Atuação de GCM em “bico armado” envolve empresa ligada à família do secretário Sargento Laudo

Documentos oficiais da Polícia Civil e da Justiça de São Paulo revelam um grave conflito de interesses envolvendo a segurança no Residencial Altos do Serra, em Botucatu. Segundo os autos, uma empresa de terceirização ligada diretamente à família do Secretário Municipal de Segurança Sargento Laudo, passou a operar, na prática, um serviço de vigilância armada em favor de uma incorporadora privada, em meio a um escândalo de estelionato imobiliário na região.​

Empresa da nora do secretário de segurança no centro do caso

Despacho da Delegacia de Polícia registra que o veículo Fiat Doblò, usado em rondas e abordagens no Altos da Serra, pertence à empresa Ezra Serviços e Terceirizações Ltda., de propriedade da nora do Secretário de Segurança. O mesmo documento destaca que ela é casada com o guarda civil municipal Lucas Trombaco da Silva, filho do sargento reformado Laudo Gomes da Silva, atual secretário de Segurança Pública de Botucatu, situação que levou o delegado a remeter o inquérito para a Delegacia Seccional, reconhecendo a sensibilidade do caso.​

Os registros mostram ainda que a empresa Ezra não é uma empresa de segurança privada, mas de “serviços e terceirizações”, com CNAE ligado a limpeza e apoio operacional, sem qualquer menção a atividade de vigilância ou escolta autorizada pela Polícia Federal, requisito legal para a exploração de segurança privada no país.​

GCM armada em serviço para empresa da família

Relatório de investigação da Polícia Civil relata que, em 7 de setembro de 2025, moradores do Altos da Serra denunciaram a presença constante de um veículo Fiat Doblò branco, do qual desciam duplas de indivíduos armados, que ordenavam a paralisação de obras e ameaçavam derrubar construções em lotes disputados judicialmente. Em diligência posterior, policiais localizaram o veículo e identificaram seus ocupantes como os guardas civis municipais com iniciais D.O.F. e J.G.T., ambos portando armas de fogo institucionais da Guarda Civil de Botucatu, que admitiram estar prestando serviço para a empresa Ezra no local.​

Os mesmos autos apontam que esses agentes acompanhavam escavadeiras e realizavam “patrulhas” constantes pelo bairro, em contexto de forte conflito entre compradores de lotes e a incorporadora Altos da Serra Ecovita Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda., que afirma ser a legítima proprietária da área e vem derrubando benfeitorias erguidas por pessoas enganadas em golpes de venda de terrenos. O uso de servidores armados, com armas e estrutura pública, a serviço de um contrato privado firmado com empresa da nora do secretário, levanta dúvidas sobre desvio de finalidade e favorecimento indevido.​

Contrato tenta mascarar vigilância como “vigia não ostensiva”

Para formalizar a atuação, a Ecovita assinou com a Ezra um contrato de “prestação de serviços de vigia não ostensiva” no Residencial Altos da Serra. O documento prevê dois postos, funcionando das 7h às 19h, todos os dias, com profissionais uniformizados, em regime 12×36, e traz cláusula expressa afirmando que a atividade não configura segurança privada, seria sem uso de armas e destinada apenas à observação, fiscalização e controle de acesso, tentando afastar a aplicação da legislação federal de segurança privada.​

Essa descrição contratual, porém, diverge de forma contundente do que foi narrado pelas vítimas e constatado pela própria Polícia Civil, que registrou a presença de guardas municipais armados, em veículo da Ezra, executando rondas, abordagens e ações de contenção em área de litígio fundiário intenso. Na prática, o serviço se assemelha ao de segurança privada ostensiva, atividade que exige empresa especializada devidamente registrada na Polícia Federal, com controle rigoroso de pessoal, armamento e procedimento, o que não se verifica no caso da Ezra.​

Conluio político-administrativo e risco à legalidade

Um despacho do delegado Marcelo Lanhoso de Lima, constante dos autos, registra explicitamente que o inquérito é remetido à Delegacia Seccional “tendo em vista que o veículo apreendido pertence à empresa Ezra Serviços e Terceirizações Ltda., levando em conta que a empresa Ezra pertence a esposa do guarda municipal Lucas Trombaco da Silva, que é filho do secretário de segurança deste município, Laudo Gomes da Silva”. Essa fundamentação mostra que a própria autoridade policial enxerga risco de interferência ou, ao menos, aparência de favorecimento indevido na condução do caso.​

Somam-se a isso outros elementos sensíveis: o fato de Lucas Trombaco ocupar função de direção na Defesa Civil; o uso de armas públicas em atividade contratual privada; e o contexto de um grande esquema de estelionato imobiliário no mesmo loteamento, investigado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG), no qual golpistas venderam lotes irregularmente a dezenas de vítimas. Diante desse cenário, juristas e órgãos de controle podem enxergar, em tese, violação aos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade, bem como indícios de conluio entre agentes públicos e interesses privados.​

O que a população de Botucatu precisa saber

Os documentos analisados não apenas expõem um loteamento marcado por fraudes e conflitos, mas também revelam um arranjo no qual a família do secretário de Segurança opera, por meio de empresa própria de terceirização, um serviço de “vigia” que, na prática, envolve GCM armada e atuação em favor de uma incorporadora, sem o respaldo típico exigido para empresas de segurança privada. Embora parte das condutas tenha sido tratada como “fato atípico” na esfera penal em decisão pontual, permanecem em aberto as responsabilidades administrativas, éticas e políticas dos envolvidos, especialmente quanto ao uso de cargos, armas e estrutura do poder público em benefício de contrato da própria família do secretário.​

Lucas Trombaco da Silva – Copordenador da Defesa Civil

Laudo Gomes da Silva – Secretário de Segurança de Botucatu

À luz de tudo isso, o caso clama por transparência total e apuração rigorosa por Ministério Público, Polícia Federal, corregedorias da Guarda Civil e da Prefeitura, além de fiscalização firme da Câmara Municipal. A sociedade botucatuense tem o direito de saber se a segurança pública da cidade está sendo usada para proteger o interesse coletivo ou para servir a negócios privados de quem deveria zelar, com isenção, pela lei e pela ordem.

A redação da REDE ALPHA procurou na tarde desta quinta-feira, 11/12, o prefeito Fábio Leite, o secretário de segurança Sargento Laudo, a secretária de Comunicação Cinthia Al-Lage e o coordenador da Defesa Civil Lucas Trombaco, porém nenhum deles nos retornou até agora para das as devidas explicações do ocorrido.

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