Coluna Professor Nelson

Texto elaborado pelo Prof. Nelson Letras sobre o tema de redação do Enem

Com uma abstenção de mais de 50%, foi realizada a primeira prova do Enem, no último domingo, 17.01. Além da resolução das 90 questões de múltipla escolha, os candidatos tiveram de desenvolver uma dissertação argumentativa sobre o tema “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”.

A seguir confira um texto produzido pelo professor Nelson, da Escola de Redação Nelson Letras, sobre o tema deste ano. O prof. Nelson chama o candidato à atenção de que o tema não é simplesmente sobre doenças mentais, mas sim sobre o “estigma” associado a doenças mentais. Lembrando que, para a redação do Enem, não é necessário que o texto possua título.

O indivíduo com algum tipo de transtorno mental compõe uma sociedade que não o integrou. A exclusão social dessas pessoas busca esconder uma característica que é do próprio cidadão excludente, pois distúrbios mentais são manifestações de uma instância que todos os seres humanos possuem; “o consciente é – lembrando Sigmund Freud – apenas a ponta do iceberg, toda a parte abaixo do nível do mar é o inconsciente”, o qual precisa ser estudado para uma melhor compreensão da psiquê e suas idiossincrasias.  Com medo da realidade, o homem criou uma imagem sobre doenças mentais, de não aceitá-las como algo próprio do ser humano, de entendê-las como algo repulsivo, característica de seres imperfeitos, incapazes; trata-se de uma não-aceitação do próprio ser e de uma incoerente visão eugênica.

Uma boa ferramenta para se refletir sobre essa situação-problema é a Sétima Arte. Um dos filmes mais vistos no ano de 2019 foi a adaptação cinematográfica do personagem de HQ Coringa. O filme trouxe a discussão sobre como a sociedade, em vez de auxiliar aqueles que possuem transtornos mentais, age da maneira oposta, maltratando-os, anulando suas vidas – “a pior parte de ter uma doença mental é que a gente espera que você aja como se não a tivesse”. Essa aversão pelo distúrbio mental e por aqueles que o possuem causando-lhes a dor do existir, tem origem, em grande parte, no século XVII, nos “Hospitais gerais” e nas “Casas de internação” europeus em que os denominados loucos eram internados, muitas vezes, compulsoriamente, não para tratamento, mas sim para serem retirados da sociedade – em A história da loucura, o filósofo francês Michel Foucault analisa essa exclusão dos doentes mentais e a visão social de que estes parece não serem considerados seres humanos.

Em grande parte, a mente é um produto social, a qual capta todos os estímulos, assimilando experiências, emoções, produzindo o que é o indivíduo. Se a sociedade cria, por exemplo, a ideia de que a pressão sobre jovens que farão a prova do Enem é algo que todos têm a capacidade de enfrentar sem transtornos mentais como a ansiedade patológica, o próprio jovem não aceita a condição de acometimento de uma situação em que precisa de ajuda para sua saúde mental; ele não aceita a sua realidade de transtorno mental e, por medo de encará-la, pode ter problemas mais graves como a depressão. Já no século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche criticava a supervalorização da razão em detrimento da emoção, alertando que o homem não deve negar seu ser, mas sim vivê-lo como ele é.

Ter saúde mental é ter consciência de que a mente é complexa e de que doenças mentais não devem ser estigmatizadas, não devem ser compreendidas diferentemente, por exemplo, de doenças respiratórias ou cardiovasculares, a fim de que a procura por tratamentos psicológicos não seja rotulada de maneira depreciativa. Assim, é mister que o homem tenha acesso ao conhecimento que lhe permita não só uma autocompreensão mental, mas também anular a marca negativa, o preconceito, sobre distúrbios mentais. No Brasil, esse conhecimento deve ser orientado pelo MEC para ser abordado nas escolas, nas ciências como pela psicologia com pensadores como Freud, ou pela filosofia com intelectuais como Foucault e Nietzsche. O investimento governamental para esclarecimento sobre o assunto é imprescindível nas artes pelo apoio a produções cinematográficas, romances, peças teatrais, produções musicais etc. que abordem o conteúdo; e campanhas pelas mídias (inclusive digitais) como a “Janeiro Branco”, levando à sociedade a compreensão de que consciente e inconsciente compõem o mesmo ser.

