais.

Trindade destacou que o crescimento exige investimentos constantes:

“Não existe saúde sem investimento. Gestão é importante, melhorar processos também, mas sem recursos é impossível ampliar atendimento.”

Ele explicou que o modelo de financiamento estadual premia hospitais que conseguem ampliar a produção de procedimentos, consultas e cirurgias.


Frio aumenta pressão sobre pronto-socorro e internações

O superintendente alertou que as quedas bruscas de temperatura provocam explosão de casos respiratórios, especialmente entre crianças e idosos.

Segundo ele, o pronto-socorro é o setor mais sensível do hospital justamente por lidar com situações não programadas.

“Cirurgias eletivas podem ser organizadas. Já o pronto-socorro depende da demanda espontânea e das urgências que chegam a qualquer momento.”

Após audiência pública realizada na Câmara Municipal, o HC iniciou medidas emergenciais para melhorar o fluxo interno e liberar leitos mais rapidamente.

Entre as ações estão:

  • aceleração das altas hospitalares até o meio-dia;
  • reorganização dos fluxos internos;
  • melhoria no processo de avaliação médica;
  • ampliação da rotatividade de leitos.

Novo Centro Oncológico deve receber investimento de R$ 90 milhões

Um dos principais anúncios da entrevista foi o avanço do projeto do novo Centro Oncológico do HC.

O projeto prevê:

  • cerca de 20 leitos de UTI;
  • aproximadamente 40 novos leitos de internação;
  • concentração dos atendimentos oncológicos em uma estrutura única;
  • modernização da oncologia e radioterapia.

Segundo Trindade, o investimento estimado gira em torno de R$ 90 milhões, com recursos provenientes principalmente de emendas parlamentares.

A decisão foi manter a oncologia integrada ao HC, preservando o perfil terciário e quaternário do hospital.


Reforma da Oncologia e Radioterapia do PSI

Além do novo centro, o HC já iniciou melhorias estruturais importantes.

Entre os investimentos anunciados estão:

  • R$ 9 milhões na reforma da Oncologia e Radioterapia do PSI;
  • cerca de R$ 25 milhões já investidos em equipamentos hospitalares.

O superintendente afirmou que a situação financeira do hospital atualmente é mais estável do que em períodos anteriores.

“Hoje eu não posso afirmar que faltam recursos para o hospital. O desafio agora é transformar investimento em melhoria prática de atendimento.”


Filas continuarão existindo, diz superintendente

Durante a entrevista, Trindade afirmou que o aumento da capacidade hospitalar não elimina completamente as filas do sistema público de saúde.

Segundo ele, o principal critério do SUS é priorizar a gravidade e a urgência de cada caso.

Ele citou como exemplo pacientes com insuficiência vascular grave, que recebem prioridade sobre cirurgias eletivas menos urgentes, como alguns casos de varizes.

“O sistema trabalha avaliando risco, gravidade e necessidade clínica.”


Entenda como funciona o sistema CROSS

O superintendente também explicou o funcionamento do CROSS, sistema estadual responsável pela regulação de vagas hospitalares.

Segundo ele, o objetivo é encaminhar o paciente para o hospital com estrutura disponível no momento da necessidade.

Isso significa que pacientes podem ser transferidos para outras cidades da região quando necessário.

“É melhor o paciente ser rapidamente encaminhado para um hospital com vaga disponível do que permanecer aguardando sem suporte adequado.”

Trindade destacou ainda que cerca de 94% da população de Botucatu consegue atendimento dentro da própria cidade.


Falta de profissionais preocupa hospital

Outro desafio citado foi a dificuldade para contratação de profissionais em determinadas especialidades.

As áreas mais críticas atualmente são:

  • pediatria;
  • psiquiatria.

Segundo o superintendente, muitas vezes a limitação não é estrutural, mas sim a ausência de profissionais disponíveis no mercado.


Tecnologia transforma a medicina

A entrevista também abordou os avanços tecnológicos no setor de saúde.

Trindade citou:

  • telemedicina;
  • UTIs conectadas remotamente;
  • cirurgias robóticas;
  • integração digital entre hospitais.

Ele afirmou que a tendência é de uma medicina cada vez mais conectada e regionalizada.


Hospital Estadual ajuda a desafogar o HC

O superintendente destacou a importância da integração regional entre os hospitais.

Segundo ele, o Hospital Estadual Botucatu vem contribuindo para absorver cirurgias eletivas e casos de menor complexidade, ajudando a reduzir filas e aliviar a pressão sobre o HC.

Além disso, o hospital desenvolve projetos para que determinados pacientes possam continuar tratamentos em unidades de menor complexidade, liberando leitos para casos mais graves.


Debate sobre maternidade gera polêmica

A questão da maternidade também foi abordada durante a entrevista.

Trindade explicou que manter duas maternidades completas exigiria duplicação de equipes, estruturas e custos operacionais.

Segundo ele, o modelo atual funciona em rede, com encaminhamento de pacientes conforme a complexidade do caso.

“Maternidade hoje exige UTI neonatal, pediatria permanente, anestesistas e estrutura hospitalar completa funcionando 24 horas.”

O superintendente destacou ainda que muitas cidades da região deixaram de manter maternidades próprias justamente pela inviabilidade econômica.


Contaminação em incubadoras aumentou pressão na UTI neonatal

Outro ponto revelado durante a entrevista foi o impacto causado por uma contaminação bacteriana em incubadoras da UTI neonatal.

Segundo Trindade, alguns leitos precisaram ser interditados temporariamente, o que provocou forte pressão no sistema hospitalar regional.

Ele explicou que qualquer redução de leitos gera efeito cascata em toda a rede de saúde.


Braquiterapia deve evitar viagens de pacientes para Jaú e São Paulo

O HC também trabalha para implantar o serviço de braquiterapia em Botucatu.

O investimento previsto é de aproximadamente R$ 2,6 milhões, com apoio via incentivos fiscais do PRONON.

A expectativa é permitir que pacientes oncológicos realizem tratamentos na própria cidade, evitando deslocamentos frequentes para municípios como Jaú e São Paulo.

O novo serviço deverá atender casos de:

  • câncer de próstata;
  • câncer de mama;
  • câncer de colo de útero;
  • outros tipos de tumores.

HC reforça papel regional e aposta em crescimento contínuo

Ao final da entrevista, Trindade afirmou que o futuro do HC passa pelo fortalecimento regional e pela integração com outros serviços de saúde.

Ele destacou a ligação histórica do hospital com a Faculdade de Medicina de Botucatu e com a Secretaria Estadual da Saúde.

Segundo ele, o crescimento de outros polos hospitalares e universitários da região deve ser visto como algo positivo para toda a rede pública.

“O objetivo é fortalecer toda a saúde regional. Quanto mais centros fortes existirem, melhor será o atendimento da população.”


Laboratório do HC impressiona pelo volume de exames

Encerrando a entrevista, o superintendente destacou o tamanho da estrutura laboratorial do hospital.

Segundo ele, o setor funciona praticamente como uma “fábrica de exames”, responsável pela produção de milhões de procedimentos laboratoriais todos os anos.


Assista à entrevista completa

A entrevista completa com José Carlos Souza Trindade Filho está disponível no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=fxVXyUvyguo

Sobre Fernando Bruder

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro ou o jornalista responsável por blogs e/ou sites e portais de notícias, inclusive quanto a comentários. Portanto, o jornalista responsável por este Portal de Notícias reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal e/ou familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.