Coluna Bahige Fadel

Confinamento Social

Demorei para escrever esta crônica. Precisei preparar-me para a nova realidade. Tenho setenta e três anos e, por isso, faço parte do grupo de risco.  Não bastasse minha responsabilidade e, principalmente, a de minha mulher, meus filhos estão fazendo marcação rigorosa, não nos dão folga. Fico até satisfeito com isso, pois demonstram que estão preocupados com os pais.

Não sei se está havendo exageros ou não. Sei que há pessoas que entendem mais do assunto, pessoas que entendem menos e pessoas que nada entendem. Esta é a hora de deixarmos as pessoas que entendem mais decidirem. Cabe a nós respeitar e colaborar. É o que estou fazendo. Não é hora de tirar vantagem política, não é hora de se posicionar como oposição ou como situação. É hora de se posicionar a favor da saúde. Da saúde minha e da saúde dos outros. Os governantes devem usar todos os meios e recursos, para diminuírem os problemas que já existem e os que, fatalmente, existirão. E não cabe à situação ou à oposição subir no palanque para fazer discursos. Isso tem que ficar para outra hora. Agora é a hora de evitar os males do coronavírus, depois resolver os problemas econômicos e sociais, que serão muitos.

Enquanto alguns políticos ficam se chutando em público, para demonstrar força, felizmente, há muita gente ajudando. Ontem, fui à vacinação da gripe. Estava pensando ficar umas duas horas na fila. Nada disso. Fiquei dois minutos. Tudo muito bem organizado e com um atendimento perfeito. O secretário da saúde estava presente para supervisionar. Estes colaboram. Hoje tive que ir ao correio para enviar um Sedex. Tive que ficar numa fila, na parte de fora. Dois funcionários atendendo gentilmente e com todo o cuidado. Em dez minutos já tinha sido atendido, sem nenhum aglomerado e nenhum perigo de contágio. Estes também colaboram. Algumas pessoas vi nas ruas. Todas elas faziam alguma coisa. Ninguém estava só passeando. Estes também colaboram.

Estou com saudade das aulas presenciais. Estou cansado de elaborar material para os alunos. Não me sinto bem. Preciso da presença dos alunos, para perceber se estão aprendendo ou se estão com algumas dificuldades. Tento preparar o material e os exercícios da maneira mais didática possível. Mas não é a mesma coisa. Nestas aulas, sou eu escrevendo o que sei; naquelas, sou eu vivendo com os alunos a arte da literatura. Nestas, não há arte alguma, não dá pra transmitir a sensibilidade do poeta ou do romancista ou do contista. ‘Eu sem você sou barco sem mar, sou campo sem flor’. Se escrevo isso, só escrevo isso. Se digo isso para os alunos, transmito arte, sensibilidade, o que sentiu o poeta ao separar-se da pessoa amada.

Mas a gente aguenta. O ditado diz que não há mal que sempre dure. Que dure pouco. E que produza para o mundo pessoas melhores e mais solidárias.

BAHIGE FADEL

É preciso paz

Pessoal, a gente precisa de paz para viver. Qualquer um precisa. Não é possível viver em constante turbulência. A gente precisa de uma noite bem dormida. A gente precisa de um dia bem vivido. A gente precisa ter um tempo para a gente mesmo, para o nosso lazer, para o nosso prazer. Não é justo ter que viver constantemente o que os outros aprontam para tirar o sossego da gente. Não é possível. Esse tipo de vida não é vida.

O que a gente fez de errado para ter que conviver com esse corona vírus? Que pecado a gente cometeu, para ter essa penitência? A gente não peca, mas tem que pagar pelo pecado dos outros? É justo? Agora, se vamos sair de casa, cuidado para não passar perto de alguém que esteja resfriado. Pode ser o corona vírus. Se você tem que dar a mão a alguém num cumprimento de respeito, lave as mãos com urgência, esfregando bem durante uns vinte segundos pelo menos, não se esquecendo dos vãos entre os dedos, pois a pessoa cumprimentada pode ter o corona vírus. É justo viver assim?