 

 

 

ESCOLA DE REDAÇÃO NELSON LETRAS – MATRÍCULAS ABERTAS 2021

– AULAS INDIVIDUAIS OU EM GRUPO

– RELAÇÕES INTERDISCIPLINARES

– AULAS REFLEXIVAS SOBRE TEMAS ATUAIS

RUA CORONEL FONSECA, 408, CENTRO, BOTUCATU. INFORMAÇÕES PELO WHATSAPP (14) 98171 44 84

Que tal treinar seu texto para a redação do ENEM?

O próximo domingo (17.01) será o primeiro dia de provas do Enem, Exame Nacional do Ensino Médio. Mais de cinco milhões de estudantes farão as provas de linguagens, códigos e suas tecnologias, redação e ciências humanas e suas tecnologias. “Bora” se preparar para a redação, analisando um texto produzido pelo professor Nelson Letras sobre o tema do ano passado “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”!

O filósofo pré-socrático Heráclito, em suas reflexões sobre a substância primordial existente em todos os seres materiais, a arché, chegou à conclusão de que a realidade é dinâmica, de que nada persiste nem permanece o mesmo. O pensamento do grego Heráclito já possui dois mil e quinhentos anos, porém muitos indivíduos, em alguns casos, ainda não enxergam a realidade dessa maneira. Em 1990, dois anos após sua produção, Cinema Paradiso recebeu o Oscar de melhor filme em língua não inglesa. A produção italiana tem como cenário o auge e o declínio das salas de cinema. A película remete à realidade em que o número dessas salas diminuiu consideravelmente nas décadas de 1980 e 1990. Todavia o cinema não está deixando de existir, ele está se transformando, e não compreender essa mudança é uma visão reducionista sobre a democratização da Sétima Arte, da manifestação da essência do ser humano por meio da sucessão de imagens em movimento que contam uma história.

“Vivemos em tempos líquidos, nada é feito para durar”. Em seus estudos sobre a modernidade líquida, o filósofo polonês Zygmunt Bauman analisou a superficialidade nas relações entre os homens, entre o homem e o mundo. Um dos principais responsáveis por essa liquidez é a revolução comunicacional, que auxiliou a democratização do cinema. Embora as salas de cinema estejam tentando se adaptar aos novos tempos, por meio, por exemplo, da exibição de filmes com efeitos especiais na produção de histórias fantásticas envolvendo super-heróis, ou do uso de tecnologias 3D, ou até mesmo do conforto, a procura por elas é muito menor que nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Entretanto o cinema não está apenas nas “salas”, mas também nos aparelhos de tevê, nos computadores, nos celulares. O uso de satélites, de cabos e, principalmente, a internet ampliaram o número de pessoas não só que assistem às produções – sem se restringir apenas àquelas exibidas nas salas de cinema -, como também que participam da elaboração de filmes, haja vista que, muitos podem realizar produções visuais caseiras e divulgá-las pela rede.

A Sétima Arte está em transformação. Devido à Terceira Revolução Industrial, ela está mais democrática. O indivíduo não está mais restrito apenas aos filmes exibidos nas salas de cinema. Estas ainda são muito importantes, portanto é necessário que o governo federal, em parceria com os municípios, crie, sem a cobrança de ingressos, cinemas em áreas mais pobres, pois este é um público que está restrito a pouco lazer, e valorizaria esse entretenimento. Contudo os filmes exibidos nestas devem conter os mais variados pontos de vista, desde produções como Bacurau e Marighella até O Patriota de Mel Gibson. Cinema é arte, e arte não é apenas “a mimese da realidade” como afirmou o filósofo Aristóteles; arte também é entretenimento, é reflexão, é uma maneira de ver o mundo sob perspectivas diferentes. Logo o cinema deve ser mais valorizado por Estado e sociedade. Deve haver investimento estatal no acesso do espectador e também nas produções e divulgação de filmes nacionais. Instituições como as escolas precisam se aproveitar mais dessa ferramenta, pois os filmes tornam o conhecimento mais aprazível. Cinema é movimento, e, para acompanhá-lo, é necessário estar em harmonia com sua velocidade.

