A lepra das estruturas

Um dos livros do Antigo Testamento, o Levítico, trata especificamente da lepra das estruturas, a partir do capítulo 14. Desde logo se faça a ressalva terminológica. Aqui não se cuida da doença que atinge as pessoas. Essa é a hanseníase, consoante o conceito científico que lhe deu o dr. Hansen, da Noruega. Também se padece, no Brasil, desse grave mal. Aliás, não logramos sair do desonroso segundo lugar nos países onde essa milenar doença ainda se alastra com muita intensidade. Entretanto, o objeto deste texto se refere somente à lepra das estruturas.

Tal doença se identifica quando as paredes atingem um tom esverdeado ou avermelhado.

Interessa perquirir alguns exemplos dessa doença na atualidade.

Vejamos o que ocorre com o orçamento, uma peça-chave para que o plano financeiro de uma casa funcione de maneira adequada.

Evidentemente, essa peça deve ser de domínio amplo e irrestrito, para que os donos da casa possam saber, a qualquer tempo, se o dinheiro nela vertido está sendo bem aplicado. A lepra consiste em se pretender tornar secreto o orçamento. Somente os alquimistas dessa peça podem saber onde, para que, quando e como está sendo gasto o dinheiro.

Ora, com o ocultamento dos gastos, pouco a pouco todas as estruturas da casa serão contaminadas, porque todos os interessados na gestão dos dinheiros também quererão o privilégio leproso de gastar os recursos sem revelar o destino. É muito mais prático não ter de prestar contas a ninguém. Desburocratiza tudo.

Essa mesma mancha esverdeada ou avermelhada pode ser encontrada, ainda, quando se verifica a contaminação, acidental ou criminosa, de bancos de dados. Suponha-se, apenas para argumentar, como seria de gravidade ímpar se o banco de dados usurpado contivesse dados de saúde dos habitantes de uma casa, e que a contaminação expusesse os males que acometem aquele grupo. Quantas implicações éticas e morais não decorreriam da publicação desses registros?

Nas duas situações aqui relatadas, o assunto se resolveria com uma simples quarentena. As pedras e a argamassa do orçamento e do banco de dados seriam substituídas, e tudo ficaria limpo.

Caminhemos, porém, para situação extremada. A falta da argamassa necessária para a reconstrução da casa se deveu, sobretudo, em razão de detalhe técnico aparentemente sem importância. Resolveram realizar enquete envolvendo toda a população da cidade para perguntar (mesmo a pessoas leigas, que nada entendem do tema) que tipo de material seria o melhor para a tarefa de reconstrução. Um material imune a toda a lepra, tanto a esverdeada quanto a avermelhada.

E ninguém soube entender muito bem o que estava sendo indagado. Então, o dono da casa ordenou que as pedras, a madeira, o reboco e tudo o mais fossem levados para fora da casa, um lugar para sempre declarado impuro.

Wagner Balera é professor titular de Direito Previdenciário e de Direitos Humanos na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), livre-docente em Direitos Humanos, doutor em Direito das R elações Sociais, autor de mais de 30 livros na área de Direito Previdenciário e de mais de 20 livros da área de Direitos Humanos e sócio fundador e titular do escritório Balera, Berbel & Mitne Advogados.

Sobre FERNANDO BRUDER TEODORO

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro ou o jornalista responsável por blogs e/ou sites e portais de notícias, inclusive quanto a comentários. Portanto, o jornalista responsável por este Portal de Notícias reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal e/ou familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.