O problema não é só esse, infelizmente. Um mal, se vier sozinho, a gente ainda consegue enfrentar, mas os males vêm acompanhados. Eles têm parceiros. Têm cúmplices. Um mal nunca vem sozinho, não é? E a gente no meio do fogo cruzado. Se a gente consegue se desviar de um tiro, pode ser apanhado por outro. Um mal atrás do outro. Males físicos e males morais. Os males vêm a cavalo e a gente está a pé.

Agora, se a gente quiser ir ao cinema para assistir a um bom filme, tem que pensar cem vezes. E se no cinema houver alguém com o corona vírus? A gente pensa, e não vai ao cinema. Deixa de assistir a um bom filme. Fica frustrado. Que mal eu fiz, que fico impedido a assistir a um filme de que eu gosto? Se eu quero jantar num restaurante com a minha mulher… será que eu vou? E se o garçom estiver com o tal do corona vírus? E se o casal da mesa ao lado estiver infectado com o corona vírus? Penso, e não vou. Peço uma pizza por telefone. Assim mesmo, tenho medo de que o entregador esteja com o tal do corona vírus. Penso até – ridículo – em desinfetar a pizza, para não ter nenhum problema.

Não dá. Não é justo. Se tenho que ir ao supermercado para comprar o indispensável para viver, tenho que organizar uma estratégia de ida e de volta. Tenho que cumprimentar as pessoas a distância. São pelo menos dois

metros. Quando estiver no caixa, tomar cuidado para não ficar muito próximo da moça que vai me atender. Isso não é vida. Daqui a pouco, se a coisa apertar, vou ter que dormir em quarto separado da minha mulher. Ela pode estar com o corona vírus. Ou eu. E não quero passar esse demônio para ela. É um saco.

Para piorar. Logo chegará o inverno. E esse desgraçado do corona vírus parece que gosta de frio. Ele que não venha se acomodar em mim. Vou estar preparado. Vitamina C pra você, desgraçado!

Bahige Fadel

Assim é Fácil

Há muito tempo, tenho ficado ressabiado com certa forma de governar. E não estou falando de governadores de esquerda ou de direita. Estou falando de todos ou, pelo menos, da maioria. Parece que a única saída para a crise é o aumento de impostos e/ou a retirada de vantagens adquiridas. Está faltando dinheiro? Aumentem-se os impostos. A Previdência está falida? Aumentem-se os impostos e retirem-se as vantagens. Assim é fácil. Qualquer um é capaz de governar desse jeito. Só que, fazendo isso, além de prejudicar a população, cria-se apenas uma solução temporária, pois, se a estrutura não foi melhorada, num futuro próximo a falta de dinheiro voltará a ocorrer. Para solucionar o novo problema, o que é que os governos farão? Aumentarão os impostos e/ou retirarão vantagens adquiridas, se é que ainda existirão as vantagens. E fica um círculo vicioso que não se completa nunca e nunca trará uma solução definitiva para o problema.

Recentemente, foi aprovada a reforma da previdência do governo do estado de São Paulo. A base da reforma qual foi? O aumento da alíquota de contribuição previdenciária passou de 11% para 14%. Indiscriminadamente. Não há distinção entre os que ganham mais e os que ganham menos. O funcionário que ganha R$ 2.000,00 por mês contribuía com R$ 220,00; agora passará a contribuir com R$ 280,00. Já o funcionário que ganha R$ 20.000,00 por mês contribuía com R$ 2.200,00. Agora, passará a contribuir com R$ 2.800,00. Eu pergunto: o que fará mais falta? Os R$ 60,00 acrescidos à contribuição do funcionário que ganha R$ 2.000,00 ou os R$ 600,00 acrescidos à contribuição do funcionário que ganha R$ 20.000,00? Garanto que são os R$ 60,00.

