Lei sobre cuidados íntimos em creches e escolas gera debate em Botucatu

A aprovação do Projeto de Lei nº 46 pela Câmara Municipal de Botucatu, na última segunda-feira, abriu uma discussão pública sobre os procedimentos de higiene íntima de crianças nas creches e escolas da Educação Infantil do município. A proposta, de autoria dos vereadores Cula e Erika da Liga do Bem, determina que os cuidados íntimos com crianças sejam realizados “preferencialmente” por profissionais do sexo feminino.

O texto aprovado estabelece que atividades como troca de fraldas, auxílio no uso do banheiro, banho e troca de roupas devem seguir essa diretriz, mas mantém a possibilidade de atuação de profissionais de ambos os sexos nas demais funções pedagógicas e administrativas. O projeto também prevê remanejamento de servidores que atualmente realizam essas atividades, sem prejuízo salarial ou funcional.

Durante entrevista à Rádio Alpha FM nesta quinta-feira (21), a médica pediatra Dra. Júlia Bruder questionou a redação da proposta e afirmou que o termo “preferencialmente” pode abrir brechas para diferentes interpretações jurídicas. Segundo ela, a lei não determina de forma exclusiva que os procedimentos íntimos sejam feitos apenas por mulheres, o que pode gerar insegurança entre pais e responsáveis.

A médica também levantou dúvidas sobre a motivação do projeto e questionou se houve registros ou denúncias envolvendo profissionais masculinos em escolas e creches da cidade que justificassem a criação da lei. Segundo Dra. Júlia, a população foi surpreendida pela proposta sem amplo debate prévio. Ela afirmou ainda que mães passaram a procurar o movimento “Mais Mãe, Mais Mulher” em busca de esclarecimentos sobre quem realiza os procedimentos de higiene íntima nas unidades escolares.

Outro ponto levantado pela especialista envolve a definição utilizada no projeto ao citar “profissionais do sexo feminino”. Para ela, o texto deveria ser mais específico para evitar futuras disputas judiciais e interpretações divergentes em meio às discussões nacionais envolvendo identidade de gênero e definição legal de sexo biológico.

Dra. Júlia também relacionou o tema ao Maio Laranja, campanha nacional de combate ao abuso e à exploração sexual infantil. Segundo ela, a discussão precisa ser conduzida com máxima clareza por envolver diretamente a segurança, a intimidade e a proteção das crianças dentro do ambiente escolar. A médica destacou ainda que, no atendimento pediátrico, casos de abuso infantil são uma realidade frequente, o que aumenta a preocupação em relação à redação da nova legislação.

Na justificativa oficial do projeto, os autores afirmam que a proposta busca criar “diretrizes claras” para garantir maior proteção, segurança e transparência nos procedimentos realizados nas unidades de ensino infantil. O documento destaca ainda que a medida “não tem caráter discriminatório” e visa fortalecer a confiança entre escolas e famílias.

O tema agora deve seguir repercutindo entre pais, educadores e autoridades do município, principalmente diante dos questionamentos sobre a aplicação prática da lei e possíveis revisões no texto aprovado.

Sobre Fernando Bruder

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro ou o jornalista responsável por blogs e/ou sites e portais de notícias, inclusive quanto a comentários. Portanto, o jornalista responsável por este Portal de Notícias reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal e/ou familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.