A retirada do tradicional painel filogenético da fachada do Cine Teatro Nelli, em Botucatu, gerou forte repercussão entre moradores, artistas, arquitetos e defensores do patrimônio histórico da cidade. Durante entrevista concedida ao jornalista Fernando Bruder, na Rádio Alpha FM 87,5, nesta sexta-feira (08), o arquiteto Pedro Paulo Pacheco falou sobre a importância simbólica, cultural e afetiva da obra que marcou gerações de botucatuenses.

Logo no início da conversa, Pedro Paulo destacou a necessidade de que a preservação do patrimônio histórico deixe de ser assunto apenas em momentos de polêmica. Segundo ele, o ideal seria que o cuidado com a memória da cidade acontecesse de forma natural e contínua.
“Eu não quero mais ser chamado apenas quando acontece uma polêmica envolvendo patrimônio histórico. Eu quero que a preservação aconteça de forma orgânica”, afirmou.
Embora o painel não faça parte da construção original do Cine Teatro Nelli — tendo sido instalado possivelmente no início dos anos 1990 — o arquiteto ressaltou que a obra acabou incorporada ao imaginário coletivo da população. Para ele, o valor do patrimônio vai além da idade da estrutura.
“Não é porque tem 100 anos que é patrimônio histórico e não é porque tem 10 anos que não é. O pertencimento da população é o que transforma aquilo em patrimônio”, explicou.
Durante a entrevista, Pedro Paulo fez uma comparação com os tradicionais pilares vermelhos do MASP, em São Paulo, lembrando que a cor foi adicionada posteriormente à construção original, mas acabou se tornando uma marca registrada do espaço cultural.
Ele também destacou o simbolismo do painel filogenético instalado na fachada do cinema, que representava a evolução humana.
“A sétima arte, que é o cinema, colocou na sua fachada a evolução física do ser humano. Quem teve essa ideia teve uma sacada brilhante”, comentou.
Além da análise arquitetônica, o arquiteto compartilhou memórias pessoais ligadas ao local. Ele relembrou os tempos em que estudantes aguardavam horas na fila para assistir aos filmes no Cine Nelli e contou que chegou a utilizar o painel para estudar biologia na época do colegial.
“São pequenas histórias que criam pertencimento. Quando vi que retiraram o painel, achei que aquilo mexia só comigo. Depois comecei a ouvir relatos de pessoas emocionadas, chorando, tristes pela retirada”, disse.
Fernando Bruder também questionou sobre a falta de diálogo com a população antes da remoção da obra. Para Pedro Paulo, o principal problema foi justamente a ausência de participação popular nas decisões relacionadas ao patrimônio cultural.
“A população precisa ser mais ouvida do que consultada”, afirmou.
Ao longo da entrevista, o arquiteto também alertou para os desafios da preservação histórica em Botucatu. Segundo ele, muitos prédios importantes da cidade estão sendo demolidos ou descaracterizados, enquanto a conscientização sobre o valor histórico ainda é insuficiente.
“O patrimônio histórico de Botucatu está febril há muitos anos. Precisa de ações rápidas e efetivas”, declarou.
Pedro Paulo ainda ressaltou a importância do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico (COMPATRI), criado recentemente, e defendeu que o turismo cultural pode ser um importante aliado na valorização dos bens históricos da cidade.
“O turismo e o patrimônio histórico precisam andar juntos. Uma cidade sem memória perde sua identidade”, completou.
Ao final da entrevista, o arquiteto fez um apelo para que a população participe mais ativamente das discussões sobre preservação cultural e destacou que defender o patrimônio histórico também é um ato de cidadania.
“Preservar patrimônio histórico é preservar pertencimento, memória e identidade para as futuras gerações”, concluiu.
Assista a Entrevista na íntegra:
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