Mas não é só isso. Está certo que mexeram em algumas coisas que podiam gerar maracutaias e injustiças, principalmente no caso das pensões. Mas mesmo aí cometeram várias injustiças. Não li nada, por exemplo, a respeito de salários monstruosos, conseguidos não sei de que maneira, que geram aposentadorias igualmente monstruosas. Por que será que não colocam a mão nessa ferida? No funcionalismo público – isso já foi provado – existem salários muito acima do que ganha o governador ou o presidente da república. E a gente sabe que isso é ilegal. Mas ninguém cita esse problema, porque mexe com pessoas importantes. Ninguém fala também em otimizar o serviço público. Deve ser muito trabalhoso. É mais fácil

aumentar o percentual de 11% para 14%, e pronto! Está resolvido. E devem ter contratado, por uma fortuna, uma importante empresa para fazer esse trabalho. Moleza!

Bahige Fadel

Ontem não nos pertence

Esses dias, estava eu assistindo a um filme, quando a fala de uma das personagens – uma professora – me fez refletir. Quando ela percebeu a revolta de um aluno, que era filho adotivo, disse a ele algo mais ou menos assim: ‘Ontem não nos pertence para consertar, mas hoje e amanhã nos pertencem para acertar e errar’.

E não é que é verdade? A raiva que o filho adotivo sentia por sua mãe tê-lo abandonado ao nascer – ontem – impedia que ele percebesse que era muito amado por sua nova família. E isso acontece todos os dias com muitas pessoas. Há aqueles que preferem remoer o que lhes aconteceu no passado a viver o presente. Destroem-se com o passado ruim e, com isso, não encontram tempo e lugar nos seus pensamentos para desfrutar o presente e tentar fazer dele um dia melhor do que foi ontem.

Se todas as pessoas adotassem esse pensamento, com certeza seriam mais felizes e fariam mais felizes outras pessoas. Imaginem se um jogador de futebol que perdeu um gol feito numa partida muito importante. Isso não dá para consertar mais. Já está feito. O gol já está perdido. Não adianta ficar ruminando esse erro. Não há nenhuma vantagem nisso. Muito pelo contrário. Se ficar pensamento e se martirizando pelo gol perdido, certamente perderá outros gols feitos e seu time será prejudicado várias vezes. O negócio é analisar por que errou e não cometer o mesmo erro outras vezes. O presente e o futuro estão aí para que possamos nos redimir dos erros passados. É no presente e no futuro que podemos melhorar, não no passado. O passado já está pronto. O presente e o futuro ainda estão por fazer. E cabe a nós fazer deles dias melhores.

A professora destacou para o aluno que o presente e o futuro nos pertencem para acertar e errar. Isso mesmo. Se a gente não ficar vivendo o que já passou e procurar construir alguma coisa no presente, fatalmente correremos o risco de acertar e errar. A possibilidade do erro não deve inibir as nossas ações. Errar faz parte do jogo. O importante é que tenhamos sempre o objetivo de acertar e, por isso, devemos preparar-nos para reduzir a possibilidade do erro.

É desse jeito que ocorre o desenvolvimento humano. Imaginem quantos erros se ocorreram antes que as grandes invenções ocorressem. Se os grandes inventores ficassem vivendo apenas os erros cometidos no passado, com certeza não teriam tempo e disposição de acertar numa nova tentativa. Os erros do passado só servem para a gente não fazer do mesmo jeito novamente. Os erros do passado só devem servir para a gente se aperfeiçoar e, com isso, tornar-se uma pessoa melhor, mais competente, mais capaz.

Na vida, vez ou outra a gente vai perder um gol feito. O importante é que nos preparemos melhor, para acertar da próxima vez.

BAHIGE FADEL

Sem Surpresas

O IDESP – Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo – divulgou, nesses últimos dias, o resultado de 2019. Não houve surpresa alguma. O que se revelou era o esperado. O IDESP mostra o que aconteceu na educação pública do estado de São Paulo, desde o ensino fundamental até o ensino médio, com o objetivo de organizar planos de melhoria de qualidade. Existem metas a serem alcançadas em cada nível. O marco final é 2030.

