Neste ano, a Fuvest fez modificações em suas provas. Quanto à redação, exame realizado no último domingo (14), foram apresentadas duas propostas, e o candidato deveria optar pela produção de uma delas: uma dissertação-argumentativa ou uma carta. As duas propostas possuíam a mesma coletânea e abordavam o mesmo tema “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”. A seguir, confira os textos-modelo produzidos pelo professor Nelson, da Escola de Redação Nelson Letras, sobre as duas proposições.
Proposta 1
Um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”.
Inúmeras são as idiossincrasias que compõem a natureza humana, e, entre as psicológicas, está o perdão. Este pode ser analisado sob vários aspectos, por exemplo: uma ação egoísta, pois se dá não para a absolvição do outro, mas por um querer sentir-se bem; uma ação altruísta, para o bem do outro; uma transação pela qual se tenta conseguir o livramento por meio da troca de ações virtuosas as quais façam o transgressor merecedor da remissão; uma virtude que só pode ser alcançada se o ofendido a realizar; um sentimento individual de autoperdão; ou, ainda, um paradoxo, pois o perdão existiria somente para o que é considerado imperdoável. Embora essas manifestações, individuais e/ou do relacionamento com o outro, sejam discutíveis e capazes de gerar reflexões diferentes, é fato que elas possuem condições ou limites.
Para que haja um perdão, é necessário que exista aquele que possa perdoar. Analisando a situação atual do extermínio na Faixa de Gaza, ainda que o principal responsável pela matança, o líder Benjamin Netanyahu, em um futuro hipotético, peça perdão por seus atos, é impossível que este ocorra integralmente, uma vez que milhares não mais existem para conceder a absolvição.
“Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”. A evocação, de acordo com o texto bíblico, de Jesus enquanto sofria a crucificação, permite, entre outras, a reflexão de que o fato de não haver a consciência da transgressão também é condição para o perdão; porém, o mesmo texto também supõe o limite para a absolvição: a consciência pela transgressão acompanhada do arrependimento.
Esse limite também é observado na atual situação brasileira em que grupos políticos tentam aprovar uma anistia a fim de libertar aqueles que atentaram contra o Estado Democrático de Direito. Esses grupos e os condenados utilizam o vocábulo anistia, como se este não envolvesse uma transgressão. Logo, é possível supor que não há uma consciência de que a tentativa de golpe foi um erro. Esse é mais um limite para o perdão: não aceitar o erro, por conseguinte os transgressores não podem ser perdoados, podem, no máximo, ser anistiados.
Assim, a palavra perdão possui muitas nuances de significado, todas intrínsecas à natureza humana, condicionadas ou limitadas por situações que envolvem a psiquê, seja pela subjetividade carregada de aspectos emocionais, seja pela razão. Até mesmo o perdão compreendido como incondicional, paradoxalmente, possui limites, visto que ele não existe em qualquer situação e para qualquer pessoa. Ultrapassar esses limites seria, sob outras perspectivas, ir além do Übermensch de Nietzsche, pois a libertação da cólera e da culpa depende de fatores externos em que estão envolvidos os actantes, depende da subjetividade e da razão daquele que quer o perdão e, principalmente, daquele que pode oferecer, afinal, ter a capacidade de perdoar ou de se sentir perdoado é anular psiquicamente o mal sofrido e praticado.
Proposta 2
Uma carta a uma personagem hipotética que o(a) tenha acusado falsamente da prática de um ato moralmente reprovável, explicando as razões pelas quais você lhe concede ou não o perdão. A carta deve ser assinada com o termo “Nome”.
São Paulo, 08 de janeiro de 2023
Caro companheiro:
Desculpe-me pelo extenso atraso, afinal, são décadas… O relógio marca 23h, e, finalmente, tiro a trave de meus olhos para lhe escrever. Hoje revivi um pouco aquele terror pelo qual passamos na juventude. Tive medo… Foi triste, angustiante, aterrorizante ver milhares de pessoas invadirem o Congresso pedindo a volta daquele aprisionamento. Mas o pesadelo parou… Sei que agora é o momento de lhe escrever, de ficar livre e de lhe permitir a liberdade, seguindo nossos ideais, pelos quais lutamos desde a época em que pertencíamos à Teologia da Libertação, quando jovens.
A última vez em que nos falamos foi o momento em que você me pediu perdão. Pelo menos, em que nos falamos pessoalmente, pois acredito que seus pensamentos mantiveram o diálogo com este seu amigo da faculdade de Direito do Largo de São Francisco, já que os meus atormentaram minha mente durante todos estes anos e projetaram várias conversas com você. Bebi deste cálice durante todo este tempo, o que me fez compreender e sentir que sua súplica está consumada.
Na época, eu o condenei não por todo o sofrimento pelo qual passei enquanto estava preso, não pelas torturas psicológicas e físicas, mas sim pelo que acreditava ser uma traição. Quando você foi pego pelo DOPS – e ao assinar a mentira de que eu havia participado do assalto ao banco -, foi-me uma dor maior até mesmo que as que tive nos meses, anos seguintes, dores as quais fizeram de mim um homem mais egoísta do que havia sido até então.
Eu não entreguei ninguém, eu não inventei nada sobre ninguém. Eu suportei todas as dores e acusações. E, se eu possuía forças para isso, passei a acreditar que todos deveriam tê-las, inclusive você. Pois é, velho amigo, “é que Narciso acha feio o que não é espelho”. E eu estava errado.
Ainda tenho sequelas físicas e psicológicas, porém a que mais me causa sofrimento é a de não ter compreendido que não somos todos iguais. Não se tratou de fraqueza a sua ação, mas sim de uma característica humana. Você tentou ser leal, entretanto seu corpo não conseguiu, não aguentou, e acabou ratificando uma versão que nada mais era a que lhe foi imposta sob tortura.
Por estas palavras me liberto desse sentimento que me condicionou, me determinou, tirando minha liberdade de pensamento. Não sei se você ainda se angustia por eu não lhe ter perdoado, acredito que sim, pois lembro-me de como você sempre foi um cristão defensor da justiça, da virtude; e um falso testemunho justamente contra nossa luta, contra este seu amigo, ainda deve inquietar seus pensamentos.
Você está livre, companheiro, eu lhe perdoo. Sua ação foi simplesmente uma consequência de algo externo, ela não foi uma escolha de seu livre-arbítrio. Você não infringiu a justiça, não há do que se culpar, foi seu corpo que não resistiu aos socos, chutes, choques elétricos, afogamentos, pau de arara… Você não soltou a minha mão. Lembre-se da mensagem de Jesus quando livrou a mulher adúltera de seus acusadores: “eu também não te condeno”, ou seja, ela não possuía condenação, estava livre de algo que nem era dela, pois ela também era simplesmente um ser humano assim como eu, assim como você.
Os anos de chumbo acabaram, companheiro, estamos livres. E…
…nós ainda estamos aqui, Nome
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