O aumento do número de jovens fumantes no Brasil volta a se tornar uma preocupação para a saúde pública. O tabagismo é reconhecido pelo Ministério da Saúde como uma doença crônica causada pela dependência à nicotina. Dados do relatório Vigitel Brasil 2006-2024 mostram um aumento significativo de jovens fumantes. Em 2023, o índice era de 9,2%, subindo para 11,5% em 2024.
Para o professor Ricardo Luiz de Melo Martins, da Faculdade de Medicina da UnB, o aumento do percentual em 2024 se deve ao crescimento do uso do cigarro eletrônico, conhecido como vape. “Até 2024, o Brasil tinha uma política de erradicação do cigarro exemplar. Havia uma tendência declinante, mas passou a aumentar por causa do cigarro eletrônico, principalmente consumido por jovens. Já se sabe, por exemplo, que a nicotina presente no cigarro eletrônico é cerca de 20 vezes maior do que a do cigarro comum”, observa o médico.
A publicitária e influenciadora Laura Beatriz Nascimento, de 28 anos, é uma sobrevivente do câncer de pulmão causado pelo cigarro eletrônico. Ela conta que começou a fumar esporadicamente quando ainda era adolescente, mas, com o passar do tempo, o cigarro se tornou uma necessidade. Em 2020, em uma tentativa de parar de fumar tabaco, começou a usar o vape. “Me mostraram, e eu via que era uma alternativa para parar de fumar. Diziam que era menos prejudicial que o tabaco normal. Eu acabei caindo nessa mentira. Na época, eu achei que fosse verdade”, conta.
Quatro anos depois, em 2024, Laura, na época com 26 anos, descobriu a doença. Ela não precisou fazer quimioterapia, mas metade do pulmão direito foi retirado. “Quando eu estava internada no hospital, comecei a pensar em alguém do meu convívio que não fumava. Não tinha ninguém que não fumava. Aquilo acendeu um alerta em mim e tive a ideia de postar na internet sobre isso para alertar minha família e meus amigos, mas os posts saíram da bolha. Até hoje eu posto”, diz.
Mesmo depois da doença, a vontade de fumar demorou para ir embora. Atualmente, Laura está há 1 ano e 4 meses sem fumar, mas diz que não foi um processo fácil. “Ano passado foi muito difícil. É muito estranho, porque a minha vida de fumante foi relativamente longa. Então, ter que me acostumar com essa nova rotina sem poder fumar foi muito difícil. Já teve dias que eu precisei ir pra casa porque eu via meus amigos fumando”.
O professor Ricardo Martins explica que o cigarro afeta, principalmente, o pulmão, porque o órgão é incapaz de metabolizar substâncias contidas no fumo. “Quando a pessoa fuma, em torno de 5.200 substâncias são inaladas. E isso vai provocar uma inflamação crônica no pulmão. Além das doenças, por que a gente é tão contra o cigarro? É pela inadequação de colocar para dentro do organismo substâncias nas quais o órgão não está preparado para metabolizar”, alerta o especialista.
Segundo o Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária, os danos do cigarro custam R$ 153,5 milhões para o Sistema Único de Saúde todos os anos. No Brasil, mais de 145 mil pessoas morrem por doenças relacionadas ao tabaco todos os anos, sendo 477 pessoas por dia. Entre essas, mais de 40 mil mortes correspondem à Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, 30 mil à doenças cardíacas, 26 mil ao câncer de pulmão, 20 mil ao tabagismo passivo, entre outros.
Aconselhamento
Uma pesquisa do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostrou que uma conversa de até 5 minutos com um profissional de saúde pode ser decisiva para evitar a iniciação ao fumo ou incentivar o abandono do tabagismo. Os dados mostram que mais de 10 milhões de pessoas estiveram em um consultório médico, mas não foram aconselhadas sobre o assunto. Além disso, a conversa poderia reduzir o número de fumantes em meio milhão e poupar até R$ 1 bi do SUS.
Martins também aponta para a importância da conversa e do acolhimento. “Acredito que em torno de 10% dos pacientes, só de conversar com o médico, já largam o cigarro. Isso é um número expressivo”.
Além disso, existem tratamentos para o tabagismo no SUS. “O tratamento consiste em reuniões, em que são feitas dinâmicas de psicoterapia cognitiva comportamental, dependendo do caso, associado também ao uso de medicação ou de reposição de nicotina”, explica o professor.
Indústria do tabaco
Apesar das políticas de enfrentamento ao tabagismo, a indústria do tabaco argumenta que as restrições ao mercado legal de tabaco estão servindo de combustível para o crime organizado.
Às vésperas da retomada do julgamento do Tema 1.252 no Supremo Tribunal Federal (STF), no próximo dia 01 de maio, o iLab Segurança — organização que reúne autoridades e especialistas da área de segurança pública, combate ao crime organizado e inteligência —, enviou um alerta contundente aos ministros do Supremo: restrições severas ao mercado legal de tabaco estão servindo de combustível para o crime organizado.
Em petição protocolada nesta quarta-feira (22) pelos sindicatos do setor (Sinditabaco BA e RS), o iLabSegurança adverte que a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 14/2012 da Anvisa, que restringe o uso de ingredientes
Os dados técnicos apresentados pelo sindicato ao STF apontam que o mercado ilegal responde por 32% das vendas de cigarro, o que provocou uma evasão fiscal de R$ 105 bi nos últimos 12 anos.
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