No ensino fundamental, como já se esperava, já que tem ocorrido há vários anos, houve uma pequena melhoria. Na fase inicial, passamos de 5,55 para 5,64. A meta para 2030 é 7,0. Na fase final, passamos de 3,38 para 3,51. A meta é 6,0. O calcanhar-de-aquiles, como o esperado, está no ensino médio. Passamos de 2,51 para 2,44. A meta é alcançar 5,0. Ou seja, além de não progredirmos no ensino médio, tivemos um retrocesso, o que corresponde a dizer que o que foi feito (ou se deixou de fazer) não deu bons resultados e, por isso, alguma coisa tem que ser mudada.

O leitor me perguntará por que isso está acontecendo com o ensino médio das escolas públicas do estado de São Paulo. Não posso cair no simplismo ou na ingenuidade e relatar um só motivo. Não seria honesto. Há vários motivos que fazem com que o ensino médio não esteja alcançando os seus objetivos. Para atingir a meta de 2030, o ensino médio das escolas públicas do estado de São Paulo terá mais que dobrar a sua qualidade. E isso, hoje, parece missão impossível.

Um dos motivos principais, sem dúvida, é que o ensino médio das escolas públicas do estado de São Paulo não prepara bem os alunos para enfrentar os grandes vestibulares nem lhes dá uma profissão em nível técnico. Essa lacuna, na questão profissionalizante, é preenchida, felizmente, pelas escolas técnicas, como a Escola Industrial de Botucatu.

Ora, se o aluno sabe que não terá uma profissão ao concluir o ensino médio nem terá a preparação necessária para enfrentar os grandes vestibulares, o que o motivará para os estudos? Nada. Assim, o número de alunos que desistem ao longo do ano é alarmante. O aluno, sem perspectivas, fica desmotivado. E essa desmotivação do aluno, por tabela, desmotivará também o professor, ao ver que o seu trabalho não desperta o interesse de seu aluno. Por outro lado, sem conhecimentos suficientes para enfrentar os grandes vestibulares, o aluno concluinte do ensino médio procurará faculdades de menor projeção ou mesmo aqueles cursos virtuais, que proliferam no Brasil. Muitas vezes, nem isso, pois o jovem não tem condições de pagar. Daí vem a frustração. A revolta.

Consta que o governo do estado de São Paulo está alerta e já começou a criar meios de mudar esse estado de coisas. Vamos aguardar. Já se perdeu muito tempo com projetos que sugaram o dinheiro do Estado e trouxeram raros benefícios.

BAHIGE FADEL

Último dia de férias

Estou escrevendo esta crônica no meu último dia de férias. Foram férias necessárias. Embora já não trabalhe tanto como na juventude, percebo que, com o passar dos anos, o corpo resiste menos e precisa de mais descanso, para suportar o batente do ano letivo. E obedeci ao meu corpo. Dei-lhe o descanso necessário. Ele mereceu. No ano passado, ele não negou fogo nenhum dia. Não precisei faltar, me atrasar ou sair mais cedo de meus compromissos.

Na semana que vem, recomeça o batente. Não é bem um bateeeeente, mas um batentezinho, que requer do corpo e da mente um certo esforço, uma certa dedicação, um espírito de luta maior, se é que me entendem. Com a idade, se a gente der uma relaxada, pode sofrer as consequências e não consegue recuperar mais. Assim, descansei o corpo e a mente e, em alguns momentos, procurei atualizar-me mais em minha profissão. Não, não fiquei estudando metodologias diferentes. Estou velho demais para mudar os métodos. Procurei aprimorar as que já possuo. Deixá-las mais eficientes. Inclusive os conteúdos. Escrevi certa ocasião que professor não é museu. O professor tem que se atualizar, aprimorar-se, compreender melhor o mundo em que vive, para perceber as necessidades reais de seus alunos.

