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Carnaval ou palanque? Enredo sobre Lula na Sapucaí acirra debate político às vésperas da eleição

Personalidades marcantes da cultura brasileira vão dominar os enredos do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026. Nomes como Rita Lee, Ney Matogrosso, Heitor dos Prazeres, Rosa Magalhães e Ciça estão entre os homenageados por oito das 12 escolas que desfilarão na Sapucaí. Entre todos os temas anunciados, porém, o que mais chama atenção é o da estreante Acadêmicos de Niterói, que levará para a avenida a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A escola fará sua estreia no Grupo Especial abrindo os desfiles no domingo, 15 de fevereiro de 2026, com transmissão da TV Globo. A escolha do enredo ocorre a cerca de oito meses das eleições presidenciais, o que gerou debates. Para evitar infrações ao regulamento — que proíbe manifestações de cunho político-partidário —, a direção da escola orientou seus integrantes a não realizarem gestos associados a campanhas políticas durante o desfile.

Além do enredo, a própria história da Acadêmicos de Niterói chama atenção. Embora registrada como pessoa jurídica em março de 2018, a agremiação só passou a atuar efetivamente em setembro de 2022, após receber a vaga da Acadêmicos do Sossego na Série Ouro do carnaval carioca. Fundada em 1969, a Sossego desfilava no Rio desde 1996 e decidiu retornar aos desfiles em Niterói, cedendo seu lugar na competição à nova escola poucos meses após obter a sexta colocação no carnaval de 2022.

Com a transição, Hugo Júnior — então presidente da Sossego — assumiu o comando da Acadêmicos de Niterói para a estreia em 2023. O intérprete Danilo Cezar, que havia sido anunciado pela Sossego em 2022, também passou a integrar o novo projeto como cantor oficial.

No primeiro desfile no Rio, a escola apresentou o enredo “O Carnaval da Vitória”, que retratou o ano de 1946 e o retorno da festa popular após o fim da Segunda Guerra Mundial. Sob criação do carnavalesco André Rodrigues, a agremiação conquistou a quinta colocação entre 15 concorrentes.

Já em 2024, com o enredo “Catopês – um Céu de Fitas”, inspirado em uma tradicional manifestação cultural de Montes Claros (MG) e desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins, a escola terminou na oitava posição. Meses depois, Hugo Júnior deixou a presidência da Acadêmicos de Niterói para assumir a direção da LIGA-RJ, entidade responsável pela organização dos desfiles da Série Ouro do carnaval carioca.

Homem é preso em flagrante por estupro de vulnerável após mãe flagrá-lo em Avaré

Um homem foi preso em flagrante na tarde desta quinta-feira (29), em Avaré (SP), acusado do crime de estupro de vulnerável. A ação rápida da mãe das vítimas, que testemunhou a cena, e da Polícia Militar resultou na prisão do suspeito, vizinho da família. O bairro onde o caso ocorreu não foi divulgado pela polícia.

De acordo com as informações coletadas no boletim de ocorrência, a equipe policial foi acionada após a mãe relatar que suas duas filhas – uma criança de 5 anos e uma adolescente de 12 – brincavam no quintal de casa quando ela notou a presença de um homem em um imóvel vizinho.

Conforme o relato, o indivíduo estava com as calças abaixadas, praticando ato obsceno enquanto observava as meninas. A separação entre os terrenos é apenas uma cerca de arame, sem muro, o que facilitou a visão direta para o quintal.

A genitora, ao presenciar a situação, não hesitou e chamou imediatamente a polícia. Os militares deslocaram-se ao local e, após abordar o suspeito, ouviram sua versão. O homem negou a prática do ato obsceno, alegando estar apenas “observando as crianças”.

Diante da gravidade dos fatos e do relato consistente da mãe, os policiais procederam com a voz de prisão em flagrante. Todas as partes foram encaminhadas ao Plantão Policial.

No plantão, a autoridade presente analisou os detalhes da ocorrência e ratificou a prisão pelo crime de estupro de vulnerável, considerando a conduta descrita enquadrada na legislação.

O acusado permaneceu à disposição da Justiça e deverá passar por audiência de custódia, onde um juiz decidirá sobre a conversão da prisão em flagrante em preventiva ou a aplicação de outras medidas cautelares.

O caso segue sob investigação, e as duas vítimas, assim como a família, estão recebendo o acompanhamento necessário dos órgãos competentes, que avaliarão apoio psicossocial e demais encaminhamentos.