 

#EuCuidoDaCultura

Formada por visões diferentes de mundo, cultura é algo plural, não se trata de algo homogêneo. Ela é tudo aquilo que resulta da criação humana, desde valores, tradições de uma determinada comunidade até o trabalho artístico que requeira mais vocação e dedicação. Desde a cultura popular, do funk até a cultura mais metafórica, mais artística, de Chico Buarque, toda cultura possui valor, sua importância. Nossa cidade Botucatu desfruta desde o grafite de algumas praças até as exposições mais famosas que acontecem na Pinacoteca Fórum da Artes.

Nesses difíceis tempos de confinamento, ficamos restritos a como nos encantar e sentir a voz dos movimentos culturais. Mas somos criativos, somos arte, somos cultura! E nos organizamos com lives pelas redes sociais, com exibições de nossa orquestra sinfônica pelo Youtube etc.

E para dizer “Nós estamos aqui, vamos cuidar da cultura!”, artistas de nossa cidade gravaram um videoclipe e iniciaram o movimento #EuCuidoDaCultura… De suas casas, de seus quintais, representantes de nossa cultura cantam “A arte de rua/ Da noite/ Do dia/ Da praça do bosque/ Da periferia/ Veja bem/ Somos vozes/ Da mesma ruptura/ (…) Somos parte da mesma mistura/ Eu cuido/ Você cuida/ Da cultura”.

 

 

Siga o movimento #EuCuidoDaCultura pelo Facebook e Instagram, compartilhe e assista ao videoclipe pelo link

 

https://www.youtube.com/watch?v=DlR_jD4Q1Rs&lc=UgzJ0iKjYVBKA5EmXox4AaABAg.98SAPeWuXpR98T2L5tJv19

Botucatu possui uma Escola de Redação

A região de Botucatu conta com uma escola especializada em redação para os principais vestibulares do país. Há mais de 15 anos trabalhando na área, o professor Nelson Letras desenvolveu um curso com aulas reflexivas, análise de temas atuais e relações interdisciplinares para que o candidato elabore um texto com identidade, personalidade e que siga a estrutura e estilo dos gêneros textuais exigidos nos vestibulares.

Provas como as da Unicamp, UEM e UEL exigem a produção de qualquer gênero textual, como, por exemplo, uma crônica, uma carta de leitor, uma resposta argumentativa, uma síntese, um artigo; já as provas do Enem, da Unesp e da USP requerem do candidato a dissertação argumentativa.

As aulas de redação do professor Nelson são em grupos de até 6 alunos, mas podem ser individualmente também.

No caso dos grupos, a primeira parte da aula ocorre com a parte teórica sobre redação, por exemplo, por meio da análise de textos com nota máxima produzidos por alunos em vestibulares ou por textos produzidos pelo próprio professor Nelson. Na segunda parte da aula, é feita uma reflexão sobre um tema atual. O aluno faz a redação em casa e, na outra aula, o professor corrige o texto com o aluno, preocupando-se com o desenvolvimento do tema, do gênero textual, com a coerência, coesão, a capacidade de o texto comunicar por meio da Norma Culta. É importante que o aluno faça um texto que tenha uma identidade própria.

As matrículas para o curso de redação já estão abertas. Interessados devem entrar em contato pelo telefone (WhatsApp) 14 – 98171 44 84.

E a Escola de Redação Nelson Letras também possui professores especializados para aulas particulares de outras disciplinas: matemática, física, química, biologia, gramática e inglês.

O endereço da escola é Rua Coronel Fonseca, 408, na região central de Botucatu, próximo à Escola Industrial.

Professor Nelson Letras elabora texto sobre o tema da redação Fuvest 2020 “O papel da ciência no mundo contemporâneo”.

A Modernidade Líquida e o paradoxo científico

 

Na Grécia Antiga, os sofistas relativizavam a verdade; para eles “o mundo é aquilo que cada um consegue perceber que é”. Quase dois mil anos depois, René Descartes, o pai do racionalismo moderno, atribuiu exclusiva confiança à razão humana como instrumento capaz de conhecer a verdade, indo de encontro às ideias empiristas as quais acreditavam no conhecimento por meio dos sentidos. No mundo ocidental, a ciência, o conhecimento por meio da razão, surgiu com os filósofos gregos pré-socráticos na investigação da natureza, physis, e na busca da origem de tudo que existe, a arché. Mas a ciência não existe apenas para compreender o mundo, ela também objetiva o progresso, o desenvolvimento para que o homem viva melhor. Todavia, observa-se que a ciência contemporânea tem retomado a perspectiva dos sofistas, tem sido utilizada para negar a própria ciência e para prejudicar o bem-estar da humanidade.