Todas as pessoas deveriam ter esse tipo de preocupação: aprimorar-se. Para que isso aconteça, a pessoa tem que gostar do que faz. Se a pessoa gosta do que faz, sente-se feliz fazendo. Se ela fizer cada vez melhor aquilo que tem que fazer, mais feliz ela se tornará. Porque ninguém se sente feliz ao realizar alguma coisa de maneira ruim.

Infelizmente, as coisas não são assim. Conheço pessoas que odeiam o que fazem. Para elas, ir ao trabalho é um martírio. Não gostam do que fazem e procuram incutir nos outros o mesmo sentimento negativo. E às vezes conseguem. Fica um ambiente terrível. E a produtividade se torna sofrível. Quando se trata do magistério, é ainda pior, porque os alunos percebem tudo e reagem. A aula se torna pesada, triste, inútil.

Na política também deveria ser assim. Os políticos deveriam aperfeiçoar-se, atualizar-se, tornar-se mais competentes. Eles têm uma missão das mais nobres, mas muitas vezes temos a impressão de que eles não têm a mínima noção da importância de seu trabalho. Entram na política para satisfazerem o seu ego, para se sentirem importantes, para serem ‘autoridade’. Outros são ainda piores: entram na política para se locupletarem, para tirarem benefícios próprios. Ainda bem que não são todos assim. Há aqueles que querem o bem do Brasil ou de sua cidade.

Os mais críticos não precisam preocupar-se comigo. O meu otimismo não me cega. De jeito nenhum. O meu otimismo é uma forma de ter esperanças. E com a esperança, a gente tem que trabalhar por dias melhores.

BAHIGE FADEL

Ano Novo… Vida Nova?

A gente, por vício ou por tradição, costuma dizer às pessoas ‘feliz ano novo’ ou ‘ano novo, vida nova’? Será? Não faz mal a gente desejar que o ano novo seja feliz. Pelo contrário, faz muito bem desejar coisas boas para os outros. Desejar coisas boas para os amigos e os parentes pode ser o mesmo que desejar coisas boas para nós mesmos. Afinal, se as pessoas que amamos estão bem, nós também estaremos.

Mas as coisas não funcionam assim. O buraco é mais em baixo. Afinal de contas, o ano novo é mais uma data. Nada mais que isso. Para que o ano novo seja melhor, a gente é que precisa ser melhor. Para que o ano novo seja diferente, a gente é que precisa ser diferente. Se a gente pensar e agir da mesma maneira, tudo tenderá a acontecer da mesma maneira, não importando se o ano é novo ou velho.

Mudar o ano é fácil. É só ter paciência e esperar que os 365 dias passem. Independente da nova vontade, o ano muda, chega o ano novo. A gente faz festa, se reúne com a família e os amigos – o que é muito bom – mas e daí? O dia será o dia seguinte, como amanhã será o dia seguinte, como ontem foi o dia seguinte em relação a antes de ontem. Isso é a rotina que independe da nossa vontade. O que depende da nossa vontade são nossos pensamentos e nossas ações. Isso muda as coisas. Isso pode deixar tudo melhor. Se a gente se propuser a fazer coisas melhores e insistir até conseguir, os dias serão melhores não só para nós, mas para os outros também.

Tomara que este ano seja melhor. Merecemos dias melhores, após passarmos por anos pouco positivos. O ano será melhor, por exemplo, se a violência diminuir. Mas para que a violência diminua, é preciso que a gente faça alguma coisa. Podemos ser mais pacientes e compreensivos. Podemos ser mais tolerantes com nossas fraquezas e as fraquezas dos outros. Precisamos aprender a nos colocar no lugar dos outros.