A polícia reforça a importância de que situações de violência ou abuso contra crianças e adolescentes sejam imediatamente comunicadas aos canais de denúncia, como o Disque 100 ou o 190, para que as providências legais sejam tomadas com urgência.

A Voz do Vale

Foto: Reprodução

Enxurrada mata homem em Piracicaba e eleva para 14 o número de mortes por chuvas em SP

 

Na noite de quinta-feira (29), um homem morreu em Piracicaba (SP) após ser arrastado por uma forte enxurrada durante um temporal que atingiu a cidade. O acidente ocorreu na Avenida 31 de Março, no bairro Santa Mônica, quando a vítima, que conduzia uma motocicleta, foi surpreendida pela força da água e levada até um córrego. Equipes de resgate foram acionadas, mas o óbito foi confirmado no local pelo Samu.

Com o caso, sobe para 14 o número de mortes registradas no estado de São Paulo em decorrência das chuvas desde dezembro, de acordo com informações da Defesa Civil. Parte das ocorrências está relacionada a enxurradas provocadas por temporais intensos.

A chuva causou alagamentos em diversos bairros de Piracicaba, incluindo regiões centrais e áreas residenciais, além de danos na infraestrutura urbana. Em alguns pontos, o volume de água chegou a arrancar trechos do asfalto e comprometer o trânsito.

A Defesa Civil mantém o alerta para a população durante o período de chuvas, reforçando a orientação para que motoristas e pedestres evitem áreas alagadas e redobrem a atenção em momentos de instabilidade climática.

Instabilidade persiste até sexta e chuva deve se intensificar no fim de semana em Botucatu

A previsão do tempo indica que o clima instável continuará predominando em Botucatu ao longo desta semana. Segundo dados do do Climatempo, esta quarta-feira (28) terá ocorrência de pancadas rápidas de chuva durante a tarde e também à noite, com volume estimado em até 10 milímetros.

A mesma condição deve se manter na quinta-feira (29) e na sexta-feira (30), com períodos de abertura de sol intercalados por chuvas passageiras.

Para o fim de semana, os modelos meteorológicos apontam aumento significativo no volume de chuva, com possibilidade de temporais mais intensos e leve queda nas temperaturas em relação aos dias anteriores.

A orientação é que a população redobre a atenção, especialmente em atividades ao ar livre e deslocamentos, diante do risco de chuva mais forte nos próximos dias.

PF prende em Bauru suspeito de planejar atentado terrorista e ligação com o Estado Islâmico

A Polícia Federal prendeu, na manhã desta quinta-feira (29), em Bauru (SP), um brasileiro suspeito de planejar atos terroristas em território nacional e de manter vínculos com o grupo extremista Estado Islâmico. A identidade do investigado não foi divulgada pelas autoridades.

De acordo com as investigações, o suspeito já teria iniciado a montagem de um colete explosivo com a intenção de realizar um atentado suicida. Durante a ação, os agentes localizaram ainda diversos materiais que seriam utilizados na fabricação de artefatos explosivos.

A operação resultou no cumprimento de mandados de prisão temporária, busca pessoal e domiciliar, além de autorizações judiciais para acesso a dados eletrônicos e quebra de sigilo telemático. As apurações contaram com a cooperação do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos.

Botucatu está entre os municípios denunciados por descumprimento do Piso do Magistério em SP

O Coletivo Educação em 1º Lugar intensificou as denúncias contra gestores públicos que não cumprem a Lei do Piso Nacional do Magistério. A mobilização ganhou força após a deputada federal Professora Luciene e o deputado estadual Carlos Giannazi acionarem o Ministério Público, apontando ao menos 30 municípios do estado de São Paulo que estariam pagando salários abaixo do valor estabelecido em lei aos professores da rede pública. Entre as cidades denunciadas no mês de janeiro está o município de Botucatu.

As informações têm como base dados do Observatório do Piso do Magistério, iniciativa criada pelo próprio Coletivo para monitorar o cumprimento da legislação em todo o país. Segundo o levantamento, já foram registradas denúncias envolvendo quase 1.000 municípios brasileiros, evidenciando um problema recorrente e de alcance nacional. Para o Coletivo, o descumprimento do piso representa não apenas uma irregularidade administrativa, mas também um desrespeito à valorização dos profissionais da educação.