Produto do progresso científico-tecnológico, a pós-verdade cria uma imagem no consciente coletivo para o qual a verdade não tem mais importância. O exemplo dos governantes brasileiros que criticam a produção científica influenciando a sociedade a desacreditar na ciência cria uma imagem contrária à essência do conhecimento científico. A crença em mitos parece renascer no terceiro milênio como explicação da realidade.  O narcisismo é alimentado pela valorização de crenças que vão ao encontro de ideologias do indivíduo, de maneira que este se considera profundo conhecedor sobre assuntos os quais não estudou. E assim surgem seguidores de pseudofilósofos e defensores de falsas teorias como a dos terraplanistas ou as que fundamentam o movimento antivacina.

A ciência, por meio do progresso tecnológico, também prejudica a flora, a fauna, o próprio ser humano. Tragédias como as da mineradora Vale em Brumadinho são resultado do mau uso da ciência. O conhecimento científico é utilizado para o enriquecimento de poucos em detrimento da maioria e do planeta. Mudanças climáticas, provocadas pela ação humana sobre a natureza, causam destruições como os incêndios florestais na Austrália. No Brasil, país recordista em uso de agrotóxicos, mais de quinhentos pesticidas estão liberados; no início do ano, 2019, foram encontradas mais de meio bilhão de abelhas mortas devido ao envenenamento. Um exemplo bem recente do uso tecnológico para fins bélicos foi a ação norte-americana de mísseis atirados por drones e que atingiram o aeroporto de Bagdá matando o segundo maior nome do Irã, criando situações para novas guerras e mortes.

O papel da ciência contemporânea é lutar contra seu mau uso. Vive-se uma situação problema contrária ao início da filosofia ocidental, pois as respostas passam a ser atribuídas às crenças, aos mitos e não às reflexões argumentadas e demonstradas. Envolvidos pelas fake-news obtidas pelos sentidos, que buscam desacreditar a ciência, como, por exemplo, as do movimento antivacina, muitos se afastam da realidade e passam a viver sob uma imagem criada para satisfazerem suas crenças, seu ego, suas ideologias. O afastamento da racionalidade também impede o homem de lutar contra aqueles que utilizam o progresso científico o qual está destruindo o planeta, haja vista as infundadas críticas a ativistas ambientais como a jovem sueca Greta Thunberg e os “memes” criados nas redes sociais sobre assuntos como uma terceira guerra mundial, que pode levar a humanidade ao caos. A máxima socrática “sei que nada sei” é fundamental nesses tempos em que a internet deu voz aos ignorantes.

Professor Nelson

Professor Nelson Letras elabora texto sobre o tema da redação Unesp 2020 “O carro será o novo cigarro?”

“Venha para onde está o sabor, venha para o mundo de Marlboro” – a marcante frase do comercial de cigarro produzido na década de 1980 é um bom representante para a glamourização do cigarro como símbolo de liberdade e prazer. Observa-se que semelhante influência sobre objetos de desejo ainda existe hoje, mas, dentre outros produtos, sobre automóveis. Metonímia para vício, o cigarro pode ser comparado a carros, pois – pela Indústria Cultural, objeto de estudo dos filósofos da Escola de Frankfurt Theodor Adorno e Max Horkheimer – é criada uma idolatria sobre esses veículos motorizados cujas consequências também possuem semelhanças às do cigarro.

O vocábulo idolatria, adoração a ídolos, a algo irreal, origina a concepção de fetichismo estudada pelo filósofo alemão Karl Marx. De acordo com este, por uma ideologia imposta pelo sistema, a sociedade atribui valores inexistentes a objetos de desejo. Assim como o cigarro era visto como uma concepção de liberdade e prazer, e não como um causador de doenças respiratórias e cancerígenas, o automóvel deixa de ser um veículo de transporte emissor de gás carbônico e passa a significar liberdade e felicidade. Todavia, mais que estes valores semânticos, o carro também é símbolo de status, de ostentação, de poder, de superioridade, até de masculinidade, transformando-se em um camarote separador de classes sociais e gerador de preconceitos.

