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O carnaval 2020 surpreendeu mais uma vez

Foi sensacional! A arte, a cultura, a história, a resistência e a profecia, rodeados de muita alegria e diversão. É verdade que tem gente que pouco liga para essas coisas e ali estão apenas para satisfazer seus desejos, brincar etc. pouco se importando com arte e cultura. Mas isso em nada diminui a magnificência dessa festa brasileira. Eu amo os desfiles das escolas de samba, ainda terei o privilégio de ver pessoalmente essa arte! E mais uma vez, também, foi polêmico.

Algumas escolas usaram seus sambas e enredos para fazer protestos contra o atual governo, contra a violência, contra homofobia e misoginia. Na realidade, fizeram uso do que sempre foi a arte, a poesia, a história e a cultura. Um jeito de ver e viver a vida se contrapondo a tudo que é tirano, cesarista, déspota e opressor.

Existem muitos cristãos que ficaram de queixume pelo uso de símbolos sagrados (para eles) em uma festa, que em sua ótica, é pagã e carnal, e assim de um jeito que profanou o Sagrado. Eu discordo desse arquétipo de cristianismo e dou minhas razões. Ed Rene Kivitz diz: Deus não é de ninguém.

No curso da história os cristãos culminaram num jeito seletivo de fazer arte, ou escolheram não fazer.  Não precisamos ir longe, basta entrarmos em qualquer templo evangélico que veremos a escassez de arte e cultura. Não existem quadros, nem nada que inspire ao divino. Rubem Alves vai dizer que os cristãos interpretam de um jeito rigoroso o segundo mandamento: ‘Não farás para ti imagem de escultura’, com um ferrenho ascetismo artístico. Por isso têm dificuldade com tudo aquilo que é belo e que traz poesia, seja ela como for. Assim é fato que terão dificuldades com o carnaval.

Discordo da visão protestante dualista, em que a multiplicidade superficial se resolve na duplicidade básica e reducionista. Para eles, sagrado e profano absolutos. Nessa visão não há espaço para o novo e o diferente, para eles tudo que está fora dos seus padrões e limites do sagrado, isto é, fora do templo, é profano (pro = diante; fanum = templo) e, portanto, maligno. Então não é de se admirar que tenham ficado “bravos” com a perspectiva carnavalesca de Jesus: eles não são capazes de ver Deus além dos óculos dogmáticos e doutrinários que foram ensinados.

Há alguns séculos atrás, a escravidão era tida como “normal” em meio à humanidade “civilizada e cristianizada”. Uma dessas bases de estrutura escravagista era a religião e a sagrada fé certa. Fundamentados em sua teologia punitiva e fatalista, os padres jesuítas entendiam como meio de salvação e purificação a escravidão e o sofrimento, principalmente em relação aos africanos (negros), pois esses tinham suas religiões próprias que eram demonizadas pelos cristãos escravagistas. Diziam que para os escravos, era um privilégio serem escravizados, pois essa seria a forma pela qual estariam livres da maldição e teriam suas almas salvas e libertas.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque toda forma de se rebelar contra um sistema que mata e oprime é vista como rebeldia e que de alguma forma sofrerá punição divina. Toda denúncia é vista como profanação do sagrado. Aos que defendem a ortodoxia (fé certa e pura), não percebem, mas Deus escolheu um lado. Deus escolheu o lado que morre, o lado que sofre, por isso não é uma blasfêmia colocá-lo como um jovem negro, baleado.

Não é blasfêmia cantar: “Favela pega a visão, não existe messias de arma na mão”.

Deus se manifesta em cada arte, cada grito, cada gesto de liberdade e denúncia profética em favor da vida e do direito de existir. Por que toda denúncia de extermínio do preto e pobre soam como heresia e profanação?

“Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.

Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.

Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.

Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.

Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.

Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus.

Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês”.

Mateus 5:3-11

 

Renato Ruiz Lopes | @renato ruiz Lopes

 

Imagem: jornalggn

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