No âmbito legislativo, avança na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 961/23, de autoria da deputada Professora Luciene, que propõe tornar crime de improbidade administrativa o não pagamento do piso salarial do magistério. A proposta está em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), última etapa antes de seguir para apreciação no Senado Federal. Caso seja aprovado, o projeto poderá endurecer as sanções contra gestores que descumprem a lei, reforçando a luta pela valorização dos professores em todo o país.

Contrato do PSA levanta dúvidas sobre valores, execução e risco assistencial à vida dos pacientes

Diferença milionária entre valor do pregão e contrato assinado, somada a denúncias de médicos, acende alerta sobre a gestão do serviço.

O contrato firmado entre a Prefeitura de Botucatu e a empresa PROMEDSP, responsável pela gestão médica do Pronto-Socorro Adulto, tem gerado questionamentos relevantes sobre a legalidade, a execução do serviço e a segurança do atendimento à população.

O acordo prevê o pagamento de R$ 7.319.988,00 pelo período inicial de 12 meses, com possibilidade de prorrogação por até 10 anos.

No entanto, o Pregão nº 092/2025, que originou a contratação, estimava um custo total de R$ 12.790.008,00, valor R$ 5,47 milhões superior ao contrato efetivamente firmado.

Especialistas em direito administrativo apontam que diferenças dessa magnitude exigem análise rigorosa de exequibilidade, conforme determina a Lei nº 14.133/2021, sob risco de comprometimento da qualidade do serviço contratado.

Denúncias indicam precarização após início do contrato

Desde que a PROMEDSP assumiu a gestão do Pronto-Socorro Adulto, médicos que atuam na unidade relatam uma série de problemas operacionais.

Entre eles, a redução do valor dos plantões, que teriam passado de R$ 1.700,00 para R$ 1.300,00, o que, segundo os profissionais, provocou saída de médicos experientes e aumento da rotatividade.

Outro ponto relatado é a exigência informal de atendimento de até oito pacientes por hora, ritmo considerado incompatível com a medicina de urgência e emergência, especialmente em casos clínicos complexos.

Escalas médicas abaixo do necessário

As denúncias também envolvem o dimensionamento das equipes, que estaria abaixo do previsto no Termo de Referência do contrato.

De acordo com os médicos:
Durante o dia, o Pronto-Socorro conta com:

  • 3 médicos na clínica médica;
  • 1 médico na sala de emergência;
  • 1 ortopedista;
  • 1 médico na sala de observação.

No período noturno e finais de semana:

  • não há médico exclusivo na sala de observação;
  • o atendimento ortopédico ocorre apenas até 0h.

Profissionais alertam que a ausência de médico na sala de observação durante a noite representa risco assistencial significativo, especialmente em um serviço de referência para urgência e emergência.

Médicos “em teste” e sem remuneração

Outro ponto considerado grave nas denúncias é a suposta prática de escalar médicos, inclusive recém-formados, para atuar em finais de semana e feriados sob a justificativa de estarem “em teste” ou “conhecendo o serviço”.

Segundo os relatos, esses profissionais estariam atendendo pacientes, inclusive casos graves, sem remuneração e sem supervisão adequada.

Caso confirmada, a prática pode configurar irregularidade na execução contratual, infração ética e risco à segurança dos pacientes.

Diferença de valores levanta suspeita de inexequibilidade

A expressiva diferença entre o valor estimado no pregão e o contrato assinado levanta questionamentos sobre como a empresa conseguiu executar o serviço por um custo tão inferior ao previsto pela própria administração municipal.

Especialistas explicam que, pela legislação vigente, a Prefeitura tem a obrigação de analisar se o preço contratado é compatível com os custos reais do serviço, incluindo remuneração adequada dos profissionais e manutenção de equipes suficientes.

A combinação entre valor reduzido, contrato de longa duração e denúncias de precarização pode indicar falhas no processo de contratação ou na fiscalização da execução do contrato.

Possível impacto estrutural na saúde pública

Outro ponto que chama atenção é a possibilidade de prorrogação do contrato por até 10 anos, o que, na prática, pode representar a terceirização prolongada de um serviço essencial, sem debate legislativo aprofundado ou participação efetiva da sociedade.

Juristas avaliam que contratos desse porte e duração exigem controle rigoroso, sob pena de comprometimento do direito constitucional à saúde e dos princípios da legalidade, moralidade administrativa e eficiência.