Em meio à crise ambiental, surgem algumas jovens vozes na tentativa de alertar a sociedade sobre a necessidade de mudarmos nosso modo de viver. Uma dessas vozes é a ativista sueca Greta Thunberg, indicada ao Prêmio Nobel da Paz 2019, e considerada pela revista Time como a personalidade do ano. Mas muitos estão surdos perante esses gritos de alerta, haja vista as recentes ações governamentais brasileiras que incentivam o uso de automóveis: não obrigatoriedade de cadeirinhas para crianças, suspensão de radares móveis, extinção do seguro DPVAT. Tais atitudes auxiliam as consequências causadas pela indústria do petróleo: sedentarismo, estresse em trânsito, discussões, brigas, acidentes, poluição, guerras, mudanças climáticas.

O cigarro perdeu seu glamour, não é mais sinônimo de liberdade e prazer. Porém essa mudança semântica se deve muito mais a uma cultura individualista – pois o cigarro é um causador de males, principalmente, àquele que fuma – do que a uma ação altruísta. Assim, dificilmente o mesmo ocorrerá com o automóvel, pois seus males estão naturalizados como agressores do outro e não do eu. A naturalização também está presente no desejo de consumo por bens desnecessários – lembrando a filosofia epicurista -, ela não permite que o indivíduo visualize a idolatria que gera preconceito social. Acreditar que o carro será o novo cigarro parece mais uma utopia, já que, enquanto a juventude defensora do meio ambiente for chamada de pirralha por aqueles que estão no poder, o automóvel continuará sendo o cigarro do passado e não o do presente.

Professor Nelson Letras

 

Redação Unesp Vestibular 2020

No próximo dia 16/12, os candidatos convocados para a segunda fase do vestibular da Unesp, realizarão a prova de Linguagens e Códigos e a Redação.

Você que realizará a prova, treine seu texto analisando o tema pedido pelo vestibular no ano passado e um texto/exemplo produzido pelo professor Nelson Letras. Lembrando que, na correção do texto, o título não é considerado pela Vunesp.

 

TEMA REDAÇÃO – UNESP 2019

 

COLETÂNEA

 

Texto 4

Nós somos consumidores agora, consumidores em primeiro lugar e acima de tudo. Para todas as dificuldades com que nos deparamos no caminho trilhado para nos afastar dos problemas e nos aproximar da satisfação, nós buscamos as soluções nas lojas. Do berço ao túmulo, somos educados e treinados a tratar as lojas como farmácias repletas de remédios para curar ou pelo menos mitigar todas as doenças e aflições de nossas vidas particulares e de nossas vidas em comum. Comprar por impulso e se livrar de bens que já não são atraentes, substituindo-os por outros mais vistosos, são nossas emoções mais estimulantes. Completude de consumidor significa completude na vida. (Zygmunt Bauman. A riqueza de poucos beneficia todos nós?, 2015. Adaptado.)

 

Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma dissertação, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema: Compro, logo existo?

 

(Texto/exemplo – Professor Nelson Letras)

 

Consumismo na pós-modernidade, a perda do livre-arbítrio

 

Marcado pela superficialidade nas relações, pelo fetichismo a mercadorias, status e beleza, o mundo pós-moderno vai de encontro ao Esclarecimento “Aufklärung” defendido pelo filósofo Immanuel Kant no século XVIII. A valorização do modo de viver cuja existência depende de uma compreensão externa ao indivíduo – lembrando o empirismo berkeliano “ser é perceber e ser percebido” – em detrimento da razão como forma de conhecimento da verdade, conduz o ser humano que possui capacidade de consumo a uma alienação de sua substância, seu elemento essencial “a razão, a capacidade de escolha”; e aquele sem poder aquisitivo a um condicionamento de não-existência.

Embora a ação de comprar a variedade de mercadorias, fruto do Capitalismo, possa trazer satisfação aos consumidores, estes alegram-se ao adquirir produtos pagando não seu valor real, mas sim, um valor que lhe é externo; pagam por uma idolatria induzida pelo Mercado com suas propagandas persuasivas e manipuladoras. Dessa maneira, o indivíduo, alienado à compreensão do produto comprado, age não por si, mas sim por uma obediência a outros, ficando na Menoridade criticada pelo filósofo alemão Kant no estudo iluminista.