O ano será melhor, se não formos tão alienados, se não aceitarmos mais a corrupção endêmica que se alastra pelo Brasil. É preciso que deixemos de aceitar como normal a ‘lei de Gerson’, ou seja, querer levar vantagem em tudo. O ano será melhor, se a gente for mais justo em nossas ações e exigir que os outros também sejam justos. Não podemos tolerar a injustiça. O ano será melhor, se formos mais competentes que o ano anterior. Para isso, não podemos ter preguiça, temos que nos preparar bem, para que as nossas atividades sejam executadas de maneira cada vez mais perfeita. O ano será melhor, se a gente conseguir eleger governantes bons, se a gente não fizer concessões só porque somos amigos ou parentes deste ou daquele candidato. O ano será melhor, se a gente fizer alguma coisa para que a educação seja melhor, para que a educação não seja apenas mote de demagogia e campanha eleitoral, mas que tenha como objetivo principal a formação integral das crianças e jovens.

Enfim, o ano será melhor, se houver mais pessoas felizes e que essas pessoas felizes sejam as melhores pessoas, aquelas que praticam o bem, a verdade e a justiça. Para essas pessoas, feliz ano novo!

Bahige Fadel

A Valorização do Professor

Pesquisa recente esclareceu que o Brasil é um dos países que menos valoriza o professor. Até aí, nenhuma surpresa. Não é preciso ser um especialista para chegar a esse resultado. Basta entrar numa sala de aula de ensino médio, por exemplo, e perguntar aos alunos quem deseja ser professor. Haverá um silêncio sepulcral. Ninguém está a fim de ser professor. Bem, para não ser radical, vamos dizer que quem deseja ser professor é exceção, não regra.

E por que isso acontece? Não se pode ser simplista e dizer que existe apenas um motivo. Os simplistas dizem que o salário do professor não atrai o jovem de hoje. Isso não é a verdade total. É certo que o salário não é lá essas coisas, mas o motivo principal não está aí. No mundo competitivo de hoje, em qualquer profissão que se exerça o cara tem que ser competente. Se não for, não vai ganhar bem. Há médicos que ganham mal. Há advogados que ganham mal. Como há médicos e advogados que ganham muito bem. Com o professor acontece a mesma coisa. Se for competente, poderá não ganhar tanto quanto o médico competente, mas com certeza será bem remunerado.

O desprestígio da profissão de professor está diretamente relacionado aos caminhos tortuosos que são trilhados pela educação brasileira. Os resultados das avaliações externas nos deixam envergonhados. Estamos quase sempre nas últimas posições, perdendo para países muito mais pobres. Até na América do Sul, em que deveríamos ser reis, estamos abaixo de países como Argentina, Chile e Uruguai.

Em primeiro lugar, os nossos dirigentes têm uma visão muito imediatista de educação. Um mandatário quer realizar algo, para que fique como marca de seu governo. Ninguém quer fazer um plano consistente que poderá dar resultados no futuro. O mandatário quer lançar o plano e colher os resultados no seu mandato. O resultado é sempre o mesmo: tudo é feito de afogadilho, sem nenhuma estrutura consistente e os resultados são esses que vemos há anos.

Por outro lado, os governantes querem sempre realizar coisas que são vistas com facilidade pela população, como a construção de novos prédios, como a aquisição de uma parafernália no campo da informática… Coisas assim. Enquanto fazem questão de gastar dinheiro construindo

prédios, os que já existem estão semiabandonados e alguns estão ociosos, em boa parte. Isso fica bem para o político. Mas não fica bem para a educação.

Valorizar o professor corresponde a dar-lhe meios de se aperfeiçoar constantemente. Corresponde também a oferecer-lhe uma estrutura condizente com as necessidades de seu trabalho. A ele também devem ser dadas condições reais de trabalho e autoridade para desempenhar bem suas funções. Ao professor deve ser dada a oportunidade de ter um trabalho continuado com uma clientela. O professor não pode ser apenas um repetidor de decisões de pessoas que não conhecem o aluno, a escola e o meio em que está inserida.

O professor deve ser um líder, numa pessoa motivada e engajada na atividade que desenvolve. O professor deve ser uma pessoa feliz e bem-sucedida. Ninguém quer aprender com uma pessoa infeliz e fracassada. Enquanto não se trabalhar a figura do professor, não conseguiremos bons resultados na educação. E continuaremos a lamentar as mesmas derrotas de sempre.

colunista: BAHIGE FADEL