Providências que podem ser adotadas

Diante dos indícios, o caso pode ser objeto de:

  1. Representações ao Ministério Público;
  2. Análises pelo Tribunal de Contas;
  3. Apuração pelo Conselho Regional de Medicina;
  4. Ações judiciais, como Ação Popular ou Ação Civil Pública.

A reportagem procurou a Prefeitura de Botucatu e a empresa PROMEDSP para esclarecimentos, mas até o fechamento desta edição não houve manifestação. O espaço segue aberto para posicionamento.

📌 O Alpha Notícias seguirá acompanhando o caso e eventuais desdobramentos envolvendo a gestão do Pronto-Socorro Adulto de Botucatu.

Quando a economia aparece apenas no papel, mas o custo real recai sobre médicos exaustos e pacientes vulneráveis, a pergunta que fica é simples e urgente: quem está pagando essa conta?

📌Se você ou algum familiar sentiu que houve alguma falha no atendimento do PSA, entre em contato com a nossa equipe de jornalismo pelo WhatsApp (14) 99695-5853.

Uso de fungicidas agrícolas compromete tratamentos contra infecções graves em humanos

O fungo Aspergillus fumigatus, causador de uma doença chamada aspergilose invasiva, está evoluindo resistência aos poucos medicamentos capazes de detê-lo. Há apenas quatro classes de medicamentos antifúngicos no mercado, um número insuficiente diante da dimensão do problema — e a evolução de uma blindagem contra esse pequeno leque de terapias pode ter consequências graves para a saúde pública mundial nos próximos anos.

A preocupação com o tema motivou o Documento de Botucatu, uma moção pública de alerta aprovada em dezembro de 2025 durante um encontro entre 51 especialistas, 21 deles estrangeiros, na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp, em Botucatu (SP). Um dos líderes dessa iniciativa é o engenheiro agrônomo Paulo Ceresini, especialista em fitopatologia da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira (SP).

O texto reúne recomendações para enfrentar a resistência antifúngica no Brasil e no mundo a partir de um conceito conhecido como One Health (“Uma Só Saúde”), que considera o bem-estar humano como inseparável da preservação ambiental e da qualidade de vida das demais espécies que compartilham a biosfera conosco.

O artigo científico que embasa o Documento de Botucatu, assinado por Ceresini como primeiro autor e recém-publicado no periódico especializado One Health, explica que o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de fungicidas agrícolas, especialmente da classe dos triazóis. Esses compostos foram amplamente utilizados nas lavouras nas últimas três décadas e também constituem a base do tratamento médico contra infecções fúngicas graves.

A exposição constante deste fungo aos triazóis funciona como uma pressão seletiva darwiniana, que elimina os indivíduos suscetíveis ao fungicida. Apenas as linhagens que já nascem naturalmente resistentes a esses compostos, por causa de mutações fortuitas no genoma, são capazes de sobreviver e se reproduzir. Esse gargalo tem justamente o efeito de selecionar e ampliar a população dessas linhagens blindadas a medicamentos antes eficazes.

Fora do ambiente agrícola, o Aspergillus fumigatus aparece em escala macroscópica como uma mancha verde-acinzentada de textura aveludada, que se adapta bem a ambientes secos de maneira incomum para os fungos — o que explica sua capacidade de se instalar em lugares inóspitos como dutos de ar-condicionado. Seus esporos, pequenos e ressequidos, são facilmente aerossolizados, o que o torna um contaminante comum em ambientes fechados de escritórios, por exemplo. Na natureza, porém, ele pode ser encontrado em habitats mais usuais, como matéria orgânica em decomposição.

Em geral, o A. fumigatus é inofensivo. Todos nós inalamos alguns esporos diariamente e os eliminamos sem maiores problemas. Mas em pacientes imunossuprimidos ou com outras comorbidades — como recém-transplantados, pessoas com leucemia e pacientes de covid-19 — a aspergilose pode ser grave e, frequentemente, fatal. Calcula-se que a espécie cause 600 mil mortes todos os anos no mundo; número que tende a piorar se pessoas saudáveis começarem a sucumbir às variantes resistentes.

Segundo dados apresentados durante o encontro, a aspergilose ganhou força no Brasil nos últimos anos — foram cerca de 200 vítimas fatais em 2022 versus 800 em 2024 —, o que acompanha uma tendência observada internacionalmente. O uso de triazóis na agricultura brasileira também subiu de 20 mil toneladas anuais para 160 mil toneladas desde a introdução dessa classe de fungicidas no começo dos anos 2000. “A correlação não prova causalidade, obviamente, mas ela é um sinal de alerta importante”, resume Ceresini.