A teoria marxista afirma o homem ser, por natureza, um animal social. Para ser valorizado socialmente, ser notado, o indivíduo abandona sua essência de cidadão, de sujeito que age sobre a sociedade, passando a ser um objeto, um paciente, o qual possui existência social apenas se comprar, se tiver uma aparência física e um modo de vida que sigam o modelo social imposto – como um Fato Social – pela industrial cultural do século XXI. Aqueles sem poder aquisitivo para esses padrões são excluídos, tornando-se párias sociais, e também sentem-se não pertencentes à sociedade, afastando-se de sua natureza, conforme a teoria de Karl Marx.

Tanto os consumidores como os párias sociais são personagens sob um consciente coletivo os quais veem a realidade apenas sob a óptica do sistema, os quais não pensam por si, estão distantes do Esclarecimento kantiano, os quais se tornaram também produtos do Mercado. A sociedade pós-moderna alicerçada no consumismo afasta cada vez mais o ser humano daquilo que o faz ser humano: a capacidade de escolher seus próprios caminhos, de compreender sua existência para si e para o meio social. Comprar a vida impulsionada pelo Mercado gera uma existência importante apenas para este, uma existência de produto e não de ser.

 

A redação no vestibular

Ah, o vestibular! Momento de demonstrar o conhecimento adquirido, a capacidade de raciocínio, a capacidade de interpretar e produzir textos… Um dos fatores determinantes para que o candidato seja aprovado nas avaliações é a redação. Nos maiores vestibulares do país, ela tem um peso de 10% a 30%, isso sem falar sobre a importância da boa produção textual para as questões dissertativas que envolvem outras disciplinas.

Os vestibulares da Unesp e da USP (e a prova do ENEM) exigem de seus candidatos textos dissertativos. O ENEM exige o texto argumentativo com um critério a mais de correção: uma proposta de intervenção social sobre a questão abordada. A Unicamp e outras universidades como UEL e UEM também cobram do vestibulando outros gêneros textuais. O tipo de texto mais cobrado, de uma maneira geral, a dissertação argumentativa, é um texto que possui a apresentação do assunto, uma tese (um ponto de vista sobre o assunto), argumentos que desenvolvam, comprovem essa tese, e a conclusão. Já os outros gêneros textuais trabalham as mais variadas modalidades que envolvem a escrita; pode ser uma carta, um e-mail, uma entrevista, um conto, uma crônica, uma síntese, uma notícia, um resumo, um manifesto etc.

Para que o candidato elabore um bom texto, é importante que esteja sempre praticando não só a escrita, como também a leitura. Ele não precisa saber minuciosamente determinado assunto. O importante é que ele consiga desenvolver um pensamento próprio e não uma “reprodução genérica” sobre o tema. A isso podemos denominar de “conceito de autoria”: quando o candidato produz um texto com autonomia, com personalidade; um texto pelo qual ele demonstre que possui identidade e, na maioria dos gêneros textuais, senso crítico.

Muitos jovens acreditam que, por exemplo, uma dissertação argumentativa deve ter cinco parágrafos, sendo o primeiro para a tese, o segundo, terceiro e quarto para o desenvolvimento, para os argumentos, e o quinto para a conclusão; ainda acreditam que esses parágrafos, obrigatoriamente, necessitam de citações, alusões históricas, referências a obras literárias etc. Entretanto não são estes os principais pontos avaliados pelos examinadores. O texto pode ter dois, três parágrafos e, mesmo assim, receber a nota máxima. Na avaliação, cobra-se a adequação à proposta, o desenvolvimento do tema, a coerência, a clareza e, conforme disse antes, o conceito de autoria. As técnicas textuais devem ser utilizadas para facilitar a escrita, para melhorar o conteúdo e a estilística do texto, e não para “engessar” o vestibulando.

É claro que o texto no qual forem utilizadas, de forma coerente, citações, alusões históricas, referências literárias… receberá uma boa nota. Mas o candidato não deve ser um refém dessas técnicas, pois um texto sem estas pode até vir a ser melhor do que outro que as tenha. O que vale é o conteúdo; afinal, é este o motivo de haver a redação no vestibular, para que o candidato demonstre: a capacidade de comunicar pela escrita, de interpretar o tema, a coletânea e, assim, desenvolver o que foi pedido; e que é um ser pensante, e não um robô o qual só sabe repetir aquilo que os outros ditam.