Colônia de Aspergillus fumigatus observada com microsópio (Crédito: Jankaan/Creative Commons)

Documento propõe políticas públicas para lidar com o problema

O texto aprovado no encontro traz um consenso científico inédito em torno do tema. Ele recomenda que os dados sobre resistência antifúngica sejam coletados de forma auditável e divulgados com acesso aberto à sociedade, e que se crie um sistema nacional de monitoramento para acompanhar a presença de fungos resistentes no ar e no solo. “Não existe um sistema assim nem no Brasil nem fora, o documento é um marco”, diz Ceresini.

Além disso, o documento propõe que as agências reguladores exijam avaliações de risco mais rigorosas antes de aprovar produtos agrícolas capazes de estimular resistência a medicamentos humanos; que se amplie a capacidade dos hospitais de detectar infecções fúngicas e sua resistência e que se realize campanhas educativas voltadas a agricultores, profissionais de saúde, estudantes e ao público em geral.

Os Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e da Agricultura e Pecuária estão preparando a nova edição de seu Plano Nacional de Enfrentamento da Resistência Antimicrobiana (PANBR), que deverá orientar políticas públicas sobre o tema ao longo do próximo quinquênio. Os especialistas que se encontraram em Botucatu defendem que a resistência antifúngica, historicamente negligenciada, passe a ser abordada com clareza nesta próxima edição do documento.

O Documento de Botucatu é publicado no âmbito do Failsafe, uma parceria internacional para enfrentar a resistência a antifúngicos financiada pela principal agência de fomento à pesquisa do governo britânico, a UK Research and Innovation (UKRI). Um dos objetivos da iniciativa é capacitar pesquisadores em países de baixa e média renda para lidar com o tema.

O Conselho de Pesquisa Médica do UKRI escolheu Ceresini para encabeçar a perna brasileira do projeto justamente por sua experiência como engenheiro agrônomo e fitopatologista, que o qualifica para liderar os esforços de coleta e análise de material em campo e fazer um mapa da ocorrência de linhagens resistentes no estado de São Paulo. O projeto foi aprovado em 3 meses e forneceu verba de £ 250 mil, com que foi possível contratar três pós-doutorandos, dois doutorandos, dois mestrandos e uma aluna de iniciação científica para trabalhar sob a batuta do docente de Ilha Solteira.

A equipe contou com a participação ativa de docentes da Unesp nos câmpus de Dracena (Ana Firmino e Paulo Lopes), de Ilha Solteira (Karine Costa, Rita Peruquetti e Bárbara Christofaro Silva), de Jaboticabal (Everlon Rigobelo e Fábio Mingotte), de Botucatu (Edson Furtado), e do câmpus Lagoa do Sinoi da Ufscar (Waldir Cintra e Danilo Stipp), além de parcerias agrícolas relevantes para a amostragem no estado de São Paulo.

Essa equipe passou um ano fazendo coletas em diversas partes do estado de São Paulo — porém, o Jornal da Unesp não teve acesso aos resultados, que ainda não foram publicados em um paper. “Estamos em uma fase de geração final de dados, de sequenciamento do DNA das linhagens desse fungo, que dura até fevereiro”, explica Ceresini. O trabalho ocorreu em correspondência com pesquisadores das Universidades de Manchester e da Geórgia, que fizeram coletas parecidas no Reino Unido e nos EUA.

“Dediquei os últimos vinte anos ao estudo da resistência a antifúngicos na agricultura, nunca me voltei a patógenos humanos”, conta Ceresini. “Porém, era essa intersecção que os parceiros buscavam: alguém com conhecimento agronômico para fazer a amostragem no campo e determinar o que está acontecendo.”

O protagonismo inesperado de um agrônomo em uma pesquisa de saúde pública é, por si só, uma demonstração da força da abordagem One Health. Para lidar com desafios do futuro — que incluem também a resistência de bactérias a antibióticos e a provável piora de doenças transmitidas por mosquitos — as pesquisas na área da saúde pública precisarão enxergar o ser humano cada vez mais como um ator em uma complexa rede de interações com outros seres vivos e com o clima terrestre. Não temos escolha: estamos na Terra juntos, e é impossível conviver bem com nossa vizinhança biológica sem compreendê-la.

Fonte: jornal.unesp.br